Pular para o conteúdo principal

CASO 137 (2026) Dir. Dominik Moll


Texto por Marco Fialho

O que chama mais atenção em Caso 137, produção francesa dirigida por Dominik Moll (A Noite do Dia 12), é a similitude da situação policial retratada no filme acontecer cotidianamente no Brasil, afinal, um policial usar de força desproporcional em uma abordagem a um cidadão aqui é algo infelizmente mais do que comum, e é o que nos aproxima tragicamente deste filme.

Em Caso 137, a inspetora Stephanie (uma Léa Drucker impecável e vibrante), junto com a sua equipe, abre uma investigação contra um grupo de policiais que são denunciados por terem atirado com uma bala de borracha na cabeça de um jovem durante os intensos protestos políticos dos chamados "coletes amarelos", um movimento que teve uma grande repercussão em Paris, no ano de 2018, contra Macron e a sua política econômica. O filme se assume como uma ficção baseada em um fato verídico, o que dá um caráter mais contundente à narrativa. O diretor aproveita a tensão intrínseca à essa história para realizar um envolvente thriller investigativo. 

Caso 137 se constrói como um ótimo filme sobre como as corporações militares funcionam nas sociedades contemporâneas. É notório como essa instituição, sendo em Paris ou no Rio de Janeiro, elas possuem uma espécie de autonomia em relação ao Estado, mesmo que seja uma força pertencente ao mesmo Estado. A direção explora bem como essa instituição ficou manchada perante à opinião pública. O próprio filho adolescente de Stephanie chega a perguntar a ela porque a polícia é tão detestada pela população, em uma das melhores e mais esclarecedoras cenas do filme.

É bem interessante ver como a direção organiza a mise-en-scène em Caso 137. A câmera, na maioria das cenas, está estática ou se movimenta bem pouco. Mesmo assim, o filme tem uma mobilidade fora de série, muito por conta de uma montagem ágil que não permite que a obra caminhe para um thriller psicológico ou existencial, aqui o suspense dá as cartas, ficamos sempre à espera da cena seguinte e para novas surpresas que vão garantindo a dinâmica de Caso 137

Dominik Moll explora muito bem não só a dificuldade de se investigar membros da instituição policial, como trabalha exemplarmente o fato de ser uma mulher a investigadora. Caso 137 mostra vários estratagemas burocráticas e de argumentos falsos que parecem verdadeiros, para encobrir as faltas e os desvios de conduta da corporação. De repente, a ética parece do lado dos policiais despreparados e contra a policial que tenta reparar a justiça.

A questão social também paira pelo filme em algumas cenas, como a da faxineira negra que trabalha no hotel defronte ao local do crime e que consegue filmar a abordagem equivocada e violenta dos policiais, mas refuga ajuda a Stephanie por saber, por experiência própria, que nada acontecerá aos policiais. Para ela a justiça só é aplicada aos negros e aos imigrantes árabes, enquanto um policial pode tudo e nunca é punido. A família do jovem alvejado igualmente acredita na mesma lógica, que nada acontece com os policiais violentos, que aprontam sempre e jamais pagam por isso e ainda se aproveitam de suas armas para ameaçar e coagir quem tem coragem de afrontá-los na justiça.

Infelizmente, para nós brasileiros essa realidade é para lá de conhecida. Vivemos isso cotidianamente e poderíamos até dizer que parodiando e modificando uma canção conhecida de Caetano Veloso: "A cidade de Paris é aqui. A cidade de Paris não é aqui", pois esses acontecimentos truculentos da polícia poderiam ser no Haiti, Nova York ou Maputo, afinal, a liberdade de abuso de poder da polícia é um lugar-comum no mundo. Caso 137 não deixa de ser por isso um filme político e de protesto.              

        

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

CLOSE-UP (1990) Dir. Abbas Kiarostami

Texto por Marco Fialho "A arte é um sentimento que se experimenta, que o artista desenvolve nele para compartilhar com os outros". Frase que o personagem Sabzian atribui a Leon Tolstói Estudar o cinema de Abbas Kiarostami é mergulhar no imaginário do cinema. Um dos ícones do cinema iraniano dos anos 1980 e 1990, o diretor realizou obras cruciais para o pensamento cinematográfico contemporâneo. Obras como Gosto de Cereja (1997), Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987), Através das Oliveiras (1994), A Vida e Nada Mais (1992), e outras já produzidas nos século XX1, como Dez (2002), Cópia Fiel (2010) e Um Alguém Apaixonado (2012), todas fundamentais e merecedoras de serem estudadas, não só individualmente, mas também em conjunto para melhor se compreender o pensamento original desse cineasta iraniano, que junto com tantos outros seus contemporâneos, como Mohsen Makhmalbaf, Jafar Panahi e Majid Majidi, formaram a base do que hoje chamamos de cinema iraniano. Mas nesse texto vou come...

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

PECADORES (2025) Dir. Ryan Coogler

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho O cinema negro dos Estados Unidos vem se fortalecendo mercadologicamente como nunca. Diretores como Jordan Peele ( Corra! , Nós  e Não! Não Olhe! ), Barry Jenkins ( Moonlight e Se a Rua Beale Falasse ), Ava DuVernay ( 13ª Emenda  e Selma ) e Shaka King ( Judas e o Messias Negro ), Raoul Peck ( Eu não Sou Seu Negro ). Se falarmos mais retroativamente, encontraremos Spike Lee (com os clássicos  Faça a Coisa Certa , Malcoln X , e os atuais  Infiltrado na Klan e Destacamento Blood ), Melvin Van Peebles ( Sweet Sweetback's Baadasssss Song e Posse: A Vingança de Jesse Lee ) e a força do movimento Blaxploitation dos anos 1970, e o ineditismo de Oscar Micheaux nos anos 1920 e 1930.  O fato atual é que o cinema negro não é mais reservado a um nicho. Os diretores mais recentes mostram uma penetração cada vez mais efetiva no mercado. Pecadores , mais recente filme de Ryan Coogler ( Creed e Pantera Negra ) vem comprovar isso. ...