Texto por Marco Fialho
É chover no molhado dizer que o realizador alemão Christian Petzold está entre os grandes cineastas contemporâneos. Obras como Em Trânsito (2018), Afire (2023) e Phoenix (2014) são alguns exemplos de sua capacidade criativa de por em suspenso as ideias cristalizadas dos espectadores sobre identidades fraturadas por guerras e outros litígios humanos.
Agora com Mirros Nº 3 o diretor se embrenha em diversas encruzilhadas e labirintos da condição humana, penetra nas subjetividades mais enclausuradas e nas esperanças mais palpáveis que surgem pelos caminhos da vida. Aqui, tanto Laura (Paula Beer, sua atriz fetiche) quanto Betty (Barbara Auer, simplesmente estupenda) se encontram por um acidente do destino, cada qual vivendo suas tragédias pessoais. Petzold mostra sua genialidade ao conduzir a trama revelando quase nada das vidas pregressas delas, como se assim desse pelo cinema mais uma oportunidade para ambas reconstruírem suas frágeis existências.
A narrativa seca de Petzold nos permite acompanhar essas vidas sem pressa, e para que iríamos querer correr aqui, afinal, estamos numa casa de campo avarandada, tranquila e presenciando o nascimento de uma linda e simples relação humana. A maioria dos planos fixos e alguns com movimentos serenos sustentam a leveza e a serenidade que está na superfície de Mirrors Nº3, mas não revelam os universos conturbados que cada personagem carrega consigo.
Acidentes e suicídios são camadas subterrâneas na trama de Mirrors Nº 3 e a todo instantes elas surgem inesperadamente vem à tona na narrativa, pois cada qual procura um novo espelho para que os seus rostos apareçam novamente refletidos, mas agora sem a névoa que turva a vida tanto de Laura quanto de Betty. Ambas sofrem de depressão, uma pela perda da filha (Betty), outra (Laura) pela vida insossa e infeliz que levava em Berlim ao lado do namorado. Esse encontro simboliza em certa medida um renascimento para ambas.
Mirrors Nº 3 possui um roteiro engenhoso de Christian Petzolt. A trama corresponde a um jogo envolvente entre memória e pertencimento. De repente, Laura aceita o jogo imposto por Betty que a coloca como um tipo de substituta da filha Yelena. Laura veste suas roupas, anda em sua bicicleta e toca em seu piano, a partir das partituras que ela deixou junto ao instrumento. A música mais crucial é justamente Mirrors Nº 3, de Maurice Ravel.
Esse imbróglio identitário fica mais sério quando aos poucos Petzold insere o marido Richard (Mathias Brandt, outra figurinha fácil dos filmes de Petzold) e o filho Max (Enno Trebs) no enredo, que por ora moram na oficina mecânica, afastados de Betty. Nas cenas em que eles aparecem, o desconforto é visível e logo se vê que algo de errado está no ar. Eles temem por Betty, que ela esteja em seu pior momento ao tentar substituir a filha por Laura.
O mais encantador na proposta de Christian Petzold é o quanto se carrega de esperança os personagens. Todos são humanos se esforçando para fazer o melhor possível. Betty busca um carinho perdido para a morte da filha, e Laura quer recomeçar a todo custo. Será que podemos escolher no meio do caminho da vida uma nova família e construir do zero novos sentimentos e afetividades? Petzold deixa a pergunta no ar e o melhor de tudo é que sua narrativa tomada por hiatos permite que cada um de nós possa buscar a resposta não só para o que vê na tela, mas quem sabe para a própria vida. Esse é o poder que o cinema também pode pleitear para o espectador. Tem ousadia, mas igualmente beleza nessa perspectiva.

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