Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho
Vivian Ostrovsky é conhecida por seus trabalhos como curta-metragista experimental, filmes como Copacabana Beach (1983), Idas e Vindas (1984), U. S. S. A.. (1985) e tantos outros produzidos entre os anos 1980 e os nossos dias. Portanto, Elizabeth Bishop: Do Brasil, Com Amor chega como uma surpresa por se tratar de um documentário de longa-metragem sobre a famosa poeta norte-americana e sua passagem longeva pelo Brasil, e mais especificamente pela Zona Sul do Rio de Janeiro e Petrópolis.
Essa passagem pelo Brasil se alongou sobretudo pelo envolvimento de Elizabeth com a arquiteta brasileira Lota de Macedo Soares. A diretora prioriza as cartas pessoais, trocadas com amigas de seu país de origem, onde Bishop relata suas impressões sobre o Brasil, principalmente Rio de Janeiro, Ouro Preto e Petrópolis, esse último lugar onde viveu com Lota em meio a natureza e conseguiu retomar a sua produção literária.
A diretora Vivian Ostrovsky assume a função de Bishop, lendo suas cartas com as suas impressões sobre o cotidiano, seu relacionamento com Lota, viagens e a política. Graças a Lota, que tinha amizade com o Governador da Guanabara Carlos Lacerda, da UDN, partido de oposição a Getúlio Vargas nos anos 50, Bishop defendia uma posição política à direita nos seus relatos. A pobreza brasileira lhe afrontava ao invés de indigná-la, como se eliminar os pobres fosse o caminho para acabar com a miséria.
Inclusive nos anos 60, Lota foi convidada por Lacerda a participar da realização do projeto de criação do Aterro do Flamengo, trabalhando junto com o prestigiado paisagista brasileiro Roberto Burle Marx, o que fez Bishop ficar muitas vezes sozinha na casa de Petrópolis, projetada por Lota, onde tinha um espaço exclusivo para trabalhar a sua escrita literária e as reportagens. Esse período, inclusive, foi muito produtivo para Bishop na criação de vários livros de poesia, dedicados às formas e a beleza selvagem da natureza. Elizabeth à época, ainda trabalhou para a revista norte-americana Life Magazine, realizando reportagens sobre a cultura e geografia brasileiras.
A narrativa do documentário se revela excessivamente monocórdica, com uma fala ininterrupta que não oferece os respiros necessários, o que faz de Elizabeth Bishop: Do Brasil, Com Amor um filme cansativo, talvez por Ostrovsky não ter o hábito de criar filmes mais longos. Outro aspecto que não ajuda para que a narrativa seja mais fluente é o pouco material de arquivo com a própria Bishop se expressando por meio de sua voz. Há ainda uma linearidade que não existe nos trabalhos mais curtos de Ostrovsky como diretora.
Assim, os textos se tornam enfadonhos por serem apenas lidos e as imagens são em sua maioria fotos que são incorporadas ao fundo, algumas relativas mais ao contexto político da época ou dos encontros com pessoas famosas da arte e da sociedade carioca, o que contrastam com o discurso mais pessoal que a poeta utilizava em suas missivas. Algumas animações são incluídas no documentário, afim de tentar preencher sem sucesso a carência de imagens de Bishop.
No todo, Elizabeth Bishop: Do Brasil, Com Amor é um documento interessante sobre a personalidade da poeta, que demonstra seus dotes artísticos e também suas idiossincrasias com a política brasileira. Faltou, ao nosso ver, ouvirmos mais das belas poesias de sua lavra. Portanto, vale ressaltar que Ostrovsky não esconde a comemoração que Bishop e Lota fazem do golpe militar e empresarial de 1964, contradições de quem não conhecia a realidade do país como um todo e de quem se acomodou na posição de privilégio na qual viveu em sua passagem pelo nosso país, imersa com intelectuais e membros da nossa elite política.

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