Pular para o conteúdo principal

BARBA ENSOPADA DE SANGUE (2024) Dir. Aly Muritiba


Texto por Marco Fialho 

Em Barba Ensopada de Sangue, o diretor e coroteirista Aly Muritiba, adapta junto com Jessica Candal o best-seller homônimo de Daniel Galera para narrar a história de Gabriel (Gabriel Leone) que busca encontrar-se com o seu passado. Ou seria o filme sobre a Praia de Armação (que no romance é Garopaba) e sua encapsulada, misteriosa e violenta vida pregressa e atual? A direção caminha na linha tênue dessa imprecisão para construir sua narrativa instável.

Essa decisão seria fundamental para determinar se o filme pretende se aprofundar na psiquê do personagem ou nas vicissitudes do território abordado. Barba Ensopada de Sangue decide pelos dois caminhos, o que impede que suas potencialidades sejam afloradas, pois ambos trajetos narrativos dariam resultados instigantes. Até acredito que Muritiba sublinhe mais a crise existencial de Gabriel de que nas esquisitices da cultura praieira da Praia da Armação.  

Aly Muritiba divide seu filme em três partes: o pai; o filho; e o avô. Gabriel é o personagem a guiar as três histórias e que nos prende a tudo o que vai ocorrer na história, mesmo que na primeira parte, a dedicada ao pai, sua personagem fique fora do quadro enquanto só vemos a sinistra imagem do pai a relata-lo segredos guardados em relação ao passado da família. São as perguntas de Gabriel que impulsionam os relatos do pai, tudo gravado em um único plano-sequência. Muito do soturno do filme já se apresenta nessa cena inaugural, com uma fotografia pálida (comandada pelo fotógrafo Inti Briontes), quase sem vida, paisagem que persistirá até o final da obra.

É na segunda parte, mais dedicada a Gabriel, que Barba Ensopada de Sangue segue atento a mostrar a vida dele na Praia da Armação, suas relações com moradores, na sua maioria hostis, quando resolve ocupar a casa abandonada que era do avô, que no passado teve problemas com os habitantes da mesma localidade. Gabriel é visto de imediato como um forasteiro e desperta sentimentos de animosidade dos atuais moradores. Ainda nessa parte, algumas cenas soam desnecessárias, como o aparecimento de uma ex-namorada que casou com o irmão de Gabriel. Essas são cenas que além de não acrescentarem muito à trama, ainda a dispersa a nossa atenção das tensões das relações dos locais em relação a Gabriel. 

Barba Ensopada de Sangue se estabelece tanto por essas relações interpessoais como se concentra nas reflexões existenciais de Gabriel. Há uma busca de si nesse passado, uma necessidade de saber de onde veio, quem foram seus antepassados e o avô Gaudério é um personagem central nesse viés. Sua presença é reafirmada a cada nova cena, como se Gabriel fosse uma reencarnação sua. O fantasma dele ronda a comunidade praieira, talvez pela semelhança física entre avô e neto. O vínculo maior de Gabriel na localidade é com Jasmine (Thainá Duarte), uma jovem que trabalha como guia turística. O romance entre eles se intensifica e ela entra no jogo de gato e rato que se instaura ao enredo.             

Entretanto, o filme de Muritiba patina entre ser um drama existencialista, um romance, um suspense ou um drama sobre um território com suas especificidades regionais e culturais. Mesmo que o ritmo lento imponha um determinado clima soturno para a trama, que a interpretação de Gabriel Leone seja de entrega e a fotografia acentue a opção narrativa sinistra exemplarmente, fica sempre a impressão de que algo está a complementar as cenas. A riqueza da cultura local talvez pudesse ser melhor explorada ou ainda mantida em um completo mistério. Os personagens que atacam Gabriel são embaçados, os vemos mas não o entendemos em sua inteireza. A ideia de masculinidade tóxica que embasa essas relações não é tão evidente ou colocada em um segundo plano, só a percebemos quando Gabriel é espancado implacavelmente por vários homens.

O lado sombrio da trama vai desaparecendo mais quando começamos a entender melhor o que levou Gaudério a se tornar uma pessoa mal vista na região. Ao que parece, o ódio dos moradores ocorre quando Gaudério se coloca contrário à matança das baleias e passa a defender suas vidas. Essa é uma comunidade que se relaciona diretamente com o mar, não só com os peixes, mas também com as baleias, que no presente se tornam atração turística, o que substituiria o lucro do passado pelas matanças. 

O que causa estranhamento em Barba Ensopada de Sangue são algumas falas que mostram como Gaudério foi um homem importante, inteligente e contador de histórias criativas e fantásticas do mar, que sabia embalar as crianças com suas narrativas. O que fez mudar essa visão das pessoas? Pode ter sido pela mudança de viés no que tange as baleias, mas aquelas gerações de crianças de outrora não seriam os adultos do presente?

No geral, Barba Ensopada de Sangue é um filme bom de assistir, apesar de ser linear em boa parte do tempo. Gosto da construção do clima, pelo rigor implementado pela direção de arte e pela fotografia sóbria e sombria que permite uma imersão do público ao que é narrado, mesmo que o cruzamento das temáticas deixe a desejar e não permita uma coesão maior à narrativa, que oscila entre o drama existencial, o romance, o drama cultural e o suspense. O filme vale ainda por mostrar um Brasil pouco conhecido, de pouco acolhimento, sustentado por uma visão tradicional, masculina, violenta e reativa. Um país que precisa ser repensado em seus preconceitos e ideias sociais pré-concebidas.                                   

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

PECADORES (2025) Dir. Ryan Coogler

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho O cinema negro dos Estados Unidos vem se fortalecendo mercadologicamente como nunca. Diretores como Jordan Peele ( Corra! , Nós  e Não! Não Olhe! ), Barry Jenkins ( Moonlight e Se a Rua Beale Falasse ), Ava DuVernay ( 13ª Emenda  e Selma ) e Shaka King ( Judas e o Messias Negro ), Raoul Peck ( Eu não Sou Seu Negro ). Se falarmos mais retroativamente, encontraremos Spike Lee (com os clássicos  Faça a Coisa Certa , Malcoln X , e os atuais  Infiltrado na Klan e Destacamento Blood ), Melvin Van Peebles ( Sweet Sweetback's Baadasssss Song e Posse: A Vingança de Jesse Lee ) e a força do movimento Blaxploitation dos anos 1970, e o ineditismo de Oscar Micheaux nos anos 1920 e 1930.  O fato atual é que o cinema negro não é mais reservado a um nicho. Os diretores mais recentes mostram uma penetração cada vez mais efetiva no mercado. Pecadores , mais recente filme de Ryan Coogler ( Creed e Pantera Negra ) vem comprovar isso. ...

MOSTRA CINEBH 2023

CineBH vem aí mostrando novos diretores da América Latina Texto de Marco Fialho É a primeira vez que o CineFialho irá cobrir no modo presencial a Mostra CineBH, evento organizado pela Universo Produção. Também, por coincidência é a primeira vez que a mostra terá inserido um formato competitivo. Nessa matéria falaremos um pouco da programação da mostra, de como a curadoria coordenada pelo experiente Cleber Eduardo, montou a grade final extensa com 93 filmes a serem exibidos em 8 espaços de Belo Horizonte, em apenas 6 dias (26 de setembro a 1º de outubro). O que atraiu o CineFialho a encarar essa cobertura foi o ineditismo da grande maioria dos filmes e a oportunidade mais do rara, única mesmo, de conhecer uma produção independente realizada em países da América Latina como Chile, Colômbia, México, Peru, Paraguai, Cuba e Argentina, sem esquecer lógico do Brasil.  Lemos com atenção toda a programação ofertada e vamos para BH cientes da responsabilidade de que vamos assistir a obras di...