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APOPCALIPSE SEGUNDO BABY (2026) Dir. Rafael Saar


Texto por Marco Fialho

Se um documentário de personagem precisa antes de tudo elucidá-lo, revelar o seu âmago, Apopcalipse Segundo Baby, dirigido por Rafael Saar, o faz com a devida precisão. Em quase duas horas, vemos Baby do Brasil em sua inteireza, como uma mulher que desde cedo fez escolhas controversas, assumindo cada uma delas com o seu brilho intrínseco. E esse é um documentário que sabe sugar a energia de sua protagonista, para levar o espectador junto nessa intensa viagem dos sentidos.

Quem poderia achar que sua religiosidade de hoje a faria negar o passado hippie e contestador, logo se engana, pois a própria Baby em certo momento afirma que não rejeita nada que viveu no passado. Tanto que em 110 minutos de filme, apenas 15 são voltados para a fase mais recente. Rafael Saar realiza um documentário pulsante, corajoso e que mostra uma Baby complexa e irrequieta. 

Rafael Saar utiliza em sua narrativa depoimentos quase sempre em off de Baby enquanto exibe imagens de arquivo da cantora. São falas lúcidas de quem sabe exatamente o que viveu. É uma Baby comentando detalhes da carreira, inclusive de como se tornou cantora. Muitos não sabem, mas Baby nasceu em Niterói e ainda menor de idade pegou um ônibus e foi aleatoriamente para a Bahia. Essa história da ida para a Bahia é curiosa e exemplifica como ela arrumava justificativas espirituais dentro de casualidades. Baby fez aniversário de 17 anos no percurso de ônibus para Salvador, onde conheceu o poeta Wally Salomão, que lhe deu de presente premonitoriamente um microfone, sendo que naquela altura nem planejava se tornar uma cantora.

É interessante o quanto Rafael Saar embarca nas viagens de Baby, a ponto de em certo momento não sabermos mais o que era ou não devaneio. Durante a narrativa, várias coincidências acontecem, o que deixa uma certa dúvida sobre a veracidade do que está sendo narrado. Já na Bahia, logo encontra os futuros colegas de Novos Baianos, que já estavam praticamente entrosados, mas achavam que faltava uma cantora. Baby chegou a morar debaixo da ponte de Piatã, segundo o seu depoimento. Baby já circulava na cena cultural de Salvador, inclusive já havia feito filmes. Sua figura era considerada exótica, ela usava um espelho retrovisor de fusca na testa, para que os outros pudessem ver o mundo com os seus olhos.

Quando um diretor trabalha muito com imagens de arquivo, é normal que a gente veja e sinta muitas texturas diferentes de uma imagem para outra, já que diversos materiais de captação podem ser utilizados, alguns podendo ser coloridos e outros em P&B. Essa mistura de textura permite criar uma sensação de múltiplas temporalidades e provoca uma viagem sensitiva no espectador que começa a imaginar como seria viver naquele tempo. Apopcalipse Segundo Baby tem várias dessas sugestões, ou se preferirem, de viagens.

Apopcalipse Segundo Baby tem uma montagem muito instigante, que amarra fatos nem sempre diretamente relacionados, mas que dialogam com muita eficiência. De repente, Galvão fala filosoficamente de João Gilberto: "ele é o que a gente ainda vai ser", em mais um exercício premonitório que o filme lança. Rafael Saar não se utiliza muito dessas falas exógenas a Baby, mais se permite usá-las mais no período dos Novos Baianos, quando o coletivo prevalecia sobre o individual e onde os vídeos captavam várias vozes em conversas. As gravações realizadas na moradia coletiva eram as mais vibrantes, com o vídeo captando a energia positiva daquela expressiva experiência. E no meio dos baianos, Baby, a niteroiense, era a falsa baiana, como ela mesma se proclamava.

Há no documentário, algumas falas significativas e retumbantes de Baby, na época Baby Consuelo, contra a ditadura militar. Em um desses momentos de revolta, ela diz com um gracejo: "foi a ginga brasileira que venceu a ditadura". A pesquisa de Rafael Saar se mostra cuidadosa e meticulosa quando vemos as inúmeras apresentações musicais de Baby e dos Novos Baianos. Há um evidente acerto na duração das músicas em cena, nunca se tem a impressão de que poderia ser maior ou menor, o ponto parece sempre o mais apropriado. 

A faceta comunicativa de Baby aparece de maneira bem visível em muitos momentos. Ela se aproxima de Elza Soares, cuja influência é reconhecida pelo uso da voz gutural, característica estimulada de tanto ouvir Elza cantar assim. Ainda tem o contato com a rainha do chorinho, Ademilde Fonseca, cuja idolatria é notória, como também as muitas vezes em que cantaram juntas o clássico Brasileirinho, de Waldir Azevedo. 

Apopcalipse Segundo Baby explora a carreira solo de Baby, que foi bastante bem sucedida. Menino do Rio (música de Caetano Veloso), Telúrica (composta por ela e Jorginho Gomes), Um Auê Com Você (composição da Baby) e Sem Pecado e Sem Juízo (Baby e Pepeu) são exemplos de sucessos na sua fase solo. Esse momento ainda marca a aproximação de Baby com o esoterismo e com a paranormalidade, que mais à frente ela abandonará para seguir pela vertente evangélica. 

Na parte final, Apopcalipse Segundo Baby aborda sua fase gospel, em que suas músicas falam de temas mais diretamente pelo viés cristão. Essa é aquela parte onde muitos fãs do passado não curtem mais, e tendem a descartar. Creio que Rafael Saar é coerente por mostrar essa fase, afinal, ela faz parte da trajetória da cantora e da sua conformação como pessoa, sendo assim indissociável dela. Deixando a própria cantora narrar a sua trajetória musical, o documentário mergulha com extrema competência na personalidade explosiva de Baby (os arquivos do Festival de Montreaux são impressionantes pela sua vitalidade), que jamais deixou de mostrar sua faceta irrequieta e enérgica, nem mesmo quando abraçou a religião evangélica.         

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