Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho
É impossível iniciar a análise de A Fabulosa Máquina do Tempo sem lembrar que a estrutura fabular já está marcada desde o título do filme. Elisa Capai realiza uma obra de transbordante leveza, embora esteja discutindo questões profundas. A diretora a todo instante está a equilibrar sua narrativa em um finíssimo fio tênue entre o documental e a ficção, embora esse desafio de gênero cinematográfico para o espectador seja deveras irrelevante.
Logo na primeira cena a fábula sobre a origem do mundo se impõe em meio a uma brincadeira infantil, enquanto ao fundo escutamos um baião, o que demonstra de cara que estamos em uma cidade do nordeste. Na verdade, o filme se passa em Guaribas, um pequeno município do Piauí, escolhido para ser projeto modelo do Bolsa Família. Como realizar um filme com 10 crianças que hoje estão quase na adolescência e fazer isso valorizando o ponto de vista delas? Creio que essa resposta está no filme de Capai, pois a diretora encontrou uma forma criativa, inteligente e leve de aguçar a criatividade e a participação dessas meninas de maneira exemplar.
A Fabulosa Máquina do Tempo surpreende por tratar de vários temas delicados historicamente para essas famílias, como machismo estrutural, alcoolismo e pobreza, e lembrando que somente mulheres participam do filme. Imagens como o homem sendo o gigante da mulher vão sendo desconstruídas e tudo sempre mediado por perguntas que a própria Elisa Capai vai propondo para as meninas. Vale ressaltar o quão inteligentes e afiadas são essas 10 meninas, que formam a primeira geração de Guaribas com acesso à escola, alimentação adequada e dignidade.
A diretora lança mão da estratégia da entrevista para aprofundar as questões familiares, pois as meninas entrevistam suas próprias mães abordando principalmente as razões que as levaram a serem mães tão jovens, algumas com quatorze anos, que as fizeram abandonar os seus sonhos. Todas apontam relatos que foram roubadas de suas famílias ainda menores de idade pelos seus namorados que eram mais velhos e que se tornaram seus maridos. Nessas entrevistas afloram as questões religiosas e os maus tratos ocasionados pelo pai de uma das meninas que era alcoólatra.
Apesar da imagem da diretora não aparecer em cena, acompanhamos a sua intervenção em vários momentos cruciais, durante algumas entrevistas com as meninas sobre assuntos familiares e religiosos, desejos para o futuro e confecção do roteiro feito por elas mesmas para as várias encenações como casamentos e projeção das profissões. A relação de Elisa Capai com as meninas é de troca, em poucos momentos ela interveio para apaziguar algum conflito, somente na questão do alcoolismo do pai de uma das meninas que gerou constrangimento e teve inicio de um bate-boca entre as amigas. Mesmo sabendo que as meninas encenavam ao ligar a câmera, Capai deu espaço para elas conduzissem conversas bem pessoais como ao discutir as suas escolhas para um futuro marido e a menarca, uma preocupação constante das meninas, pois ao menstruar elas deixavam de brincar com as menores e passam a ser assediadas sexualmente pelos homens.
Capai também acompanha as meninas nas suas atividades religiosas nos templos, na catequese e nas rodas de conversa com pastores. Também conversa com elas sobre assuntos religiosos, onde elas se declaram evangélicas e emitem opiniões sobre o que é pecado. Nesse momento, Capai é confrontada por uma delas que pergunta se a diretora tinha algum pecado e ela responde que não acredita em pecado, a menina prontamente responde que esse era o pecado da diretora. Esse momento demonstra o quanto as meninas se sentiam à vontade e confiantes com a equipe do filme, o que trouxe autenticidade em vários momentos, apesar de sabermos, como diz Eduardo Coutinho, que quando se liga a câmera o personagem aflora e a autofabulação automaticamente acontece. Elas também manuseiam claquetes, vara de boom e outros equipamentos para criar seus próprios filmes. Essas encenações roteirizadas e interpretadas pelas meninas foram fundamentais para aprofundarmos as personagens reais, pois elas soltavam a criatividade nas indumentárias, nos diálogos, nas danças e nas conclusões das cenas, que na maioria das vezes vinham acompanhadas de tiradas muito bem humoradas.
Elisa Capai explora a tal máquina do tempo imaginária, alimentada pelo combustível dos sonhos de meninas cujos pais conheceram a miséria de perto. Projeções sobre o passado e o futuro são contempladas e como é genial a conversa entre neta e avó quando a primeira descobre que até o seu nascimento a segunda não tinha acesso a luz elétrica nem a água. São sonhos que vão se revelando em encenações, como o do casamento. A câmera de Capai está ali como cúmplice, em planos próximos que emulam intimidade e admiração. Sim, porque essas meninas são graciosas demais e o encanto da direção transparece com uma luz que deixa tudo resplandecente. Mas eis que chega a pergunta fatal: vocês temem algo? E as lembranças do passado aparecem: o medo do alcoolismo do pai, o pavor da fome de antes. É incrível como A Fabulosa Máquina do Tempo discorre temas políticos e pesados com tamanha simplicidade, humor e leveza.
Entretanto, entre o passado e o futuro tem o presente... e tem o filme, que é de Capai, mas também é delas, que não cansam de representar a si mesmas, em um fluxo de imaginação incontinente. Se há 10 anos o que prevalecia era a fome, agora são os sonhos de riqueza, de casa própria e de um Lamborguini. E todas querem ser algo, uma enfermeira, outra perita, criminalista, atriz, policial e empregada doméstica. Mais do que um filme, esse é um trabalho que projeta um futuro possível, uma vida possível de ser sonhada.
A Fabulosa Máquina do Tempo é uma joia lapidada com muito esmero e merecedora do reconhecimento internacional que vem recebendo, o filme foi muito aplaudido no Festival de Berlim. Elisa Capai conseguiu tratar de assuntos tão difíceis como a fome, a falta de perspectiva de futuro das gerações que antecederam as meninas, o universo feminino através do diálogo entre avó, mãe e filhas e suas esperanças para o futuro com tamanha simplicidade e grandeza que chega a emocionar o espectador. Lindeza é a palavra que resume a obra.

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