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PELE DE VIDRO (2023) Dir. Denise Zmekhol

Texto por Marco Fialho

Com tantos lançamentos fracos no mercado cinematográfico atual, ver um documentário maravilhoso como Pele de Vidro passar marginalmente no circuito brasileiro chega a ser uma afronta à inteligência brasileira. O título se refere a um ostentoso prédio localizado no Centro da capital de São Paulo e que representou um marco para a arquitetura modernista brasileira dos anos 1960.

A diretora Denise Zmekhol é filha do já falecido arquiteto Roger Zmekhol, que projetou o prédio. Como homenagem, a diretora narra o filme como uma carta de reconciliação com o pai, já que no momento de sua morte eles estavam brigados. Pele de Vidro parte do individual, do familiar para atingir o geral e esse processo de expansão é realizado com imensa precisão, fazendo que o documentário se transforme em matéria de interesse para o nosso país. 

Por isso, o que mais surpreende em Pele de Vidro não é exatamente o interessante tom confidencial e pessoal que o filme engendra, mas sim como por meio desse prédio conseguimos pensar o Brasil dos últimos 60 anos. Assim, além do componente biográfico, o documentário expõe o contexto político que passa pela ditadura militar iniciada em 1964, até para explorar as vicissitudes presentes na história do Pele de Vidro. 

A trajetória do prédio é construída como uma síntese da esperança/desesperança brasileira, de como a esperança se transforma em desesperança, de como um símbolo de prosperidade pode virar um símbolo de abandono e desprezo público pelos patrimônios materiais e imateriais da nossa cultura. Em Pele de Vidro, a diretora Denise Zmekhol aborda sutilezas históricas que perpassam o prédio e que encaminharam o seu fim trágico em 2018: um incêndio que o transformou em pó, depois de ser abandonado e ocupado por moradores sem teto, numa estrutura que não oferecia um mínimo de segurança para moradia, já que foi pensado para ser um prédio comercial. 

A diretora Denise Zmekhol tentou várias vezes adentrar o prédio ocupado por uma população de sem teto, mas o responsável pela ocupação jamais autorizou que ela o visitasse para conhecer e dialogar com os moradores. Somente depois da destruição pelo fogo, a diretora conseguiu se aproximar dos ex-moradores, que voltaram a morar novamente nas ruas e ficaram fascinados em conhecer a filha do homem que projetou o prédio em que viviam. 

Essas conversas com os ex-moradores são um dos melhores momentos que Pele de Vidro nos oferece ao mostrar como cada bem material está subordinado à história de um território e suas transformações no tempo. Por essas razões, vejo Pele de Vidro como uma obra sobre o tempo, capaz de falar e trazer para nós os projetos políticos que permearam a sua história. 

Pele de Vidro pode ser considerado, sem medo, um dos grandes documentários produzidos no país nos últimos anos. Através de sua história somos levados a pensar, mas também a sentir o quanto as mudanças no tempo foram levando o prédio literalmente à ruína. Denise Zmekhol nos faz pensar ainda em como a política decide o destino tanto dos bens materiais quanto humanos no decorrer dos processos históricos. A diretora ainda escuta os líderes do MST (Movimento dos Sem-Teto), que denunciam a ocupação do Pele de Vidro como duvidosa, organizada por pessoas que exploravam os eventuais moradores. Inclusive, ela registra que os tais responsáveis pelo prédio somem, logo após o incêndio que o destruiu.

Quando o prédio vai abaixo, Temer, o presidente; Kassab, o governador; e Bruno Covas, o prefeito de São Paulo, vão até o local, mas o detalhe significativo que Denise aponta é que nenhum deles visitaram as pessoas que foram afetadas pelo incêndio. Na mesma época, Jair Bolsonaro já como candidato à presidência trata os ex-moradores do prédio como bandidos e não como desabrigados. Como então não pensar em política numa hora dessas ou tentar despolitizar o acontecimento? Felizmente, a diretora considera a política, o que dá uma dimensão a mais ao seu documentário.     

Tal como uma pessoa fosse, vimos o prédio ser projetado, nascer, ser respeitado pela sua individualidade única, decair, ser abandonado, e enfim, transformado em pó, numa cremação pública e fartamente registrada. Essa personificação do prédio vem de uma construção narrativa milimetricamente pensada e calculada. Acompanhamos a trajetória do prédio com exaltação, com sofrimento e eivados por sentimentos que a cada momento o filme nos induz. Ditadura, abertura, questões de moradia e participação política estão no cerne desse documentário que aparentemente era só de uma filha querendo se aproximar da memória do pai que jamais tornará a ver ou falar.

Pele de Vidro é sim uma obra que questiona e desembaralha as cartas postas à mesa pelos poderosos. Se muitos veem as pessoas como isoladas do meio, aqui somos obrigados a pensar sobre como as existências individuais estão a alterar permanentemente o coletivo. No meio da selva populacional que vivemos, Denise Zmekhol nos faz ver como a vida está impregnada de dialética e que cada pessoa está muito mais enredada às outras do que o sistema nos faz supor e que o voto deve ser consciente e uma peça crucial para a transformação do coletivo. Mais político do que isso, impossível.

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