Texto por Marco Fialho
O cineasta espanhol Julio Medem se consagrou com o filme Os Amantes do Círculo Polar (1998), que narra uma história de encontros e desencontros improváveis, amores e formação familiar inusitada, sempre mediados por uma ideia de circularidade. Na verdade, essa é uma tônica de obras como Caótica Ana (2007), Lucia e o Sexo (2001), Um Quarto em Roma (2010) e Ma ma (2015), mas o curioso é que em Oito Décadas de Amor o diretor insere um elemento novo e instigante na sua filmografia: a política.
Julio Medem enfoca várias décadas, de 1931 até 2021, o que abarca os 90 anos dos dois protagonistas: Octavio (Javier Rey) e Adela (Ana Rujas), ele educado por uma família fascista e ela por um pai republicano. Eles nascem no mesmo dia e o diretor irá fazê-los morrer no dia em que completaram 90 anos.
Mais do que tratar a história desses personagens, Julio Medem elabora algo maior ao expor por meio deles as fragilidades históricas da Espanha, da Guerra Civil Espanhola até a Covid-19. Pode-se dizer, que a polarização política está no cerne de Oito Décadas de Amor. Eis como esse filme se revela atual por refletir uma realidade da Espanha, mas que guarda similitudes com diversos outros países no mundo contemporâneo.
Contudo, o mais interessante de Oito Décadas de Amor é a maneira com que Julio Medem escolheu contar essa imbricada história. O plano sequência é o artifício utilizado por Medem para imprimir uma sensação que nos acompanha durante toda a narrativa: a do tempo estendido. Como desde a primeira cena todos os planos são filmados assim, ficamos com uma impressão de que vivemos os 90 anos dos personagens de uma única vez, o que causa um sentimento de cumplicidade nossa com as imagens, mas também de reflexão sobre o que acompanhamos.
Entretanto, Julio Medem não se contenta só com o aspecto político, ele vai mais fundo ao tratar das famílias por dentro, de como a política mexeu com os meandros da sociedade, seja para torná-la mais conservadora ou para identificar as revoltas possíveis dentro de uma ditadura militar que durou quase 40 anos, como foi a do General Franco. Algumas cenas chamam atenção quanto a isso e Adela é a personagem que mais afronta o sistema até que um dia abandona a missa na igreja (lembrando que o catolicismo foi um dos sustentáculos do franquismo) e vai beber em um bar e cometer adultério com o primeiro que encontrou, no caso, Octavio. E Medem não esquece do simbolismo do véu preto no rosto como elemento de subversão. O erotismo pode ser apontado como um ponto de fuga e resistência contra um regime opressor como o do franquismo.
Medem traz ideias muito interessantes, como a inicial e a final em que temos o número 8, também simbólico quanto a ideia de infinito, reproduzido primeiro com as barrigas das grávidas no círculos do números e depois das cabeças deles idosos a desaparecer dentro dos círculos. O cinema de Julio Medem tem esse viés místico, de pôr em dúvida as coincidências da vida, pois elas sempre marcam ou um estado de sublimação ou uma tragédia. Mesmo que no geral, o desafio de Medem seja positivo na criação de esferas simbólicas, algumas encenações não são tão bem-sucedidas e soam destrambelhadas, como a do jantar em família dos 90 anos do casal, onde não identificamos a maioria dos personagens e os diálogos são frágeis, truncados, e as interpretações ficam a desejar e até confusas, a própria câmera não está à vontade nessa cena, como se não tivesse o que capturar ali.
Oito Décadas de Amor concebe a dor da divisão espanhola e a mostra por dentro numa mise-en-scène dinâmica em que a câmera persegue os personagens de maneira a sobressair a vertigem que emerge dessa história de ódios e amores bem demarcados e que espelham os últimos 90 anos da sociedade espanhola. De um lado temos uma mulher explosiva, de outro um homem fluvial, que tende a ser como as águas do rio, a fluir sempre para frente, a seguir seus instintos.
Esse é um filme que também está compatível a um rio, amparado pelas fortes correntes dos planos sequências, pois Medem sabe que a história não para. E mais do que isso, a história se impõe, e como dizia o compositor cubano Pablo Milanez, ela "atropela indiferente todo aquele que a negue". E a vida pulsa inclusive nos governos autoritários que teimam em freá-la.

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