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A VIZINHA PERFEITA (2025) Dir. Geeta Gandbhir


Texto por Marco Fialho

A Vizinha Perfeita chama atenção pelos dispositivos utilizados pela diretora Geeta Gandbhir para analisar a história de um assassinato ocorrido dentro de um conflito no Condado de Marion, na Flórida, entre uma família negra e uma senhora branca. O dispositivo que mais atrai nesse documentário indicado ao Oscar é o do uso da câmera corporal de policiais em serviço, na maior parte do tempo, o que implica pensarmos sobre essas imagens e as poucas imagens gravadas fora desse contexto. 

O uso das câmeras corporais efetiva em um primeiro instante, que boa parte do filme partiu de imagens e sons extraídos quando o conflito já está de alguma forma conflagrado. Se o filme inicia com imagens da polícia chegando após um crime ocorrer, o de Susan Lorincz (a mulher branca) atirar em Ajike Owens (a mulher negra), o que vemos depois são imagens resgatadas de muito antes, que registram uma etapa mais inicial do conflito, com Susan implicando com as crianças vizinhas que brincam no entorno de sua casa alugada. A primeira imagem mostrada vem de Susan indo até Ajike lhe mostrar uma placa que diz que ali era uma área restrita, o que faz começar uma discussão e termina com Ajike jogando a placa no chão, na direção de Susan, que chama a polícia.  

Geeta Gandbhir foca muito em mostrar o quanto Susan não tolera o som das brincadeiras das crianças, porque antes da casa dela ser construída aquela ela uma área utilizada como lazer pelas crianças, o que fazem elas brincarem em uma área comum nas imediações da casa de Susan. É incrível como a partir dessas imagens de conflito podemos penetrar em algumas das idiossincrasias da sociedade estadunidense, como o racismo e a prepotência das pessoas brancas, que querem domesticar e disciplinar pessoas negras ao seu redor, ignorando o diálogo e querendo impor poder e superioridade. Vale destacar que Susan é uma moradora recente, mudou há dois anos e poderia ter se informado sobre o fato de ter muitas crianças naquela localidade.  

A Vizinha Perfeita parte de um fato cotidiano, ocorrido numa área comum ao lado de espaços privados. O filme não mostra esses espaços apenas se concentra na rua em que moram as duas vizinhas em litígio. As imagens capturadas fora do registro policial são justamente de detalhes desse lugar, de cesta de basquete, caixas de correios velhas, ângulos das casas e da rua. Essas são imagens relacionadas ao espaço, importantes de certo, mas são meramente contextuais. O que faz diferença mesmo nesses planos é o estatuto sonoro. Enquanto as imagens perfilam, ouvimos as vozes em off dos moradores, que descrevem a relação intolerante de Susan com todos os vizinhos, e mais, falam sobre os sacrifícios de Ajike para sustentar sozinha os filhos. Assim, Geeta Gandbhir se posiciona em relação a qual ponto de vista está privilegiando.

Susan é mostrada como uma mulher dura, inflexível, que diante qualquer problema com as crianças logo aciona a polícia. A discussão sobre a gravidade dos disparos e uma possível construção de legítima defesa de Susan é desconstruída por Geeta, na medida que ela mostra que a autora dos disparos pesquisou no Google as circunstâncias aceitáveis para se constituir um homicídio culposo (sem intenção de matar), ao invés de doloso (com intenção de matar).

A Vizinha Perfeita aborda o conflito e a participação da polícia como mediadora, como um elemento que tenta ver os dois lados da questão. O tema da propriedade privada e o poder gerado a partir desse pressuposto está intrínseco na discussão, assim como as posturas de Susan que resvalam fortemente no racismo. A favor dela existe uma realidade objetiva, de que crianças brincando perto da sua casa fazem muito barulho e incomoda mesmo. Mas Geeta mostra o quanto Susan se fecha ao diálogo, e que insiste na proibição das brincadeiras das crianças e na perseguição, sendo que o terreno vazio ao lado de seu terreno não é dela, e o proprietário inclusive autorizou o seu uso pelas crianças. A alternativa de somente apelar para a polícia faz notória a inflexibilidade de Susan em relação a todos os seus vizinhos.

O título A Vizinha Perfeita contém alta dose de ironia, e foi tirada de uma fala de Susan para classificar sua postura frente aos vizinhos, é mais um sinal que Geeta Gandbhir dar acerca de sua visão sobre o ocorrido. O que estaria por trás desse terrível assassinato de Ajike? Alguns detalhes ajudam a entendermos melhor como um conflito aparentemente banal pode chegar a um final tão trágico. Mesmo depois do crime praticado é assumido por Susan, os policiais lhe dão um tratamento diferenciado, quase como vítima. O que mais ajudou no processo de justiça foi o movimento organizado pelos moradores para que Susan fosse vista como assassina, já que os policiais insistem a trata-la de outra forma, com um nítido privilégio. 

A Vizinha Perfeita é também sobre privilégio, sobre quem pode matar e quem não pode, caso dos negros, que até quando mortos são tratados como supostos agressores. Como a maioria das imagens advém dos momentos mais incisivos da história, esse é um documentário difícil de assistir, até pela indignação que ele provoca em nós. Aqui, racismo, arrogância, privilégio e absurdo se encontram numa trama sinistra que muito diz sobre as raízes profundas de uma sociedade onde o individualismo raso e ignorante prevalece em relação a uma ideia de coletivo.


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