Pular para o conteúdo principal

NÃO SEI VIVER SEM PALAVRAS (2025) Dir. Andre Brandão


Texto por Marco Fialho

Se tem um escritor no Brasil que é subdimensionado esse é Ignácio de Loyola Brandão. Não Sei Viver Sem Palavras vem colaborar para tirar um pouco esse personagem apenas do âmbito da universo da literatura, onde goza respeito e reconhecimento, para ganhar um pouco mais visibilidade em lugares para além da literatura.    

O filme é dirigido pelo filho de Ignácio, Andre Brandão (que coloca Ricardo Carioba destacadamente como um codiretor, não sei exatamente o que isso quer dizer, mas está posto assim nos créditos iniciais) que depois de um início de filme um pouco confuso, onde o nascimento do diretor se confunde com imagens de Loyola em épocas diferentes na estação ferroviária de Araraquara, cidade natal do escritor. Não Sei Viver Sem Palavras é um documentário que vai cavando pela montagem uma face, como se tateasse um universo que quer explorar e exibir, mas que não soubesse bem qual caminho escolher para contar.

Nem sempre o filme define seu alvo. O que se quer mostrar é a relação com o pai escritor ou se almeja destrinchar a obra e a carreira do escritor? Quer falar pelo próprio escritor ou colocar um narrador para dizer palavras suas? Essas irregularidades narrativas prejudicam uma maior fluência do filme, impacta no ritmo e o torna claudicante. 

Logo no início há uma fala de Ignácio de Loyola Brandão sobre um sonho que ele alimentou na vida de ser cineasta, o que deveras não ocorreu jamais. Mas eis que ele está aqui como um protagonista e porque não aproveitá-lo em sua inteireza, de corpo e alma, com imagem e som que o integralize? O melhor de Não Sei Viver Sem Palavras é a presença em carne e osso de Loyola. Quando ele está em cena o filme se expande com a sua inteligência e verve, com o dom da palavra que carrega organicamente, quando sai dele para outros voos o filme dá uma esfriada.

Sinceramente, é de difícil compreensão colocar Gabriel Braga Nunes para fazer intervenções como Loyola, quando a melhor voz é a do próprio Loyola. O artifício de um narrador com essas características, só se faz necessário na ausência do protagonista, quando se realiza um filme póstumo. Como é bonita a sequência em que Loyola narra a sua infância, a relação com a mãe, depois lê uma carta para o filho, como um confessionário de sua solidão. 

Não Sei Viver Sem Palavras é bonito quando atinge a alma de Loyola, a necessidade do escritor viver recluso e só. É interessante a construção não linear que Andre arquiteta para o documentário, assim como a atmosfera poética que instaura corajosamente, mesmo quando todo esse arranjo não funcione plenamente a contento. Há bastante belezas a serem colhidas no decorrer da narrativa, em especial as palavras de Loyola que nos chegam direta ou indiretamente. 

Tem uma cena em que Loyola cata feijões para poder citar o aprendizado que teve com a mãe, sobre a importância de se escolher as palavras como se escolhe os melhores feijões a serem cozinhados. Essas são cenas simples, mas repletas de sensibilidade e revelação sobre Loyola e sobre o processo artístico em si. Ou os discursos religiosos do pai, que sabia escolher as palavras e era aplaudido pela comunidade do bairro. Essas são os aprendizados de Loyola, suas motivações para o exercício da profissão de escritor. 

Uma das partes mais interessantes de Não Sei Viver Sem Palavras é quando o documentário enfoca a participação de Loyola como um defensor da democracia e sua militância contra a ditadura militar e a censura, que interferiu diretamente no texto que produzia. É ótima a parte em que se narra o início da carreira de Loyola como jornalista, depois como cronista e antes ainda como crítico de cinema (confesso que fiquei curioso por ouvir impressões de Loyola sobre os filmes), que infelizmente é pouco explorado pela direção.            

O que mais me deixou impressionado com Não Sei Viver Sem Palavras é a lucidez pela qual Loyola fala de sua carreira. O sentimento ao verificar que como jornalista queria ir além dos fatos e o quanto gostava de colocar a imaginação a serviço da escrita, sendo esse para ele, o maior atributo da profissão de escritor. 

As melhores passagens do documentário é quando Loyola fala de sua obra literária, o que o motivou a escrever algumas delas. Ignácio fala de Zero (1974), Não Verás País Nenhum (1981), Cadeiras Proibidas (1988), entre outras. Seus principais temas aparecem, como a crítica aos descaminhos da humanidade e do poderes constituídos. Assim, sua literatura verteu para um misto de análise da realidade e uma descrença acerca do futuro, uma revolta distópica perante o mundo.

Entretanto, o que mais eu aprecio em Não Sei Viver Sem Palavras é a sua entrega ao poético, sem medo de errar pelo excesso ou pela música às vezes saliente demais. Ver Loyola é de uma força imensa, sim, apenas a imagem dele já é forte, mas quando vemos cada palavra lúcida dita por ele, tudo cresce pela inteligência que emana. Como é bonito ver Loyola prezando pelo inesperado, tanto na vida quanto na literatura, mas sempre deixando pelas palavras, gestos e ideias perenes para se pensar o mundo.                   

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

CLOSE-UP (1990) Dir. Abbas Kiarostami

Texto por Marco Fialho "A arte é um sentimento que se experimenta, que o artista desenvolve nele para compartilhar com os outros". Frase que o personagem Sabzian atribui a Leon Tolstói Estudar o cinema de Abbas Kiarostami é mergulhar no imaginário do cinema. Um dos ícones do cinema iraniano dos anos 1980 e 1990, o diretor realizou obras cruciais para o pensamento cinematográfico contemporâneo. Obras como Gosto de Cereja (1997), Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987), Através das Oliveiras (1994), A Vida e Nada Mais (1992), e outras já produzidas nos século XX1, como Dez (2002), Cópia Fiel (2010) e Um Alguém Apaixonado (2012), todas fundamentais e merecedoras de serem estudadas, não só individualmente, mas também em conjunto para melhor se compreender o pensamento original desse cineasta iraniano, que junto com tantos outros seus contemporâneos, como Mohsen Makhmalbaf, Jafar Panahi e Majid Majidi, formaram a base do que hoje chamamos de cinema iraniano. Mas nesse texto vou come...

RETROSPECTIVA VIVIAN OSTROVSKY

Texto por Carmela Fialho Retrospectiva Vivian Ostrovsky "Para mim, cinema experimental significa ter liberdade total - liberdade de duração, de tema, de forma.(...) fazer o que você quer sem se submeter às regras comerciais. São outros valores, não é tanto sobre ser longe da indústria, mas sobre liberdade de criação. De resto, é frustrante ver que hoje o cinema está cada vez mais padronizado, com poucas surpresas".  Vivian Ostrovsky em entrevista inédita a Fernanda Pessoa, extraído do Catálogo do 31º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade 2026. Na retrospectiva Vivian Ostrovsky, assistimos ao programa 2, denominado corpos em trânsito, com os filmes Movie ( V.O.)  (1982); Idas e Vindas   (1984); Copacabana Beach  (1983); Domínio Público  (1996); e U.S.S.A (1985). O que unifica os cinco curtas são as filmagens de corpos humanos em diferentes atividades do cotidiano em várias regiões do planeta, como Estados Unidos, França, Brasil e a antiga União ...

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...