Texto por Marco Fialho
Em Barba Ensopada de Sangue, o diretor e coroteirista Aly Muritiba, adapta junto com Jessica Candal o best-seller homônimo de Daniel Galera para narrar a história de Gabriel (Gabriel Leone) que busca encontrar-se com o seu passado. Ou seria o filme sobre a Praia de Armação (que no romance é Garopaba) e sua encapsulada, misteriosa e violenta vida pregressa e atual? A direção caminha na linha tênue dessa imprecisão para construir sua narrativa instável.
Essa decisão seria fundamental para determinar se o filme pretende se aprofundar na psiquê do personagem ou nas vicissitudes do território abordado. Barba Ensopada de Sangue decide pelos dois caminhos, o que impede que suas potencialidades sejam afloradas, pois ambos trajetos narrativos dariam resultados instigantes. Até acredito que Muritiba sublinhe mais a crise existencial de Gabriel de que nas esquisitices da cultura praieira da Praia da Armação.
Aly Muritiba divide seu filme em três partes: o pai; o filho; e o avô. Gabriel é o personagem a guiar as três histórias e que nos prende a tudo o que vai ocorrer na história, mesmo que na primeira parte, a dedicada ao pai, sua personagem fique fora do quadro enquanto só vemos a sinistra imagem do pai a relata-lo segredos guardados em relação ao passado da família. São as perguntas de Gabriel que impulsionam os relatos do pai, tudo gravado em um único plano-sequência. Muito do soturno do filme já se apresenta nessa cena inaugural, com uma fotografia pálida (comandada pelo fotógrafo Inti Briontes), quase sem vida, paisagem que persistirá até o final da obra.
É na segunda parte, mais dedicada a Gabriel, que Barba Ensopada de Sangue segue atento a mostrar a vida dele na Praia da Armação, suas relações com moradores, na sua maioria hostis, quando resolve ocupar a casa abandonada que era do avô, que no passado teve problemas com os habitantes da mesma localidade. Gabriel é visto de imediato como um forasteiro e desperta sentimentos de animosidade dos atuais moradores. Ainda nessa parte, algumas cenas soam desnecessárias, como o aparecimento de uma ex-namorada que casou com o irmão de Gabriel. Essas são cenas que além de não acrescentarem muito à trama, ainda a dispersa a nossa atenção das tensões das relações dos locais em relação a Gabriel.
Barba Ensopada de Sangue se estabelece tanto por essas relações interpessoais como se concentra nas reflexões existenciais de Gabriel. Há uma busca de si nesse passado, uma necessidade de saber de onde veio, quem foram seus antepassados e o avô Gaudério é um personagem central nesse viés. Sua presença é reafirmada a cada nova cena, como se Gabriel fosse uma reencarnação sua. O fantasma dele ronda a comunidade praieira, talvez pela semelhança física entre avô e neto. O vínculo maior de Gabriel na localidade é com Jasmine (Thainá Duarte), uma jovem que trabalha como guia turística. O romance entre eles se intensifica e ela entra no jogo de gato e rato que se instaura ao enredo.
Entretanto, o filme de Muritiba patina entre ser um drama existencialista, um romance, um suspense ou um drama sobre um território com suas especificidades regionais e culturais. Mesmo que o ritmo lento imponha um determinado clima soturno para a trama, que a interpretação de Gabriel Leone seja de entrega e a fotografia acentue a opção narrativa sinistra exemplarmente, fica sempre a impressão de que algo está a complementar as cenas. A riqueza da cultura local talvez pudesse ser melhor explorada ou ainda mantida em um completo mistério. Os personagens que atacam Gabriel são embaçados, os vemos mas não o entendemos em sua inteireza. A ideia de masculinidade tóxica que embasa essas relações não é tão evidente ou colocada em um segundo plano, só a percebemos quando Gabriel é espancado implacavelmente por vários homens.
O lado sombrio da trama vai desaparecendo mais quando começamos a entender melhor o que levou Gaudério a se tornar uma pessoa mal vista na região. Ao que parece, o ódio dos moradores ocorre quando Gaudério se coloca contrário à matança das baleias e passa a defender suas vidas. Essa é uma comunidade que se relaciona diretamente com o mar, não só com os peixes, mas também com as baleias, que no presente se tornam atração turística, o que substituiria o lucro do passado pelas matanças.
O que causa estranhamento em Barba Ensopada de Sangue são algumas falas que mostram como Gaudério foi um homem importante, inteligente e contador de histórias criativas e fantásticas do mar, que sabia embalar as crianças com suas narrativas. O que fez mudar essa visão das pessoas? Pode ter sido pela mudança de viés no que tange as baleias, mas aquelas gerações de crianças de outrora não seriam os adultos do presente?
No geral, Barba Ensopada de Sangue é um filme bom de assistir, apesar de ser linear em boa parte do tempo. Gosto da construção do clima, pelo rigor implementado pela direção de arte e pela fotografia sóbria e sombria que permite uma imersão do público ao que é narrado, mesmo que o cruzamento das temáticas deixe a desejar e não permita uma coesão maior à narrativa, que oscila entre o drama existencial, o romance, o drama cultural e o suspense. O filme vale ainda por mostrar um Brasil pouco conhecido, de pouco acolhimento, sustentado por uma visão tradicional, masculina, violenta e reativa. Um país que precisa ser repensado em seus preconceitos e ideias sociais pré-concebidas.

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