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ATLAS DO DESAPARECIMENTO (2026) Dir. Manuel Correa


Texto por Marco Fialho

Tem filmes que são necessários, embora difíceis de serem vistos. Atlas do desaparecimento, dirigido por Manuel Correa, é um deles. Que pedrada esse documentário se revela ao tratar da dificuldade, e quase impossibilidade, dos parentes dos assassinados pela ditadura franquista (1936-75), terem acesso aos seus restos mortais. 

Atlas do desaparecimento conta com o auxílio do algoritmo e de modernos programas de arquitetura para auxiliar no encontro e identificação dos corpos. Mas mesmo assim a tarefa é quase impossível, devido a diversas medidas tomadas pelo Estado franquista para inviabilizar a tarefa. O documentário se utiliza de imagens de arquivo misturadas com atuais e a força delas são impressionantes, de familiares da segunda geração que ainda sonham em ter os corpos à disposição para enterrá-los em seus jazigos. 

Em 1940, o governo franquista criou o mausoléu Valle de los Caídos, com a finalidade de por os corpos de quem participou da Guerra Civil Espanhola, mas jamais deu acesso a nenhum familiar, o local permaneceu fechado. Em 1959, o governo de Franco solicitou a todos os cemitério espanhóis que enviasse os corpos enterrados em valas comuns para o Valle de los Caídos. O governo então colocou os corpos em caixas e passou a identificá-los por números e fez uma lista confusa, onde a maioria era de não identificados. Assim, alguns corpos foram juntados em uma mesma caixa, o que agravou as suas identificações.    

Valle de los Caídos é um tributo à carnificina franquista, onde se acumulou desorganizadamente todos os corpos, com a nítida intenção de não identificá-los. Essa foi mais um do requinte de maldade que caracterizou o governo ditatorial de Franco, o de criar um aparelho burocrático que se constituiu em um empecilho para o acesso das famílias. Esconder os rastros dos corpos para assim promover um apagamento de uma memória de luta contra um governo opressor. Ao mostrar várias fotos de desaparecidos no final de Atlas do Desaparecimento, o diretor Manuel Correa salienta a importância da memória como uma maneira de resistir ainda hoje contra as práticas e táticas fascistas de apagamento e de acobertamento de seus crimes políticos.  

Vale ressaltar a garra das famílias dos republicanos que lutaram contra o regime franquista. É emocionante ver a filha de Rafael Abril, um dos soldados republicanos assassinados pelo governo, ainda procurar pelo seu corpo e dizer que prometeu à mãe, que morreu com 101 anos, a continuar a busca. E como é triste ver a inscrição hipócrita e funesta que Franco pôs na entrada do mausoléu: "Caídos por Deus - de 1936 a 1939". Logo pensamos: não Franco, caíram por um governo fascista, burguês, cruel e extremamente violento e capaz de tudo para se manter no poder. 

Ainda hoje, não se sabe o número aproximado de mortos na Guerra Civil Espanhola, os números oscilam bastante. Há cálculos que vão de 340.000 até mais de 600.000, e o método de Franco de juntar os restos mortais espalhados e desorganizá-los em um único lugar foi pensado para que nunca se soubesse o número exato ou aproximado dos que tombaram ao defender a república. Atlas do Desaparecimento é um documentário que denuncia as barbáries e a desumanidade de um governo fascista, que se dispôs a massacrar os opositores e a destruir com a memória de diversas famílias ao sumir com os corpos de seus parentes que resistiram ao autoritarismo vigente.  

Durante os vários anos do franquismo e depois dos governos subsequentes, todos prometeram mas na hora da verdade se esquivaram de apurar os despojos deixados por um governo sujo. Somente no governo do socialista Pedro Sanchés que o assunto foi encarado de frente e o desafio da procura e identificação dos corpos começou a ser levado a sério. Criou-se um laboratório de identificação organizado e empenhado a achar agulha no palheiro. Mas há uma decisão política de que, se achando ou não, os corpos serão procurados. 

Diversas caixas com os restos dos corpos depois de encaixotados foram emparedados dentro de salas no mausoléu, o que torna o trabalho de reconhecimento bem complicado. Alguns corpos foram juntados em uma mesma caixa e esse é outro problema. O especialista forense escalado pelo governo para gerir as buscas, também reconhece a tarefa árdua que governo, arquitetos e famílias tem para fazer a exumação e a consequente identificação. 

A única certeza que Atlas do Desaparecimento evidencia é o quanto devemos preservar sistemas políticos democráticos e que almejam a paz e a convivência das diferenças. Também fica no ar uma importante reflexão acerca de como são violentos os governos fascistas pelo mundo, o que eles fizeram na Alemanha, Brasil, Argentina, Uruguai, Chile e agora em Israel e nos Estados Unidos. Esses governos representam interesses empresariais poderosos e por isso são o cancro do mundo. Eles mostram o caráter ilimitado de suas arrogâncias e o quanto são capazes de aniquilar quem luta por um mundo melhor e voltado para o coletivo.   

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