Texto por Marco Fialho
Paolo Sorrentino (A Grande Beleza) é um cineasta vibrante. Suas narrativas mergulham na alma dos seus protagonistas e A Graça vem reafirmar essa marca indelével desse diretor que é um dos maiores de sua geração, além de selar uma parceria de longa data com o genial Toni Servillo, agraciado no Festival de Veneza com o prêmio de melhor ator por este trabalho.
A Graça narra os últimos dias de mandato de Mariano de Santis, um presidente da república que precisa examinar dois indultos ligados a assassinatos e uma lei que aprova a prática da eutanásia. O mais impressionante do filme é competência na construção da personalidade austera do presidente, que contrasta com uma câmera muito leve que flutua em volta de Mariano, como se quisesse revelar seus desejos, medos, frustrações e vontades, sublinhando aspectos humanistas presente no cargo de presidente e o quanto é difícil o ato de tomar decisões que vão impactar um contingente imenso de pessoas e instituições.
Não há quase nenhum evento público (se não me engano, apenas um, em um teatro onde recebe aplausos da plateia), quase sempre o vemos sozinho, com a filha Doroteia (Anna Ferzetti), seu braço direito, alguns assessores e seguranças. Talvez, esse seja o filme mais elegante de Paolo Sorrentino, sóbrio, mais com direito a pequenas fantasias, sendo a mais expressiva a da cena final quando a imaginação de Mariano alcança um nível elevado, sustentado por um humor refinadíssimo, que ocorre em outros momentos, algo cada vez mais raro no cinema contemporâneo. Sorrentino sabe brincar com a perspectiva imaginativa do personagens e mostra como até um personagem inquebrantável como Mariano também se embrenha pela fantasia.
É bem interessante como Sorrentino elege temas dentro da narrativa que vão se entranhando uns com os outros, formando um mosaico reflexivo que fortalece ideias e dúvidas morais de Mariano. Além das três decisões a serem tomadas, que já citei acima, somam-se questões variadas que tornam a trama inextrincável e misteriosa, como o fato de que Mariano precisa decidir se sacrificará o seu cavalo de estimação. Mariano também almeja descobrir quem foi, há 40 anos atrás, o amante de sua amada esposa já falecida, que sua amiga Coco Valori (Milvia Marigliano, uma atração cômica a parte no filme) diz saber quem era, mas prometeu sigilo à ex-esposa dele. E Mariano ainda se sente culpado, pelo fato da filha Doroteia ter escolhido ser juíza, tal como ele, e abdicou de investir numa vida sentimental. Sorrentino inclui um filho de Mariano, um personagem que aparece apenas nas discussões com a filha Doroteia e depois rapidamente em uma chamada por vídeo, que é formado em música erudita, mas faz música pop e mora no Canadá, quase um estranho para Mariano. Em paralelo, a bonita editora-chefe da revista Vogue quer uma entrevista com ele, para saber suas opiniões sobre a moda e comportamento, o que faz ele sair pela tangente em fuga. Esses personagens forjam situações que vão se somando às reflexões que Mariano precisa fazer acerca da vida, da morte e do amor.
Sorrentino constrói Mariano como uma rocha, um católico moderado, uma pessoa incapaz de excessos na vida pessoal e profissional. Essa personalidade rígida está diante de casos de assassinatos que precisa resolver em dar a tal graça ou não e ainda decidir sobre a eutanásia, que envolvia contrariedades, como sua formação católica que tradicionalmente se opôs ao tema. Um dos casos o impressiona, por envolver um homem que espera todo o santo dia, a mulher amada na porta do presídio, que faz Mariano refletir sobre a natureza do amor.
As conversas com o Papa acentua a dificuldade de Mariano de aceitar positivamente uma lei que liberava a prática da eutanásia. Ele precisa aprender a perdoar e o filme é sobre esse personagem que não sabe lidar com esse sentimento. Não deixa de ser também mais uma etapa de amadurecimento de Mariano. Sorrentino está a todo instante aprofundando o tema do amadurecimento e o pondo como algo presente constantemente em nossa vida, independente da idade que temos.
Em certo momento, a filha o interroga quem comanda a nossa vida e essa pergunta é a que percorre Mariano a cada cena do filme, pois nossa vida está sempre balizada por valores presentes em nossa formação como indivíduos, por instituições sólidas que nos servem de guia, mas que nem sempre conseguem responder a contento algumas perguntas. A justiça é sempre algo complexo por envolver sutilezas às vezes difíceis de serem percebidas pela frieza dos autos. É nesse terreno que Mariano, esse homem duro precisa caminhar e decidir monocraticamente pelas duas graças e pela aprovação da lei da eutanásia.
Se A Graça se estabelece como um filme maduro em sua narrativa e conta com interpretações que garantem uma qualidade cênica de peso, deixa a desejar quanto à previsibilidade, pois durante o processo vai se evidenciando que tudo caminha para a necessidade de Mariano rever diversos parâmetros da vida, afinal, às vezes é preciso também trair a si mesmo para poder se transformar e se permitir ser feliz. Sim, para Sorrentino, atingir a felicidade não é andar em uma estrada indefinidamente somente para frente. A felicidade está nas curvas e muitas vezes nos desvios que fazemos. O problema é que desde o início pescamos que esse personagem teria que abrir mão de muitos de seus valores para poder prosseguir, o que impacta sobremaneira na surpresa que o final acaba por não oferecer e faz a obra deslizar na previsibilidade.

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