Texto por Marco Fialho
Beladona, dirigido pela diretora Alanté Kavaïté (filha de lituanos), é um filme que investe numa ideia distópica em um futuro próximo. A história é cercada por mistérios e se passa em uma ilha onde moram alguns idosos cuidados pela jovem Gaëlle (Nadia Tereszkiewicz), que resistem a uma política do governo que os capturam para os obrigarem a viver presos, afastados da sociedade.
No filme, a ilha é abalada pela chegada de dois jovens irmãos, Aline (Daphné Patakia) e David (Dali Benssalah), que contrariam o sistema rígido mantido por Gaëlle. Os irmãos seduzem os idosos com suas visões ousadas sobre a vida e irritam Gaëlle.
Beladona pode ser lido como uma metáfora sobre como podemos modificar nossa forma de viver, visando a alargar a nossa vivência feliz nesse mundo. Mas a diretora Alanté Kavaïté toma um caminho que pouco desnuda os verdadeiros interesses dos dois irmãos e dos próprios idosos, fazendo emergir do filme um interesse pela dúvida. As cenas são filmadas dentro de uma ideia realista, embora as informações vindas das cenas não sejam completas ou satisfatórias. Isso pode ser visto como um ponto positivo por alguns, por salientar o mistério, mas pode ser encarado como deficiência por outros que esperam mais detalhes vindos da história.
Os atores e atrizes experientes seguram a nossa atenção à obra. Miou-Miou, Patrick Chesnais, Alexandra Stewart e Jean-Claude Drouot compõem um grupo homogêneo, que mantém o mistério e a curiosidade do espectador perante a eles. Nunca sabemos exatamente quem é quem de verdade, apenas a personagem de Gaëlle é mais transparente em sua enérgica e aguerrida disposição de cuidar dos idosos, embora eles não se mostrem tão empenhados assim que ela continue fazendo isso.
A encenação não se demonstra muito ousada, mas há uma fotografia que não abusa da luminosidade e trabalha bem os diversos momentos de sedução que acontecem na trama. David flerta e seduz Gaëlle, que faz jogo duro e ainda sonha em certa noite com Aline, que dança sensualmente em alguns momentos e chega a servir de modelo para um dos idosos que é artista plástico. Os personagens não deixam de ser bem impreciso, o que desperta curiosidade por não sabermos onde cada um pode chegar em suas intenções e ações.
De repente, os idosos começam a morrer em sequência, e Gaëlle vê todos os seus esforços de manter todos eles vivos naufragando. Tudo aqui fica no campo da especulação, as mortes podem ser responsabilidade tanto dos idosos quanto dos irmãos, assim como as galinhas que também morrem antecipando a morte de mais um idoso. Gaëlle é uma ótima personagem, mas algo parece faltar nela para que se revele mais como mulher para além dos cuidados e da sedução de David.
Há em Beladona, personagens que ficam soltos e indeterminados em excesso na trama, como a filha de Aline e alguns idosos. Algumas alegorias ficam muito fluídas, como a dos idosos isolados ou a da vida aprisionante de Gaëlle, que não possui muitas expectativas de futuro. Essa é uma obra que mesmo que não desenvolva com excelência as propostas que se propõe, ainda sim sabe seduzir o espectador, pelo menos para que ele chegue não muito entediado ao final do filme.

Comentários
Postar um comentário
Deixe seu comentário. Quero saber o que você achou do meu texto. Obrigado!