Texto por Marco Fialho
Como é bom quando o cinema italiano nos surpreende com um toque duplo de nostalgia e contemporaneidade. Esse é o caso de A Última Rodada, dirigido por Francesco Sossai, que presta uma evidente homenagem tanto a Os Boas Vidas, clássico de 1953 de Federico Fellini quanto a Aquele Que Sabe Viver, filmaço de Dino Risi, de 1962. Do primeiro, há a inspiração em retratar homens marmanjos infantilizados, bons vivants inveterados. Do segundo filme, temos o road movie e a relação entre gerações diferentes.
A Última Rodada é aquele filme que chega sem maiores pretensões e assim segue até o fim, mas a sua suposta simplicidade escamoteia uma narrativa em que os personagens vão se revelando cena a cena. Logo de cara temos uma abertura com um chefe realizando uma homenagem proforme a um funcionário de sua empresa, que depois de anos de dedicação se aposenta, ganhando de prêmio um rolex. O humor do filme surge do texto, mas também por embate de cenas que se contradizem.
Essa sequência inicial é importante por contrastar com as sequências seguintes, com os personagens Carlobianchi (Sergio Romano) e Doriano (Pierpaolo Capovilla), dois boas vidas de marca maior dispostos a executar pequenos trambiques para poderem beber a eterna saideira dos bares. Há uma visível ironia em tudo o que vemos, já que de um lado temos a exaltação do trabalho, e de outro a reafirmação da vagabundagem como metodologia de vida. O encontro deles com o jovem Giulio (Filippo Scotti) marcará uma fase de aprendizagem mútua geracional, já que o rapaz é um aplicado arquiteto recém-formado, embora um imaturo nas coisas da vida mundana. A esperteza dos veteranos malandros aos poucos encantará o rapaz ávido por viver o primeiro amor com uma jovem que estudou com ele.
O roteiro de A Última Rodada é primoroso e conta com diálogos afiados e inteligentes, daqueles que precisamos estar atentos para não perdemos as minúcias que contem. O humor refinado é o maior atrativo do filme, além da interpretação afinada da dupla de beberrões, que se entregam em nuances físicas extraordinárias, às vezes até desastradas, de corpos largados e entregues ao excesso. Logo numa das primeiras cenas, eles chegam em um bar dominado pela cultura dos Estados Unidos e tudo o que acontece ali vira um deboche a essa invasão cultural desproporcional.
As cenas noturnas são muito bem filmadas e mostram o lado obscuro e arriscado de se viver no fio da navalha do risco permanente. A imagem reforça um sentimento de nostalgia dos personagens, que ainda vivem suas juventudes e se recusam a virar homens, mesmo que já tenham passado dos 50 anos, assim relembram os tempos de farra e de ida à prostíbulos pela Europa. Carlobianchi e Doriano vivem a expectativa de reencontrar Genio, um amigo do passado que fez um esquema criminoso com uma empresa de relógios e teve que fugir para Argentina para escapar de ser preso.
Na viagem que fazem até o aeroporto, para encontrarem Genio, o trio troca experiências, conhecimentos e vivências entre si, além de criar vínculos sentimentais entre eles. Giulio imagina a história de Genio que os seus dois novos amigos narram e assim cria uma perspectiva mais aventureira para a sua reclusa e insossa vida. Mas Carlobianchi e Doriano também fantasiam esse reencontro com Genio, pois já se passaram muitos anos e muita coisa pode ter mudado na personalidade de Genio.
É muito interessante como o diretor Francesco Sossai trabalha uma ideia de imobilismo desses personagens que se negam a crescer enquanto assistimos a vida movimentada deles, repleta de emoções e marcada pelo imprevisível. Enquanto a vida rica em conhecimento de Giulio é calcada por uma completa estagnação, em que ele mal consegue se declarar à mulher amada e em sua rotina mal sai de casa para se divertir, e a cena em que todos dançam enquanto ele fica imóvel é exemplar ao reafirmar essa ideia.
Contudo, apesar de ter muita aventura, A Última Rodada é aquele filme em que parece acontecer nada, embora o road movie os leve de um lugar para o outro. Carlobianchi e Doriano estão sempre abertos a se lançar ao imponderável e ao acaso. A cena em que são confundidos com um arquiteto que reformaria um casarão de um nobre é fantástica, embora ela não faça muita diferença para a história. Na verdade, quase nenhuma cena é muito importante ou significativa, pois o mais determinante aqui são as causalidades que ocorrem no percurso. A câmera de Francesco Sossai está a todo momento apta a capturar o movimento e esse é o maior atributo do filme, registrar o deslocamento e as experiências, principalmente dos três personagens que viajam juntos
A Última Rodada parte da ideia de que a vida é um jogo aberto e que o prazer dela está no máximo de experiência que se extrai do ato de viver com prazer. A trilha musical contagiante ajuda a embalar essa aventura insólita de três personagens que se colocam à deriva. É bastante interessante quando o cinema contemporâneo constrói sua perspectiva narrativa tendo como referência um cinema do passado, como A Última Rodada abertamente faz. Abrir esse diálogo não como intenção de copiar, mas como inspiração e homenagem. A última cena, a do sorvete é fenomenal e deixa conosco uma jocosa reflexão contemporânea sobre a própria dinâmica do mundo e o que fazemos durante a vida e o que fica dela. Tudo realizado com absoluta sobriedade, com uma câmera fixa sob uma imagem, em um asfalto onde o movimento da vida desfaz o presente e a transforma implacavelmente em algo do passado, o aniquilando por completo, nos forçando a pensar como as coisas rapidamente podem se modificar.

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