Texto por Marco Fialho
O que chama mais atenção em Caso 137, produção francesa dirigida por Dominik Moll (A Noite do Dia 12), é a similitude da situação policial retratada no filme acontecer cotidianamente no Brasil, afinal, um policial usar de força desproporcional em uma abordagem a um cidadão aqui é algo infelizmente mais do que comum, e é o que nos aproxima tragicamente deste filme.
Em Caso 137, a inspetora Stephanie (uma Léa Drucker impecável e vibrante), junto com a sua equipe, abre uma investigação contra um grupo de policiais que são denunciados por terem atirado com uma bala de borracha na cabeça de um jovem durante os intensos protestos políticos dos chamados "coletes amarelos", um movimento que teve uma grande repercussão em Paris, no ano de 2018, contra Macron e a sua política econômica. O filme se assume como uma ficção baseada em um fato verídico, o que dá um caráter mais contundente à narrativa. O diretor aproveita a tensão intrínseca à essa história para realizar um envolvente thriller investigativo.
Caso 137 se constrói como um ótimo filme sobre como as corporações militares funcionam nas sociedades contemporâneas. É notório como essa instituição, sendo em Paris ou no Rio de Janeiro, elas possuem uma espécie de autonomia em relação ao Estado, mesmo que seja uma força pertencente ao mesmo Estado. A direção explora bem como essa instituição ficou manchada perante à opinião pública. O próprio filho adolescente de Stephanie chega a perguntar a ela porque a polícia é tão detestada pela população, em uma das melhores e mais esclarecedoras cenas do filme.
É bem interessante ver como a direção organiza a mise-en-scène em Caso 137. A câmera, na maioria das cenas, está estática ou se movimenta bem pouco. Mesmo assim, o filme tem uma mobilidade fora de série, muito por conta de uma montagem ágil que não permite que a obra caminhe para um thriller psicológico ou existencial, aqui o suspense dá as cartas, ficamos sempre à espera da cena seguinte e para novas surpresas que vão garantindo a dinâmica de Caso 137.
Dominik Moll explora muito bem não só a dificuldade de se investigar membros da instituição policial, como trabalha exemplarmente o fato de ser uma mulher a investigadora. Caso 137 mostra vários estratagemas burocráticas e de argumentos falsos que parecem verdadeiros, para encobrir as faltas e os desvios de conduta da corporação. De repente, a ética parece do lado dos policiais despreparados e contra a policial que tenta reparar a justiça.
A questão social também paira pelo filme em algumas cenas, como a da faxineira negra que trabalha no hotel defronte ao local do crime e que consegue filmar a abordagem equivocada e violenta dos policiais, mas refuga ajuda a Stephanie por saber, por experiência própria, que nada acontecerá aos policiais. Para ela a justiça só é aplicada aos negros e aos imigrantes árabes, enquanto um policial pode tudo e nunca é punido. A família do jovem alvejado igualmente acredita na mesma lógica, que nada acontece com os policiais violentos, que aprontam sempre e jamais pagam por isso e ainda se aproveitam de suas armas para ameaçar e coagir quem tem coragem de afrontá-los na justiça.
Infelizmente, para nós brasileiros essa realidade é para lá de conhecida. Vivemos isso cotidianamente e poderíamos até dizer que parodiando e modificando uma canção conhecida de Caetano Veloso: "A cidade de Paris é aqui. A cidade de Paris não é aqui", pois esses acontecimentos truculentos da polícia poderiam ser no Haiti, Nova York ou Maputo, afinal, a liberdade de abuso de poder da polícia é um lugar-comum no mundo. Caso 137 não deixa de ser por isso um filme político e de protesto.

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