Pular para o conteúdo principal

A ILUSÃO (2025) Dir. Roberto Andó


Texto por Marco Fialho

A Ilusão, obra dirigida pelo experiente cineasta Roberto Andó, é um drama histórico que se passa durante o período conturbado entre 1860-1880, que engloba a fase final da unificação italiana. O filme se passa a maior parte em 1860, quando os territórios italianos ainda se encontravam divididos e em parte ocupado pela dinastia dos Bourbon. Em meio a esses conflitos é que acompanhamos o exército de libertação de Garibaldi, e mais especificamente o destacamento do Coronel Orsini (Toni Servillo), um homem que muda de lado para lutar obstinadamente pela liberdade do povo italiano. 

O filme mostra as manobras militares no sul, realizadas para que enfim Garibaldi possa invadir Palermo, ao norte da península para que a unificação italiana seja consolidada. O roteiro engenhoso, que Andó é um dos escritores, divide o filme em duas frentes: uma que acompanha o Coronel Orsini, e outra que segue dois desertores, Domenico (Salvatore Ficarra) e Rosario (Valentino Picone), dois personagens que funcionam como um alívio cômico para a trama principal, mas que depois se junta a ela. 

Esse tipo de narrativa dual tem franca inspiração na obra Fortaleza Escondida (1958), dirigida pelo genial Akira Kurosawa, cuja estrutura serviu de modelo para diversos outros filmes posteriores, inclusive o blockbuster Star Wars (1977), de Georges Lucas. O filme de Kurosawa, curiosamente, também era de guerra, e o uso de dois personagens cômicos em meio ao caos provocado por uma guerra, possibilitou que fosse introduzida uma maior leveza a uma história essencialmente densa.

Domenico e Rosario são dois clowns, personagens bem tipicamente italianos e Andó os utiliza tanto como elementos engraçados de A Ilusão quanto dramáticos, pois eles se situam sempre em meio a momentos em que a tragédia está a rondar. Acredito que as melhores passagens deles no filme sejam as suas andanças como desertores, como a sequência em que vão encontrar refúgio em um convento de freiras, com Rosario se passando por um hilário surdo-mudo, para conseguir a consternação das moças vestidas com seus hábitos.        

Mas Andó veste todo esse contexto histórico com uma fotografia quente, que aconchega os olhares dos espectadores e os arremessam calorosamente para dentro da trama, que sabe se aproveitar de suas dicotomias trágicas e cômicas, sempre sustentadas por interpretações no tom certo de um elenco grandioso, mas muito bem organizado na história. É fundamental a presença de Rosario e Domenico como expressão de tipos populares que permeiam a sociedade italiana e são sempre relegados pelos poderes públicos. 

Algo bastante interessante é como Andó investe em uma trama épica que cabe tão bem no cinema italiano, talvez o mais eclético do mundo e mais diverso em gêneros cinematográficos. No primeiro bloco, quando o filme passa pela região da Sicília, o diretor presta uma sutil homenagem aos irmãos Taviani, com ecos de Allonsanfan (1974) e Pai Patrão (1977) ao retratar a dureza da vida popular e a luta contra o autoritarismo. Esse gosto pela necessidade da luta política é sem dúvida um traço interessante de A Ilusão e que Roberto Andó sabe trabalhar com habilidade e sem comprometer o desenvolvimento dos principais personagens.     

A direção aborda a força de Garibaldi e como ela estava na sedução das camadas mais pobres ao seu projeto de uma Itália para todos. Se o projeto não foi vitorioso mais à frente, daí não foi por seu empenho e luta por um país mais justo e para todos. A Ilusão sabe flertar com esse momento mágico da história italiana, mesmo que já aponte em algumas cenas, o nascimento da máfia e sua propensão ao autoritarismo e à violência desmedida.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

PECADORES (2025) Dir. Ryan Coogler

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho O cinema negro dos Estados Unidos vem se fortalecendo mercadologicamente como nunca. Diretores como Jordan Peele ( Corra! , Nós  e Não! Não Olhe! ), Barry Jenkins ( Moonlight e Se a Rua Beale Falasse ), Ava DuVernay ( 13ª Emenda  e Selma ) e Shaka King ( Judas e o Messias Negro ), Raoul Peck ( Eu não Sou Seu Negro ). Se falarmos mais retroativamente, encontraremos Spike Lee (com os clássicos  Faça a Coisa Certa , Malcoln X , e os atuais  Infiltrado na Klan e Destacamento Blood ), Melvin Van Peebles ( Sweet Sweetback's Baadasssss Song e Posse: A Vingança de Jesse Lee ) e a força do movimento Blaxploitation dos anos 1970, e o ineditismo de Oscar Micheaux nos anos 1920 e 1930.  O fato atual é que o cinema negro não é mais reservado a um nicho. Os diretores mais recentes mostram uma penetração cada vez mais efetiva no mercado. Pecadores , mais recente filme de Ryan Coogler ( Creed e Pantera Negra ) vem comprovar isso. ...

MOSTRA CINEBH 2023

CineBH vem aí mostrando novos diretores da América Latina Texto de Marco Fialho É a primeira vez que o CineFialho irá cobrir no modo presencial a Mostra CineBH, evento organizado pela Universo Produção. Também, por coincidência é a primeira vez que a mostra terá inserido um formato competitivo. Nessa matéria falaremos um pouco da programação da mostra, de como a curadoria coordenada pelo experiente Cleber Eduardo, montou a grade final extensa com 93 filmes a serem exibidos em 8 espaços de Belo Horizonte, em apenas 6 dias (26 de setembro a 1º de outubro). O que atraiu o CineFialho a encarar essa cobertura foi o ineditismo da grande maioria dos filmes e a oportunidade mais do rara, única mesmo, de conhecer uma produção independente realizada em países da América Latina como Chile, Colômbia, México, Peru, Paraguai, Cuba e Argentina, sem esquecer lógico do Brasil.  Lemos com atenção toda a programação ofertada e vamos para BH cientes da responsabilidade de que vamos assistir a obras di...