Texto por Marco Fialho
O documentário Fernando Coni Campos: Cada um Vive Como Sonha (sub-titulo extraído de um pensamento do Padre Antônio Vieira), dirigido por Luis Abramo (filho de Fernando Coni Campos) e Pedro Rossi, é uma espécie de obra que se afirma por um intrínseco rescaldo de intimidade, que resvala por todas as bordas de uma película que está presente em cada frame desse belo filme. A montagem de Juliana Guanais persegue as ideias e os sentimentos do cineasta que vão se espalhando quase sem pretensão pela tela, amarrando imagens e sons quase que por uma intuição afetuosa.
A voz de Fernando Coni Campos nos chega de vários cantos, seja por um gravador ou por meio de entrevistas de época. Sua fala soa sempre majestosa, de quem sabe o que quer porque segue o coração. O cinema, que o próprio Fernando nomeou como a arte noturna, que precisa do escuro para poder se comunicar. A noite é o espaço dos sonhos que aliás era a matéria prima do seu cinema, não casualmente, o corte de olho por uma navalha no filme O Cão Andaluz, do mestre surrealista Luis Bunuel, causou tanto impacto em Fernando Coni Campos.
O sonho foi definitivamente o grande princípio ativo do cinema de Fernando Coni Campos, mas não o sonho vagamente falando, mais estritamente o do espectador. Para ele, o cineasta não deveria trabalhar com os seus sonhos, mas sim com os dos outros. O cinema não é assim um exercício egocêntrico ou egocentrado e sim um ato para despertar o sonho do outro e isso o diferiu da maioria dos cineastas que foram seus contemporâneos.
Luis Abramo e Pedro Rossi constroem seu documentário a partir da análise dos principais longas de Fernando Coni Campos, se valendo da voz dele e de outros profissionais que o conheceram ou trabalharam com ele. São depoimentos ótimos, que muito acrescentam à fortuna crítica que o filme quer realizar. Há um destaque para dois filmes, um é a Viagem ao Fim do Mundo (1968), filme importante para a filmografia brasileira e que se destaca pela primazia da forma e da experimentação de linguagem; e outro, para Ladrões de Cinema (1977), filme em que Fernando começa a desenvolver uma maneira original e popular de abordar a linguagem do cinema.
Viagem ao Fim do Mundo parte de dois capítulos que são os mais abstratos de Brás Cubas, de Machado de Assis, assumindo o indeterminado como mote. Muitos apontam esse filme como uma das portas que se abrem para o cinema marginal que estava sendo gestado à época de seu lançamento. Como diz o cineasta Julio Bressane, esse é um filme que enfrenta o espectador ao resgatar o ritmo da obra de Machado, não propriamente o seu conteúdo textual.
Em vários de seus filmes, Fernando Coni Campos trabalhou com um elenco recheado de atores negros, como no emblemático Uma Nega Chamada Tereza (1973), em que quase todos os protagonistas são negros e a cultura negra está no cerne do filme, inclusive musicalmente. Outro filme que vai na mesma linha é o surpreendente Ladrões de Cinema (1977), que conta igualmente com um elenco de peso de atrizes e atores negros. Esse é o maior clássico da carreira de Fernando Coni Campos, o mais reconhecido por críticos e colaboradores em geral, uma obra sobre o fazer cinema no Brasil e sobre as contradições do Brasil em si, que esboça uma ideia da crise identitária do país, com Grande Otelo, Antônio Pitanga, Milton Gonçalves, Ruth de Souza, Léa Garcia, Josephine Helena, Lutero Luiz e muitos outros.
Um dos pontos cruciais de Fernando Coni Campos: Cada um Vive Como Sonha é como o cineasta gostava de pensar com originalidade a própria natureza do cinema, combatendo a ideia da possibilidade de um filme ser realista, pois para ele, qualquer forma de filmar uma cena já desfaz a ideia de realismo. O cinema é sempre uma fantasia sobre o país e o mundo. Fernando dizia que Ladrões de Cinema traz a discussão da Inconfidência Mineira para o filme, mas diferentemente do filme de Joaquim Pedro de Andrade (Os Inconfidentes - 1972), sua visão não é do historiador, mas sim do poeta. O compromisso do poeta difere do historiador, pois o último visa o fato, já o primeiro pensa no sonho. O filme é todo representado na favela e Fernando ousa ainda mais ao entregar para Mano Décio da Viola, sambista do Império Serrano, as poesias escrita pelos inconfidentes, para que ele realizasse a música. Nascia um filme cuja linguagem tende para a brasilidade, para o genuíno e não como uma cópia rasa de algo já feito. Fernando Coni Campos chama isso de cinema popular, um cinema que entra em conflito com o filme feito para as massas.
Fernando Coni Campos: Cada um Vive Como Sonha é embalado pela preciosa trilha de Ruben Jacobina, que se entranha no filme com extrema delicadeza, que vira uma espécie de casca que nasce da própria ferida que emana da pele fílmica e acrescenta sem roubar uma cena sequer para si. Essa interação sonora se vislumbra poética tal como a obra de Fernando e é fundamental para que o espectador mergulhe junto na singularidade da obra de Fernando Coni Campos. Dessa forma, o documentário de Luis Abramo e Pedro Rossi consegue sublinhar a ideia mais importante do cineasta, de que o realizador de cinema deve fomentar nos espectadores o lúdico, o sonho, ao invés de impor o sonho dele para os espectadores. Para Fernando, o diretor de cinema devia procurar um psicanalista para falar de seus sonhos, não o espectador. Difícil não se abalar, de alguma forma, com esse pensamento.

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