Texto por Marco Fialho
Eu Vi um Rei, filme dirigido por Giorgia Farina, inicia e termina com a imaginação do personagem Emilio (Marco Fiore), um menino que contempla o mundo pelo viés lúdico e da fantasia. O contexto histórico de Eu Vi um Rei é o auge do fascismo italiano e a trama se passa dentro de uma mansão de uma família rica que vive em uma pequena cidade do país, um local que transpira a ideologia fascista devido Marcello (Edoardo Pesce), pai de Emilio, ocupar um cargo de chefia na comunidade. E esse dois fatos extremos, muito dizem sobre essa curiosa obra, ainda mais depois que um letreiro informa de que veremos fatos baseados numa história real.
Como Marcello tem um posto de Podestá, cargo de poder nessa localidade e almeja galgar promoções e privilégios dentro da estrutura política fascista, puxando o saco de Tracco (Gaetano Bruno), um influente chefe fascista e aceitar manter Abraham Imirru (Gabriel Gougsa) como um prisioneiro numa jaula em seu jardim. Eis que desde as primeiras cenas somos confrontados por essa dicotomia entre o tal prisioneiro e os fascistas, que transformará a vida de vários personagens. Surpreendentemente, a diretora Giorgia Farina realiza uma obra solar, com a luz adquirindo uma presença marcante em todas as cenas.
Eu Vi um Rei se desenvolve por meio de alguns personagens, que dividem o protagonismo: Gemma (Blu Yoshimi), é uma jovem professora voluntária, cujo noivo está lutando na Guerra da Abissínia, que defende ferrenhamente o regime fascista, mas que decepcionará com ele, depois que sofre atos misóginos; na mansão temos outros personagens, como os seus proprietários Fausto (Lino Mussela), homossexual e avesso ao fascismo e que alimenta a imaginação do menino Emilio com livros fantasiosos, e sua irmã Regina (Sara Serraiocco), casada com o fascista Marcello. Evidente que Imirru tem uma importância fundamental, como o personagem desestabilizador do sistema e das relações contraditórias da família.
Aos poucos, o rei da Abissínia vai conquistando a simpatia de alguns personagens, a começar pelo jovem Emilio que o vê como o personagem Sandokan, seu ídolo vindo dos livros europeus que fantasiam a existência de uma suposta cultura africana. Essa identidade será crucial para que Emilio possa entender o seu papel no mundo e o afastar ainda mais da ideologia intolerante e xenófoba fascista. O rei também seduzirá a professora Gemma, pessoa que a princípio demonstrava asco por ele. O irmão de Regina, Fausto, será outro a contestar o absurdo do enjaulamento do rei da Abissínia.
Tracco é um personagem que soa como periférico na trama, mas sua presença como o Federale fascista é determinante para se construir como se comporta um autêntico fascista, com suas artimanhas mentirosas e torturas psicológicas a qualquer pessoa em que trava uma conversa. A perversidade fascista é notória quando ele mente para Regina, para poder ir para a cama com ela e depois descartá-la em seguida, ou quando pressiona Marcello a torturar Imirru ao observar sua ambição política ou ainda quando humilha publicamente Fausto pela sua homossexualidade. Ele também encampa a faceta vaidosa e cretina de um poder que até quando almeja a elegância o faz em nome da violência.
Eu Vi um Rei expõe o preconceito aviltante do fascismo em relação aos países africanos, ao exibir seus corpos e costumes como uma aberração exótica, tanto pelo cultura quanto simplesmente pela diferença na cor da pele. Mas o filme sabe se colocar quando escolhe a imaginação de uma criança como a maior arma contra a truculência fascista, a que escancara sua barbárie.
A câmera de Eu Vi um Rei corresponde exatamente à imaginação de Emilio, possui a sua leveza e perambula pelos personagens, em um dinamismo ávido pela imaginação. A câmera nos convence que aquele pesadelo idílico era pura ilusão e sequer resistia à ideia de uma criança. Às vezes, os personagens pareciam vindos de um sonho, muito por conta da fotografia que jamais perde a sofisticação que serve para mostrar um mundo de aparências e mentira. As animações que adentram no filme pela imaginação de Emilio dão a impressão de que aquele mundo tal como ele é visto, não poderia ser real, há algo de fabular nele, para além da história que Emilio tanto repisa em contar.
Se tiver algum senão em relação a Eu Vi um Rei, vale pensar no aspecto solar que a fotografia assume na reconstituição dessa história. Fiquei a perguntar porque a diretora não utilizou momentos imagéticos mais sombrios para retratar a sanha imoral e nefasta fascista e deixou apenas solar a imaginação de Emilio. Esse contraste faria o filme ganhar um novo sentido e uma maior reflexão em relação à trama. Essa é apenas uma interrogação que julgo necessário se fazer, mas que não retira o brilho dessa obra que desmonta o pensamento e as práticas fascistas a partir do olhar criativo e lúdico de uma criança.

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