Pular para o conteúdo principal

O ESTRANGEIRO (2025) Dir. François Ozon


Texto por Marco Fialho

Conhecido pela sua narrativa sempre repleta de peripécias, O Estrangeiro é sem dúvida o filme mais seco de François Ozon, talvez por ser baseado no livro do existencialista francês Albert Camus, que se sustenta por uma severa austeridade narrativa. É muito interessante como Ozon demonstra admiração pelo livro e respeita por demais a história e o tom quase sem emoção que Camus impõe à obra. 

Mas Ozon subverte o livro pela montagem, embaralhando a ordem cronológica de Camus e impondo uma abordagem em terceira pessoa, diferente do livro que opta pela primeira pessoa. A escolha por uma fotografia em P&B também confere um sabor diferente ao filme, uma crueza que o uso do colorido talvez amenizasse, uma maneira encontrada por Ozon para salientar a dureza que as palavras conferem ao livro e que as imagens coloridas poderiam amenizar. 

Mas é estranho ver François Ozon realizando uma versão mais clean para um filme seu, pois é sabido o quanto o diretor francês é chegado a uma ousadia na sua mise-en-scène. A encenação sempre foi um traço marcante em suas obras anteriores, marcadas por interpretações imprevisíveis, como a do professor Germaine (Fabrice Luchini) em Dentro da Casa (2012) ou da jovem Isabelle (Marine Vacth), uma burguesa que ousadamente escolhe se prostituir em Jovem e Bela (2013), ou as velhinhas amalucadas de Quando Chega o Outono (2024), ou ainda o arriscado triângulo amoroso hitchcockiano de O Amante Duplo (2017), apenas para citar alguns exemplos.

Em O Estrangeiro, as interpretações são muito mais contidas, com o ator Benjamin Voisin assumindo o protagonismo como Meursault, um jovem francês que vive numa Argélia insatisfeita com a política colonialista francesa. Mas O Estrangeiro não tem muitas referências políticas explícitas, somente algumas bem pontuais, embora a todo instante esse anticlímax sobressaia do enredo. Há uma tensão entre os "árabes" e os franceses e isso está colocado no conflito entre Raymond (Pierre Lottin) e o irmão de sua "namorada" argelina, que ele tenta violentamente a todo custo cafetizar. Camus mostra o quanto a política está enraizada na sociedade e influencia até a vida de quem se acha imune dela, como é o caso de Meursault.

Toda a história gira em torno da personalidade de Meursault. Sua indiferença e boicote ao mundo institucional é flagrante e seu comportamento aos poucos é considerado como perigoso ao sistema, pois ela se mostra um entrave e uma subversão silenciada aos seus valores mais prementes. Por isso, a chave para melhor pensar O Estrangeiro passa por Meursault e sua constante indisciplina perante à vida social. 

Visivelmente ele não se considera um ser desse mundo, seu deslocamento é visível em suas mínimas atitudes. Ele se coloca abertamente como anticlerical e se recusa receber um padre enquanto espera a execução de sua pena, mas também não acredita no casamento, no amor e na família como instituições, o que confunde a namorada Marie (Rebecca Marder), que espera por uma singela declaração de amor que jamais chega. Em paralelo, O Estrangeiro trabalha a memória, isto é, o que levaremos conosco quando percebermos que a vida está por um triz? Ao que tudo indica, somos permanentemente confrontados com raros momentos marcantes (que às vezes não percebemos o quanto eles o são) e a maioria, que são os desprezíveis e nos levam à indiferença.   

Inclusive, a indiferença de Meursault o levará ao limite da impossibilidade. Aos poucos vamos vendo o quanto tudo a sua volta é frágil, especialmente as amizades. O que resta a ele são seus estranhos vizinhos, como Raymond, o agressivo, e Salamano (um ótimo Denis Lavant), um turrão que briga com o cachorro como se fosse um entrevero entre marido e mulher. Meursault não escolhe nada, vai deixando a vida seguir seu curso e estabelecendo suas relações. Evidente que com essa postura, em algum momento algo daria errado. 

Não há uma busca de Meursault por um sentido, somente uma falsa aceitação da vida como ela é e da maneira tal como ela se apresenta a ele. Até o crime acontece assim, por meio de uma força que não se sabe qual é, mas que o faz avançar até a sua consumação. A única certeza é de que ali na Argélia ele é estrangeiro, quando na verdade ele o é em todos os lugares, pois é estrangeiro perante ao mundo, por não aceitá-lo tal como é. Ele sequer percebe que faz parte dessa mediocridade reinante, inclusive dos preconceitos típicos de uma sociedade desigual e violenta.

Ozon valoriza essa história por meio de uma austeridade que se nega a explicar, que expõe mais do responde. Assim, os espectadores precisam juntar as peças soltas de um quebra-cabeça que está disponível no tabuleiro cênico. Meursault é um homem de poucas palavras e seu silêncio influenciará em seu julgamento. Ele é conhecido por ser um homem frio, que não chorou no enterro da mãe e que sequer quis ver o seu corpo pela última vez. Camus mostra como as convenções sociais precisam ser seguidas à risca, sob pena da pessoa soar como desumana. 

O Estrangeiro tal como o livro de Camus, traz uma situação-limite para que possamos repensar o mundo em que vivemos, talvez até nos mostre como não podemos nos portar no mundo e trair os códigos rígidos da convivência humana. Ozon faz uma leitura interessante de Camus ao extrair do livro suas interrogações existenciais sobre as vicissitudes que construímos diariamente em nossas vidas. A vida, com certeza, não é só acordar, trabalhar, se divertir, namorar... e matar. Sua essência e profundidade estão postas em cada gesto cotidiano que fazemos. E mais. No gesto pode estar contida sua felicidade ou sua ruína.
    

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

CLOSE-UP (1990) Dir. Abbas Kiarostami

Texto por Marco Fialho "A arte é um sentimento que se experimenta, que o artista desenvolve nele para compartilhar com os outros". Frase que o personagem Sabzian atribui a Leon Tolstói Estudar o cinema de Abbas Kiarostami é mergulhar no imaginário do cinema. Um dos ícones do cinema iraniano dos anos 1980 e 1990, o diretor realizou obras cruciais para o pensamento cinematográfico contemporâneo. Obras como Gosto de Cereja (1997), Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987), Através das Oliveiras (1994), A Vida e Nada Mais (1992), e outras já produzidas nos século XX1, como Dez (2002), Cópia Fiel (2010) e Um Alguém Apaixonado (2012), todas fundamentais e merecedoras de serem estudadas, não só individualmente, mas também em conjunto para melhor se compreender o pensamento original desse cineasta iraniano, que junto com tantos outros seus contemporâneos, como Mohsen Makhmalbaf, Jafar Panahi e Majid Majidi, formaram a base do que hoje chamamos de cinema iraniano. Mas nesse texto vou come...

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

RETROSPECTIVA VIVIAN OSTROVSKY

Texto por Carmela Fialho Retrospectiva Vivian Ostrovsky "Para mim, cinema experimental significa ter liberdade total - liberdade de duração, de tema, de forma.(...) fazer o que você quer sem se submeter às regras comerciais. São outros valores, não é tanto sobre ser longe da indústria, mas sobre liberdade de criação. De resto, é frustrante ver que hoje o cinema está cada vez mais padronizado, com poucas surpresas".  Vivian Ostrovsky em entrevista inédita a Fernanda Pessoa, extraído do Catálogo do 31º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade 2026. Na retrospectiva Vivian Ostrovsky, assistimos ao programa 2, denominado corpos em trânsito, com os filmes Movie ( V.O.)  (1982); Idas e Vindas   (1984); Copacabana Beach  (1983); Domínio Público  (1996); e U.S.S.A (1985). O que unifica os cinco curtas são as filmagens de corpos humanos em diferentes atividades do cotidiano em várias regiões do planeta, como Estados Unidos, França, Brasil e a antiga União ...