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ME AME COM TERNURA (2025) Dir. Anna Cazenave Cambet


Texto por Marco Fialho

Me Ame Com Ternura, filme dirigido por Anna Cazenave Cambet, narra com muita sensibilidade temas delicados como a da separação de um casal heterossexual e relações amorosas entre mulheres, tendo uma criança no meio de toda a trama e com um ex-marido obcecado numa punição da ex-esposa. A obra é baseada na autobiografia de Constance Debré.      

Anna Cazanave Cambet é muito feliz em costurar a mise en scène de Me Ame Com Ternura, especialmente por explorar o imenso talento cênico da atriz Vicky Krieps (Trama Fantasma), em mais uma interpretação comovente como Clémence, uma mãe que luta para ter o direito à guarda compartilhada de Paul (Viggo Ferreira-Redier), seu filho com o ex-marido Laurent (Antoine Reinartz). 

A câmera não desgruda de Clémence e todos os outros personagens só aparecem em Me Ame Com Ternura para contracenarem com ela. Nunca sabemos o que ocorre entre pai e filho, apenas entre mãe e filho, e entre ex-marido e ex-esposa ou entre ela e as namoradas. Esse viés faz de Me Ame Com Ternura ser um filme de personagem e ter Vicky Krieps nessa parceria garante muito para a eficácia dramatúrgica dessa obra.  

É muito bonito como a diretora Anna Cazanave Cambet não abre mão de Clémence, nem como mulher nem como mãe, mesmo que esses interesses sejam incompatíveis, ainda mais que o ex-marido está predisposto a não deixar mais a ex-esposa veja o filho Paul. Clémence assume orientação sexual por mulheres, o que irrita Laurent. Ela decide viver sua vida com liberdade, custe o que custar e indiferente à opinião dele. A relação dela com as namoradas possui um bom destaque dentro da trama, pois a discussão sobre o corpo é fundamental para entender Clémence e sua condição no mundo.        

O filme aborda a violência parental masculina de Laurent e a maternidade que é negada à Clémence devido a seu interesse sexual assumido por mulheres. Anna Cazenave Cambet mostra o quanto o sistema de justiça familiar é falha e sustentada por uma visão patriarcal, que permite abusos por parte do pai e o descaso perante à mãe. 

A câmera quase sempre é fixa, como se abrisse terreno para que o talento de Vicky Krieps brilhe a cada nova cena. Como Me Ame Com Ternura tem um ascendência realista, sua trama não descamba para o espalhafatoso, há uma preocupação por retratar a personagem, esmiuçar sua dor, mas também seus prazeres carnais, ainda mais que Clémence é uma escritora, fato que quebra com sutileza um pouco do realismo. 

Anna Cazenave Cambet nos faz mergulhar nas vivências dessa mulher tomada por um sentimento de luta, mas que não esquece também de viver. Que nos interroga sobre um viés de aprisionamento da maternidade, que envolve amor incondicional, em contraste com a necessidade de liberdade sexual da personagem. Ao final, ficamos com as perguntas que o filme deixa no ar sobre as contradições e paradoxos do amor em nossas vidas. Me Ame Com Ternura se constitui um libelo introspectivo de uma mulher em busca de sua felicidade em meio a um cotidiano conturbado.

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