ESPECIAL GIALLO COM OS FILMES SEIS MULHERES PARA O ASSASSINO (1964), TENEBRE (1982), UMA LAGARTIXA NUM CORPO DE MULHER (1971) E NO QUARTO ESCURO DE SATÃ (1972)
Texto por Marco Fialho
Giallo, um terror à italiana
Esse texto foi realizado para uma mostra temática em homenagem ao Terror Giallo, nas Unidades do Sesc em todo o Brasil, em 2018 e 2019.
A sedução exercida pela imagem é algo que muitos pensadores vem tentando compreender melhor. Mas quando essa sedução é permeada pela violência, a questão se torna um pouco mais complexa e nos faz indagar sobre o papel da imagem em nosso mundo contemporâneo. O terror é a vertente que mais se defronta com essa questão, e é no giallo, faceta italiana desse subgênero do terror, que talvez deixe mais evidente a relação entre violência, imagem estilizada e bela.
É sempre importante relativizar o que representa socialmente uma imagem. Ela não pode ser analisada simplesmente como uma verdade pronta e acabada. Uma imagem sem contexto descamba inevitavelmente para o blefe. Por isso, contextualizar, analisar, criticar e relativizar são atos necessários para a compreensão mais complexa acerca do papel que a imagem exerce na sociedade. A apropriação e a aceitação acrítica das imagens no mundo contemporâneo podem conduzir a um desastre coletivo, devido ao poder que as redes sociais e os mass media exercem atualmente em nossas vidas.
Quando pensamos que o terror giallo italiano, apesar de ter suas bases lançadas nos anos 1960, se desenvolveu estilisticamente nos anos 1970 com muitas produções, nos vem à mente que o período demarcado entre o final dos anos 1960 e o final dos anos 1970 ficou conhecido na Itália como "os anos de chumbo", cuja referência eram os chumbos das balas de revólver decorrência do número altíssimo de mortes por assassinatos. Esse tempo foi marcado pelo extremismo tanto da esquerda quanto da direita, esta última no financiamento da ascensão das máfias. Os atos extremamente violentos por parte da Brigada Vermelha, por exemplo, são representativos dessa época, com vários atentados que desestabilizaram o governo italiano, então constituído por uma coalizão entre democratas cristãos e os comunistas. Era natural que o cinema não escapasse desse clima e repercutisse de alguma forma essa violência. Outra vertente desenvolvida à época foi o chamado Cinema Político Italiano, que nos brindou com obras expressivas como A Classe Operária Vai ao Paraíso (1971), Investigação Sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita (1970), ambos de Elio Petri, e Sacco & Vanzetti (1971), de Giuliano Montaldo.
Contudo, o giallo nessa conjuntura conturbada ficou fora das discussões políticas. Todavia, muitos de seus filmes esboçam críticas à formação social da Itália, caso de Seis Mulheres Para o Assassino, de Mario Bava, bastante ácido em sua construção dos personagens burgueses, que ostentavam títulos de conde e marquês, apesar de nutrir um gosto pervertido pela violência.
Inclusive, o que mais chamou atenção nos giallo dessa época foi a incorporação da violência nos enredos, mais especificamente dos assassinatos presentes como marca registrada das obras. O giallo esforçou-se na estetização da violência, e foi mais longe ainda, por nos fazer cúmplices dela. Não à toa seus diretores escolheram a câmera subjetiva como ponto de vista de seus filmes. De repente, nós espectadores assumimos o olhar do assassino. O giallo nos promoveu de voyeurs a assassinos pervertidos, e isso foi realizado de maneira tão sedutora que sequer reparamos a mudança. Hitchcock nos mostrou o quanto o cinema nos transformava em compulsivos voyeurs, mas foram os italianos do subgênero em questão que nos apresentaram o prazer de matar no cinema. Por isso, a obsessão dos diretores giallo pelo close na mão e o gosto insinuante pelo plano-detalhe da luva preta ameaçadora.
Também foi o giallo que nos despertou o prazer pelo corte, pelo vermelho abundante do sangue jorrando pescoço abaixo e da câmera inquieta e perseguidora. O giallo é a obsessão perversa do nosso olhar, o prazer de sentir o assassino desferir o golpe de misericórdia na vítima, que traz algo de doentio em nós, essa vontade irrefreável de penetrar na imagem, de sermos cúmplices até da compulsão de matar.
Nos próximos textos discorreremos sobre os quatro maiores diretores do subgênero giallo: Mario Bava, Dario Argento, Lucio Fulci e Sergio Martino. Cada qual com o seu estilo peculiar tingiu o giallo com suas tonalidades marcantes. A presença de um assassino é um dos traços detectáveis, mas muitas vezes a figura do serial killer pode aparecer com relativo destaque. A música também é agregada como um elemento expressivo para sublinhar o suspense das cenas ou para pontuar a atmosfera lúdica que permeia o giallo. Como quase sempre a história dos filmes se passa na alta sociedade italiana, os personagens são na maioria das vezes brancos e bem-sucedidos, tanto os assassinos quanto os assassinados.
Reflexões sobre 4 filmes:
Seis Mulheres Para o Assassino (1964) Dir. Mario Bava
Mario Bava é um dos diretores mais injustiçados da história do cinema. Entretanto, não resta dúvida sobre sua presença no cinema italiano: foi um dos grandes, um diretor talentoso e estiloso. Conhecia como poucos a arte do cinema. Sua experiência como fotógrafo cinematográfico foi decisiva para o que faria depois como diretor. Deixou sua marca em diversos gêneros, como a ficção científica, o filme histórico épico, o suspense e o terror. Do giallo pode-se afirmar como um dos fundadores e mestre inquestionável, tendo ditado seus fundamentos e criado as convenções de tudo que seria considerado as principais pressupostos estilísticos desse subgênero que desenvolveu especialmente na indústria cinematográfica da Itália.
Uma das grandes características do estilo giallo de terror é a forma pela qual os cenários são concebidos, fato esse facilmente sendo identificado em Seis Mulheres Para o Assassino. O estilo art déco, mais do que um elemento meramente decorativo na trama, adquire mesmo um protagonismo tal o papel que Bava reserva para os cenários no conjunto de seu filme. E esse não é só um trabalho desenvolvido em Seis Mulheres Para o Assassino, pois chega a ser uma marca sua como diretor. Mas fica evidente que essa supremacia do cenário não é casual. O que cada ornamento representa na concepção do filme tem um peso, um valor mais de significante do que de significado. Aliás, um dos artifícios de Bava é o de fazer com que cada elemento visual de suas obras seja tão relevante quanto a própria trama que está sendo narrada.
Entender e incorporar o visual como um ente protagonista de suas histórias deve ser encarado como um atributo de seu poderoso cinema. Talvez sua formação de fotógrafo tenha lhe dado essa atenção especial pela imagem, um apuro notório presente na maioria de seus filmes. Cada cena possui um conceito fotográfico, um detalhe no que vai ser iluminado e no que se tornará sombra. Há feixes de luz e cor perfeitamente construídos, como se Bava quisesse nos mostrar que todo o artificialismo da sociedade retratada está inteiramente contemplado nessa concepção visual. Todavia, Seis Mulheres Para o Assassino é uma obra para ser fruída com os sentidos, porque são eles os que mais nos revelam os meandros dos personagens. Nesse ponto, o filme é um autêntico giallo, em que as diversas camadas da imagem dialogam com um perfeccionismo impressionante. Claro que a camada sonora também imprime muito corpo às imagens, pois ela pontua sentimentos, sustos e momentos de surpresas impactantes que emanam da história.
Entretanto, o que mais impressiona em Seis Mulheres Para o Assassino é o quanto Bava consegue fazer uma síntese da decadente sociedade italiana do pós-guerra, introjetando uma superficialidade acachapante, expondo as ambições sem limites de personagens falidos que hipocritamente escodem suas sujeiras debaixo dos títulos nobiliárquicos que sustentam. Não casualmente, o diretor investe no universo da moda como simulacro desse mundo em ruínas, putrefato, prestes a desabar e ser chafurdado em sua própria lama.
Tenebre (1982) Dir. Dario Argento
O roteiro de Tenebre foi inspirado por um incidente real, as ameaças de morte sofridas pelo próprio diretor Dario Argento (Suspíria). O filme, realizado numa época prolífica do diretor, tem influências bem marcadas do mestre do giallo, Mario Bava. A câmera estilosa e protagonista pode ser um bom exemplo da sombra baviana que paira sob essa obra magnífica de Argento.Uma das facetas mais incríveis desse Uma Lagartixa Num Corpo de Mulher, giallo roteirizado e dirigido pelo mestre Lucio Fulci, é a permanente fronteira entre sonho (ou seria pesadelo?) e realidade, entre erotismo e mistério. Em muitos momentos, tudo lembra também trechos de comerciais de TV, pois há uma atmosfera artificial, com uma imagem extremamente clean e cortes abruptos em algumas cenas. Ficamos sem saber se o flerte com o universo psicodélico (tipo de arte criada a partir de experimentos com drogas lisérgicas nos anos 1970) pertence aos personagens ou é resultante do fascínio do próprio Fulci por esse universo.





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