Texto por Marco Fialho
Tem filmes que são tão leves que aparentemente não oferecem muita coisa para se discutir. É o caso de A Mensageira, dirigido pelo argentino Iván Fund e premiado com o Urso de Prata, Prêmio do Júri no Festival de Berlim. Tudo aqui em A Mensageira não é o que parece ser. Se repararmos bem, a própria fotografia em P&B evoca algo de irreal, mesmo que a trama nos empurre para o realismo. Esses são artifícios interessantes implantados no cerne de uma narrativa que flui sem pressa perante os nossos olhos.
A Mensageira chega embalado por um sui generis road movie, centrado em Anika, uma menina que vive em uma van com o casal de tutores Myriam (Mara Bestalli) e Roger (Marcelo Subiotto, de Puan), e juntos formam uma família atípica, que vive de um suposto talento de Anika (Anika Bootz) de falar com animais mortos. Assim, as pessoas buscam a menina ansiosos por receberem mensagens de seus amados bichos de estimação.
Um dos pontos fortes de A Mensageira é a atuação enigmática de Anika Bootz. É surpreendente como ela chama para si a câmera e o diretor Iván Fund aproveita para realizar diversos closes da menina. A princípio, as relações entre Myriam, Roger e Anika não ficam claras, apenas descobrimos que eles são tutores dela quase no fim e desconfiamos de algo quando visitam a irmã de Anika em uma clínica voltada para a saúde mental e ambos os tutores ficam no carro. Contudo, há movimentos de afetos na relação de Anika com eles, o que se explicita mais quando a menina faz uma declaração de amor à Myriam.
É interessante como A Mensageira se afirma mais pela mise-en-scène do que por um roteiro mais clássico, característica bem comum de um determinado cinema independente contemporâneo. Tal como um documentário observacional, a câmera mais contempla que narra. O filme vai avançando por meio de planos longos que valorizam os silêncios, embora a música original de Mauro Mourelos cria uma ambiência que beira o fantástico. Os diálogos mais recorrentes são os que fazem essa tortuosa "família" ludibriar os incautos, saudosos de seus amados animais, de resto, o que temos são momentos íntimos que por vezes não indicam muita coisa, já que o principal desejo da direção é deixar o mistério rondar sem freio.
Entretanto, por baixo dessa camada mais aparente habita uma ânsia de falar de uma Argentina subterrânea, de personagens que estão no mundo por mais que eles sejam invisíveis ao sistema. Em um determinado momento do enredo, Anika vê umas fotos antigas onde podemos ver que Myriam e Roger pertenciam a um grupo circense, que provavelmente se desfez. Talvez, daí venha um sentido nostálgico que o filme encampe, aquelas tristezas difíceis de serem desfeitas, que levamos como uma marca indissolúvel. Ali, o filme permite o tempo expandir em memórias impressas em imagens felizes de um passado.
A Mensageira pode até não ser aquela obra que impressiona, que se apresenta como vistosa ou espetaculosa. Tudo nela é regado a um toque de singeleza, dando atenção aos corpos que vagam como se suas existências pouco servissem ao mundo. Apesar de viverem a partir de um artifício profissional duvidoso, fica uma ideia, contraditória de carinho, tanto no ato desonesto quanto na relação entre eles. São sombras que vivem, aliás, como várias que existem no mundo, indiferentes ao poder oficial e rodando pelas estradas da vida.

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