Texto por Marco Fialho
O maior atrativo de Cinco Tipos de Medo, filme dirigido por Bruno Bini, é a qualidade de sua produção. Tecnicamente, sua realização é realmente impecável. Contudo, essa eficiência técnica garante em si um resultado satisfatório para o filme? A resposta a essa pergunta depende de alguns fatores, como por exemplo, qual é a motivação do espectador ao entrar numa sala de cinema? Se o interesse dele é de puro entretenimento ou de refletir mais a fundo sobre as temáticas que uma obra se propõe retratar.
Se o interesse do espectador for meramente se entreter, Cinco Tipos de Medo vai satisfazer, já que o maior objetivo dessa obra é fazer o público grudar na cadeira pelo suspense e se deixar levar pela trama de ação onde o maior mote é o apelo dramático. Mas se o espectador se debruçar criticamente sobre o que é realmente construído a partir do filme, sua conclusão será outra. A grande questão que envolve a ideia de entretenimento é quando ela escamoteia a ideologia, acentuando o viés cômico ou exacerbando a dramaticidade, a elevando a um nível máximo de sentimentos, que é o que ocorre em Cinco Tipos de Medo. Aqui, a razão foi para o espaço, apenas torcemos e mais nada.
É interessante se começar pela ideia central que o filme propõe, a de discutir 5 tipos de medo mais comuns no Brasil, segundo o que determinou uma certa pesquisa. Na verdade, nem é preciso entrar nos aspectos percentuais da dita pesquisa, porque o que Cinco Tipos de Medo faz é esquecer qualquer tipo de discussão, inclusive sobre o medo. O que há, são situações expositivas extremas típicas de uma sociedade extremamente desigual e violenta. É assustador o quanto o filme se passa, em boa parte, dentro de uma favela e a ignora como objeto de análise. Não há um esforço de se entender as razões que levam alguns dos personagens a agirem de uma determinada forma. O filme apenas acontece, a história só avança, sem que nenhum elemento social seja efetivamente debatido e não há uma referência às desigualdades sociais nem a política que mantém o atual quadro.
O que há em Cinco Tipos de Medo é uma série de clichês sociais em que valores equivocados são reafirmados acriticamente pelo filme. O primeiro deles, de que na favela impera a bandidagem e sua violência, sem realmente mostrar como é a ação da polícia no cotidiano dessa comunidade. Detalhe, esse é um filme vindo do Mato Grosso, isto é, não estamos falando de Rio de Janeiro ou São Paulo, embora pelo sotaque do elenco fique difícil identificar a localidade. Do elenco principal, apenas Bella Campos é de Cuiabá, mas o que marca mesmo é o fato da grande maioria serem atores e atrizes presentes em conteúdos audiovisuais da Globo.
A narrativa de Cinco Tipos de Medo se assemelha a tantas outras que andam perambulando nos canais Globo: aquele som alto que salienta as emoções, a música épica, a câmera e a montagem ágil e as interpretações intensas dos atores. Não importa o cenário, pode ser o de um condomínio de luxo na Barra da Tijuca (Os Outros), pode até ser a do sertão (Cangaço Novo) ou no antro da política do Rio de Janeiro (Arcanjo Renegado), a fórmula se repete. O que é vendido então é um modelo vindo dos filmes de ação de Hollywood, a de conferir dinâmica e dramaticidade, a estratégia de envolver o espectador na trama, sem jamais dar um espaço para reflexão, apenas se vive na intensidade dos personagens, sempre colocados em situações-limite.
E claro que não podemos esquecer como Cinco Tipos de Medo investe na trama do tráfico e reforçando a velha máxima da culpa da classe média brasileira pelo consumo da droga, que alimenta a bandidagem e assim vai, seguindo sem pensar o problema por outro ponto de vista mais racional, de entender a engrenagem de como o crime se estabelece e se sustenta. A visão reduzida nunca traz boas discussões, apenas reafirma os equívocos de sempre. Quando o irmão mais novo de Marlene (Bella Campos), um estudioso pré-adolescente, mata dois traficantes, o que o filme faz é ratificar o lugar favela como impossibilidade e assim legitimar o discurso da classe dominante que não vê esperança ali, o que justificaria operações visando somente a violência como solução para o problema social da desigualdade.
Outra questão que Cinco Tipos de Medo traz são as coincidências reiteradas entre as ações dos personagens. Cada personagem exerce a profissão ideal e está no lugar certo (ou errado). A policial Monteiro (Bárbara Colen) é também mãe do rapaz que é dependente de drogas e é ela que estará em todas as cenas da polícia do filme. Marlene é a mulher do chefe do tráfico Sapinho (Xamã) e enfermeira que vira amante de Murilo (João Vitor Silva), um músico e ex-paciente de Covid-19. Ivan é o advogado de Sapinho e quer vingar a morte da esposa da qual o traficante era o responsável. Tudo é tão amarradinho e coincidente que chega a ser cômico, enquanto não deveria ser, e esse é um problema que enfraquece o filme.
Mas pensemos novamente no título, que evoca o medo como mote da narrativa de Cinco Tipos de Medo, pois é necessário dizer que todas as situações apresentadas no filme não são típicas de medo, mas sim de violência extrema. Uma coisa é a claustrofobia, isto é, ter pavor de ficar preso em algum lugar, o outro é ficar preso dentro de uma porta-mala minúscula de um carro. Convenhamos que qualquer um ficaria aflito passando por essa situação e não somente o claustrófobo. Outro medo, o de morrer, também no filme é ridículo. Murilo é um músico que está em casa, e tem uma quadrilha do lado de fora enchendo a casa dele de tiros. Nesse contexto, quem não teria medo de morrer? Assim o filme acumula fatos extremos que não trabalham o medo em si, nem tão pouco o discute, apenas o coloca em momentos não adequados, que nada acrescentam a uma reflexão.
Se lá em 1973, Paulo Emílio Sales Gomes escreveu um texto lapidar chamado Cinema: Trajetória no Subdesenvolvimento, em que discorria sobre o papel subserviente do cinema brasileiro frente ao norte-americano, que dominava economicamente (e ainda domina) o nosso mercado brasileiro, inclusive pela superioridade técnica, mas não só, o que levou Paulo Emílio a dividir o cinema em duas frentes, a do ocupante (o cinema de Hollywood) e a nossa, que ele chamou de ocupado. Hoje, filmes como Cinco Tipos de Medo mostram que podemos realizar obras tecnicamente de qualidade, mas o que parece é que de tanto vermos esses filmes dos ocupantes, isso nos fez querer ser igual, como uma maneira de absorver e reconhecer que no cinema do ocupante residia algo superior. Com a constatação de que não se pode enfrentar o mais forte, talvez o melhor seja se esquecer do espelho e olhar para fora dele, introjetando seus ensinamentos. Entretanto, mesmo que soe anacrônico, não podemos acreditar que a busca obsessiva pelo mercado nos conduza a algum lugar que não seja à subserviência narrativa e a superficialidade artística dos resultados. Por isso, filmes como O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, aponta caminhos onde bilheteria e forma criativa (para não dizer inovadora) não sejam discrepantes e possam andar juntas.
Mesmo que Cinco Tipos de Medo chegue ao mercado brasileiro com o selo da qualidade técnica, mostrando que se pode realizar um cinema comercial e com traços sudestinos no Mato Grosso, isso não o coloca em um lugar diferente ou com um diferencial narrativo. Sua narrativa traz mais do mesmo, como se abríssemos um app da Globo Play para ver uma de suas famosas séries. Para quem quer ver um roteiro esperto, repleto de reviravoltas, que salienta mais uma vez a desigualdade social como espetáculo, e não com um viés crítico, esse filme é uma ótima pedida. Mas para quem busca um algo a mais no cinema, recomendamos que escolha outra obra.

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