Texto por Marco Fialho
O melhor da juventude é que ainda não temos uma plena consciência de nossos atos, mas descobrimos depois o quanto ela deixa marcas profundas em cada um de nós. É por volta desse tema que E Seus Filhos Depois Deles, dirigido pelos irmãos Ludovic & Zoran Boukherma, passeia com certo frescor. O filme é baseado no Best Seller homônimo de Nicolas Mathieu, lançado em 2018.
E Seus Filhos Depois Deles é uma típica obra que pode ser vista como um romance de formação, onde acompanhamos a trajetória de vida de Anthony (Paul Kircher) e o seu processo de amadurecimento, os amores e o início da fase adulta numa cidade do interior. Um dos pontos enfocados é o da relação com os pais, com o primo (Louis Memme) e com a rua.
Dramaturgicamente, o filme surpreende pela densidade conseguida ao longo de seus 140 minutos de duração. E Seus Filhos Depois Deles é um mergulho na psiquê de Anthony, de como vivenciou o amadurecimento com os pais, as meninas e os meninos de sua idade. O conflito com Hacine (Sayyid El Alami) é o que carrega grandes tensões no decorrer do filme, que envolve desde um roubo de uma motocicleta até uma tentativa de homicídio. Essa briga entre eles é responsável por manter uma atmosfera nervosa no ar, como se a qualquer momento alguma coisa ruim ou algo pior pudesse acontecer.
Um dos pontos de maior interesse em Seus Filhos Depois Deles é a relação de Anthony com a bela jovem Stephanie (Angelina Woreth). Ela vem de uma família mais abastada e sua relação com Anthony fica permanentemente pendente, como se as oportunidades entre eles fossem sempre frustradas por algum fato que ocorre no entorno deles. É quase um amor platônico, mas que sustenta Anthony na vontade de viver.
OS diretores Ludovic e Zoran pontuam a todo instante as mudanças de ano e vão narrando o filme de dois em dois anos, passando por fases de euforia econômica, que culmina na vitória da primeira Copa do Mundo de futebol para a França, em 1998. Há ainda uma construção social em que Anthony e Hacine vivem realidades diferentes, o primeiro como um francês do interior e outro como um filho de um imigrante marroquino, identificado genericamente como árabe.
Ótimas interpretações e uma direção segura, com câmera se movimentando com o intuito de captar as reações psicológicas dos personagens. A violência está presente como um importante componente na história, perpassando a questão da sobrevivência. Anthony vive um problema grave em casa, o do alcoolismo do pai e a violência da relação dele com esposa e filho. Hacine, a outra face da moeda, tem um pai rígido, que queima a sua mão ao descobrir que ele roubara a motocicleta de Anthony.
Esse é um filme sobre a dificuldade de amadurecimento, sobre como se sofre nessa fase da vida, mas os diretores deixam sempre uma porta aberta, uma fresta que sinaliza para a esperança. Tem o peso da vida, contudo existe ainda o frescor da descoberta e a certeza de que mesmo com as dores a vida vale a pena e a amizade pode nascer quando menos se espera. Ludovic e Zoran Boukherma não fogem das dificuldades, embora a alegria, mesmo incompleta, esteja perambulando e acompanhando o destino dos seus personagens.

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