Texto por Marco Fialho
Bom Trabalho é uma baita obra da diretora Claire Denis, com a colaboração luxuosa da fotografia, e em especial da câmera de Agnés Godard. Cada imagem tem um requinte diferenciado, uma expressividade que deixa os diálogos sistematicamente em segundo plano.
O filme me remeteu a filmes como "Querelle", de W. Fassbinder, pelo culto aos corpos masculinos que reiteradamente faz, e me fez pensar ainda em "Apocalipse Now", de Francis Ford Coppola, pela crítica ao militarismo e seus rituais. A câmera tem uma fixação pelos corpos dos soldados na mesma medida em que o oficial Galoup (Denis Lavant) fica ensimesmado por um soldado de sua legião.
Bom Trabalho reproduz os pensamentos e as memórias de Galoup sobre sua experiência incomum e dilacerante em um país da costa africana. O cinema de Claire Denis se expressa como profundamente sensitivo, extremamente tátil, que intenciona a sensação do toque, que induz a ele e nesse sentido é provocador por ensejar a beleza no espectador.
Interessante como Claire Denis constrói algo de exótico, não em relação ao país africano, mas sim uma estranheza vinda do próprio comportamento dos militares, algo entre o belo e o triste, uma sensação de solidão e vazio. As constantes imagens dos treinamentos mostram um sistema humano arcaico, em que homens são tratados como máquinas sem sentimentos e o quanto uma hierarquia só serve como um meio de corromper os subordinados.
Me fez lembrar também de Nascido para matar (1987), clássico de Kubrick que denunciava os horrores dos campos de treinamentos preparatórios para a guerra do Vietnam. Com Bom Trabalho, Denis reafirma o seu olhar crítico apurado para o humano e entrega uma performance final inesperada, que subverte a construção social de um corpo, um momento em que Galoup pode enfim soltar a franga e mostrar que até os machões mais renitentes podem relaxar e se entregar à vida, sem os freios impostos pela rigidez de uma ideia de masculinidade que na prática é opressora.

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