Texto por Marco Fialho
Preciso começar esse texto com uma contextualização que acredito ser muito importante. O filme Tatame, dirigido por Zara Amir Ebrahimi e Guy Nattiv, vai ser exibido em circuito comercial no Brasil no exato momento em que os Estados Unidos e Israel atacam de maneira descabida o Irã. Por que julgo relevante começar com esse comentário? Em especial, porque os fatos que o filme apresenta e retrata refletem com justeza a situação das mulheres no Irã desde que a Revolução Islâmica que eclodiu em 1979 e implantou um regime autocrata que despreza frontalmente os direitos das mulheres. Infelizmente, um absurdo não elimina o outro. Assim, concordar com o viés político de Tatame não significa encampar as atrocidades praticadas pelos governos autoritários e violentos de Donald Trump e Benjamin Netanyahu, com suas bombas que matam crianças e mulheres já exauridas com a opressão do governo.
Tatame pode ser definido como um drama político embalado por uma narrativa de suspense, que ocorre durante um campeonato mundial feminino de judô. O filme marca uma parceria inédita entre uma artista franco-iraniana com um israelense na direção e aborda a participação da judoca Leila Hosseini, interpretada com pungência dramática por Arienne Mandi, como atleta representando o Irã.
Todo filmado em um soturno P&B, os diretores se utilizam muito da energia e movimentação típica do do esporte para agregar uma câmera dominada pela tensão e aprofundar um viés psicológico das personagens. A maioria das cenas são filmadas em planos próximos, o que transmite uma sensação de aprisionamento das duas personagens principais, Leila e sua treinadora (interpretada pela diretora Zara Amir Ebrahimi).
Tatame se passa quase todo dentro de um ginásio, o que ajuda a acentuar um sentido opressor da história. O filme se esforça por mostrar uma constante vigilância do aparelho de Estado iraniano em relação a equipe de judô. A onipresença do regime se coloca na maioria das cenas, como um elemento cuidadosamente construído pela direção. Essa vigilância se faz presente primeiro pelo telefone, mas depois torna-se presencial e mais violenta ainda.
A opressão é tanta que mesmo estando competindo fora do país, a judoca tem a família constantemente ameaçada no Irã, caso a atleta não obedeça a uma ordem expressa do governo. A associação de judô do Irã fica a mercê do aparato do governo e do líder supremo, que parece estar a parte de tudo o que acontece no tatame.
Contudo, um dos grandes atrativos de Tatame está na maneira eficiente como os diretores incorporam a narrativa clássica injetando adrenalina e tensão política. As cenas de judô são extremamente bem filmadas e realistas, e somadas com as interpretações enérgicas das atrizes permitem que a obra segure o interesse do público.
Tatame é aquele filme que almeja fisgar o público pela identificação com a heróina Leila Hosseini, sim, tudo gira em torno dela e a câmera gosta dela e conclama a todos a torcer por ela tanto nas partidas quanto na penosa vida social. Nós vemos a sua família e isso também favorece a torcida por ela. Como não torcer por ela? Isso é cinema, fazermos torcer por alguém que acabamos de conhecer por algumas imagens.
Mesmo que a proposta narrativa de Tatame não contemple ousadias e até chegue a usar fortes tintas dramáticas para poder conquistar o espectador, há um evidente e justo ponto de vista feminista, o que o torna o filme irresistível. O ápice desse feminismo é quando Leila Hosseini em uma luta decisiva se sente sufocada e arranca o seu hijab, o véu que encobre cabeça e pescoço das mulheres por determinação da religião islâmica que comanda o Irã. Como escapar da opressão ou até mesmo extingui-la? Essa é a pergunta que muitas mulheres devem se fazer diariamente no Irã.

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