Texto por Marco Fialho
Hey Joe é um filme complexo, que precisa ser analisado dentro do arco temporal no qual a sua história transcorre. Numa Napoli ainda deveras arcaica, o diretor Claudio Giovannesi acompanha o personagem Dean Barry (um James Franco muito bem temperado por uma melancolia abissal), um marinheiro dos Estados Unidos, desde o final da segunda guerra mundial, em 1945, onde conheceu e engravidou uma jovem napolitana, até os turbulentos anos 1970, quando retorna à cidade italiana para enfim conhecer o filho que deixou na barriga da amada.
O diretor Claudio Giovannesi mergulha poeticamente nessa Napoli transformada pela história, onde a máfia começa a ter uma força social descomunal, se aproveitando das fraturas deixadas nas famílias que participaram da guerra e que ainda tentam se reerguer do vazio deixado pela destruição material e espiritual. Nela temos um Dean Barry numa aventura sem volta numa realidade brutal, em uma Napoli devotada ao crime e ao contrabando, onde o seu filho (Francesco Di Napoli) já está cercado e dominado pela máfia local chefiado por um tipo de padrasto chamado Vittorio.
Muito de Hey Joe (termo usado pelos nativos de Napoli para se comunicar com os soldados dos Estados Unidos na segunda guerra mundial) se sustenta pela presença e o carisma cênico de James Franco, e o diretor Claudio Giovannesi percebe isso ao propor uma câmera dedicada a acompanhar o seu personagem. Hey Joe é todo dele, e se restringe a essa busca insana de Dean de voltar a um território do passado para refazer seu futuro. O seu presente é de pura solidão e infelicidade, com sua ex-esposa querendo processa-lo por uma pensão que nunca foi paga por ele. Esse fato o torna um personagem sem destino, um desgarrado, marcado pelo insucesso e pela desmotivação perante a vida.
Pode-se argumentar que Hey Joe não vai muito além disso, desse personagem tentando se reconectar com o mundo a partir de um passado que ele desconhece por ter abandonado, um filho que nunca viu e no qual não sabe nada a respeito da vida que leva no presente. Que há um quê de absurdo nessa ideia não resta dúvida, mas o que seria do cinema sem esses personagens que querem viver no limite, numa escalada que nós simples mortais dificilmente nos atreveríamos a viver.
Tudo o que Dean encontra em Napoli beira o irreal, um filho entregue à bandidagem e uma mulher que logo de cara rouba seu dinheiro, mas que ele insiste em não querer largar. Evidente que nesse contexto de pobreza na qual se vive em Napoli, é possível compreender o comportamento desviante dos personagens que ali habitam, embora paire uma dúvida sobre como Dean aceitou tantos desvarios dessa mulher e do filho que o motivou retornar. Pode-se ponderar que Dean, quando morava nos Estados Unidos também não foi exatamente um modelo de correção, especialmente por jamais pagar a pensão da esposa e viver se embebedando pelos bares meio sem rumo, o que justificaria o arroubo de querer viver numa cidade violenta e hostil como Napoli.
Claudio Giovannesi propõe uma narrativa que oscila entre os anos 1940 e 1970, o que mostra o quanto essa montagem paralela permite que acessamos melhor a personalidade de Dean, esse personagem repleto de conflitos e marcado pela história do Século XX, com suas guerras e disputas por territórios. Hey Joe é um filme marcadamente sobre esse personagem conturbado e contraditório, que orbitou por um mundo tomado pela discórdia e pelo abandono social, em que cada um, primeiramente, tratou de cuidar de si e de sobreviver em meio ao caos. Se exigirmos mais de Hey Joe, certamente nos frustraremos, pois as relações aqui se mostram tão frágeis como a expressão que nomeia o filme e esse será o desafio de Dean, a de compreender verdadeiramente essa realidade.

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