Texto por Marco Fialho
O documentário Os Olhos de Gana é uma produção estadunidense, dirigida por um canadense, que resgata a história de um cineasta de Gana, Chris Hesse, de 93 anos, que luta para que a memória política do seu país seja preservada e contada pelo seu povo. Em torno dele giram outras histórias que se cruzam a dele. A produção executiva é de Barack e Michelle Obama, que fazem uma desnecessária apresentação antes do filme iniciar.
Como personagem, Chris Hesse é fantástico e o principal narrador de Os Olhos de Gana, ciente de seu papel como artista e que está no entardecer (esse é um termo utilizado por ele) de sua vida, esse ganense discorre sobre uma vida de desafios até tornar-se cinematógrafo de Kwame Nkrumah, primeiro presidente pós independência colonial do país. Hesse realizou vários filmes sobre o presidente, com a proposta de contar a história de Gana pela perspectiva popular.
O filme entrelaça Chris Hesse com mais dois personagens, um deles é Anita, uma jovem que decide fazer um filme sobre ele e o Sr. Addo, um idoso projecionista que sonha em reativar o cinema Rex, um dos mais tradicionais na Era de Ouro do cinema em Gana. Estranhamente, Addo mora no cinema abandonado, para cuidar dele e chega a abandonar a família. Já a jovem cineasta constrói uma amizade com Hesse e será a pessoa a juntar todos em torno de um sonho de revitalizar o Rex com uma exibição de filmes de Hesse.
A trajetória de Hesse só foi possível graças ao sucesso político de Kwame Nkrumah e sua proposta utópica de unificar a África pelo cinema. O cinema seria o instrumento que possibilitaria a conscientização da África em seu processo de ser não só independente como um único país, os Estados Unidos da África. O filme registra a ascensão de Kwame e sua derrubada do poder por um golpe de estado dado pelos militares financiados pelos Estados Unidos. Nesse golpe, todos os arquivos de Gana, inclusive os filmes, são queimados pelo novo regime.
O interessante de Os Olhos de Gana é o afeto que transborda em várias cenas, especialmente as de Hesse com Anita, a jovem cineasta e a garra dele em lutar pela recuperação dos filmes que estão em Londres, pensando na memória do cinema de Gana. O documentário frisa o absurdo do processo colonial e a usurpação das riquezas do país e a exploração da mão-de-obra dos trabalhadores. É valido ainda o pensamento de Hesse em relação ao cinema e como eles aprenderam na faculdade a história do cinema nos Estados Unidos e Europa, alimentando uma perspectiva típica do colonialismo. Para Hesse a África deveria ela mesma contar a sua história e não os colonizadores.
Embora a história seja cativante, assim como os personagens, a escolha por um diretor canadense faz o filme enveredar por vícios narrativos que contradizem a ideia de um cinema africano feito pelo viés africano. Uma evidência disso é o uso exagerado da música como um elemento a querer acrescentar um sentimento a mais à história. Em vários momentos (vários mesmo!) a música se sobressai ao que está sendo narrado e até desvia a nossa atenção para ela, estratégia bem conhecida dos filmes de Hollywood para enaltecer cenas que já são emocionantes por si.
Não temos conhecimento dos bastidores da produção, mas a escolha por uma abordagem voltada para um cinema que tende salientar o aspecto emocional dos fatos em nada contribui para uma visão objetiva e anticolonialista que o filme se propõe para si. Quando o tema não corresponde à narrativa adotada algo de estranho fica no ar e a desconfiança nos detona um sinal de que pode haver uma apropriação narrativa de uma cultura por outra. Os Estados Unidos financiam um golpe militar, que tenta destruir a memória de uma narrativa de independência e soberania dos povos, mas eis que a "mão benfeitora" do mesmo país que participou do apagamento vem para acudir o oprimido.
A partir de então, o que parece ser um ato de boa fé, logo aguça perguntas sobre o excesso de bondade que cheira visivelmente uma proposta neocolonialista, ou se preferirem, decolonial, o que faz as perguntas brotarem incessantemente em nossas cabeças. Por que não convidar um artista de Gana ao invés de um canadense para a empreitada de filmar a um país da África (poderia ser a própria Anita), para que o filme tenha uma perspectiva verdadeiramente africana e com uma linguagem mais própria e apropriada? Precisamos mesmo ouvir uma música épica que parece extraída de um filme histórico de Hollywood no contexto desse filme? O tratamento heroico desses 3 personagens, não os transformam em uma espécie de super-herois que Hollywood tanto reforça em seus filmes? Essa perspectiva adotada não salientaria mais o viés dramático do que a luta política daquele povo? Será que tomados pela emoção nos esquivamos da racionalidade do pensar e como espectadores nos tornamos passivos diante dos fatos? São perguntas que ficam no ar e que levamos para casa ao final da sessão.

Comentários
Postar um comentário
Deixe seu comentário. Quero saber o que você achou do meu texto. Obrigado!