Texto por Marco Fialho
Com tantos lançamentos fracos no mercado cinematográfico atual, ver um documentário maravilhoso como Pele de Vidro passar marginalmente no circuito brasileiro chega a ser uma afronta à inteligência brasileira. O título se refere a um ostentoso prédio localizado no Centro da capital de São Paulo e que representou um marco para a arquitetura modernista brasileira dos anos 1960.
A diretora Denise Zmekhol é filha do já falecido arquiteto Roger Zmekhol, que projetou o prédio. Como homenagem, a diretora narra o filme como uma carta de reconciliação com o pai, já que no momento de sua morte eles estavam brigados. Pele de Vidro parte do individual, do familiar para atingir o geral e esse processo de expansão é realizado com imensa precisão, fazendo que o documentário se transforme em matéria de interesse para o nosso país.
Por isso, o que mais surpreende em Pele de Vidro não é exatamente o interessante tom confidencial e pessoal que o filme engendra, mas sim como por meio desse prédio conseguimos pensar o Brasil dos últimos 60 anos. Assim, além do componente biográfico, o documentário expõe o contexto político que passa pela ditadura militar iniciada em 1964, até para explorar as vicissitudes presentes na história do Pele de Vidro.
A trajetória do prédio é construída como uma síntese da esperança/desesperança brasileira, de como a esperança se transforma em desesperança, de como um símbolo de prosperidade pode virar um símbolo de abandono e desprezo público pelos patrimônios materiais e imateriais da nossa cultura. Em Pele de Vidro, a diretora Denise Zmekhol aborda sutilezas históricas que perpassam o prédio e que encaminharam o seu fim trágico em 2018: um incêndio que o transformou em pó, depois de ser abandonado e ocupado por moradores sem teto, numa estrutura que não oferecia um mínimo de segurança para moradia, já que foi pensado para ser um prédio comercial.
A diretora Denise Zmekhol tentou várias vezes adentrar o prédio ocupado por uma população de sem teto, mas o responsável pela ocupação jamais autorizou que ela o visitasse para conhecer e dialogar com os moradores. Somente depois da destruição pelo fogo, a diretora conseguiu se aproximar dos ex-moradores, que voltaram a morar novamente nas ruas e ficaram fascinados em conhecer a filha do homem que projetou o prédio em que viviam.
Essas conversas com os ex-moradores são um dos melhores momentos que Pele de Vidro nos oferece ao mostrar como cada bem material está subordinado à história de um território e suas transformações no tempo. Por essas razões, vejo Pele de Vidro como uma obra sobre o tempo, capaz de falar e trazer para nós os projetos políticos que permearam a sua história.
Pele de Vidro pode ser considerado, sem medo, um dos grandes documentários produzidos no país nos últimos anos. Através de sua história somos levados a pensar, mas também a sentir o quanto as mudanças no tempo foram levando o prédio literalmente à ruína. Denise Zmekhol nos faz pensar ainda em como a política decide o destino tanto dos bens materiais quanto humanos no decorrer dos processos históricos. A diretora ainda escuta os líderes do MST (Movimento dos Sem-Teto), que denunciam a ocupação do Pele de Vidro como duvidosa, organizada por pessoas que exploravam os eventuais moradores. Inclusive, ela registra que os tais responsáveis pelo prédio somem, logo após o incêndio que o destruiu.
Quando o prédio vai abaixo, Temer, o presidente; Kassab, o governador; e Bruno Covas, o prefeito de São Paulo, vão até o local, mas o detalhe significativo que Denise aponta é que nenhum deles visitaram as pessoas que foram afetadas pelo incêndio. Na mesma época, Jair Bolsonaro já como candidato à presidência trata os ex-moradores do prédio como bandidos e não como desabrigados. Como então não pensar em política numa hora dessas ou tentar despolitizar o acontecimento? Felizmente, a diretora considera a política, o que dá uma dimensão a mais ao seu documentário.
Tal como uma pessoa fosse, vimos o prédio ser projetado, nascer, ser respeitado pela sua individualidade única, decair, ser abandonado, e enfim, transformado em pó, numa cremação pública e fartamente registrada. Essa personificação do prédio vem de uma construção narrativa milimetricamente pensada e calculada. Acompanhamos a trajetória do prédio com exaltação, com sofrimento e eivados por sentimentos que a cada momento o filme nos induz. Ditadura, abertura, questões de moradia e participação política estão no cerne desse documentário que aparentemente era só de uma filha querendo se aproximar da memória do pai que jamais tornará a ver ou falar.
Pele de Vidro é sim uma obra que questiona e desembaralha as cartas postas à mesa pelos poderosos. Se muitos veem as pessoas como isoladas do meio, aqui somos obrigados a pensar sobre como as existências individuais estão a alterar permanentemente o coletivo. No meio da selva populacional que vivemos, Denise Zmekhol nos faz ver como a vida está impregnada de dialética e que cada pessoa está muito mais enredada às outras do que o sistema nos faz supor e que o voto deve ser consciente e uma peça crucial para a transformação do coletivo. Mais político do que isso, impossível.
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