Texto por Marco Fialho
A Ilusão, obra dirigida pelo experiente cineasta Roberto Andó, é um drama histórico que se passa durante o período conturbado entre 1860-1880, que engloba a fase final da unificação italiana. O filme se passa a maior parte em 1860, quando os territórios italianos ainda se encontravam divididos e em parte ocupado pela dinastia dos Bourbon. Em meio a esses conflitos é que acompanhamos o exército de libertação de Garibaldi, e mais especificamente o destacamento do Coronel Orsini (Toni Servillo), um homem que muda de lado para lutar obstinadamente pela liberdade do povo italiano.
O filme mostra as manobras militares no sul, realizadas para que enfim Garibaldi possa invadir Palermo, ao norte da península para que a unificação italiana seja consolidada. O roteiro engenhoso, que Andó é um dos escritores, divide o filme em duas frentes: uma que acompanha o Coronel Orsini, e outra que segue dois desertores, Domenico (Salvatore Ficarra) e Rosario (Valentino Picone), dois personagens que funcionam como um alívio cômico para a trama principal, mas que depois se junta a ela.
Esse tipo de narrativa dual tem franca inspiração na obra Fortaleza Escondida (1958), dirigida pelo genial Akira Kurosawa, cuja estrutura serviu de modelo para diversos outros filmes posteriores, inclusive o blockbuster Star Wars (1977), de Georges Lucas. O filme de Kurosawa, curiosamente, também era de guerra, e o uso de dois personagens cômicos em meio ao caos provocado por uma guerra, possibilitou que fosse introduzida uma maior leveza a uma história essencialmente densa.
Domenico e Rosario são dois clowns, personagens bem tipicamente italianos e Andó os utiliza tanto como elementos engraçados de A Ilusão quanto dramáticos, pois eles se situam sempre em meio a momentos em que a tragédia está a rondar. Acredito que as melhores passagens deles no filme sejam as suas andanças como desertores, como a sequência em que vão encontrar refúgio em um convento de freiras, com Rosario se passando por um hilário surdo-mudo, para conseguir a consternação das moças vestidas com seus hábitos.
Mas Andó veste todo esse contexto histórico com uma fotografia quente, que aconchega os olhares dos espectadores e os arremessam calorosamente para dentro da trama, que sabe se aproveitar de suas dicotomias trágicas e cômicas, sempre sustentadas por interpretações no tom certo de um elenco grandioso, mas muito bem organizado na história. É fundamental a presença de Rosario e Domenico como expressão de tipos populares que permeiam a sociedade italiana e são sempre relegados pelos poderes públicos.
Algo bastante interessante é como Andó investe em uma trama épica que cabe tão bem no cinema italiano, talvez o mais eclético do mundo e mais diverso em gêneros cinematográficos. No primeiro bloco, quando o filme passa pela região da Sicília, o diretor presta uma sutil homenagem aos irmãos Taviani, com ecos de Allonsanfan (1974) e Pai Patrão (1977) ao retratar a dureza da vida popular e a luta contra o autoritarismo. Esse gosto pela necessidade da luta política é sem dúvida um traço interessante de A Ilusão e que Roberto Andó sabe trabalhar com habilidade e sem comprometer o desenvolvimento dos principais personagens.
A direção aborda a força de Garibaldi e como ela estava na sedução das camadas mais pobres ao seu projeto de uma Itália para todos. Se o projeto não foi vitorioso mais à frente, daí não foi por seu empenho e luta por um país mais justo e para todos. A Ilusão sabe flertar com esse momento mágico da história italiana, mesmo que já aponte em algumas cenas, o nascimento da máfia e sua propensão ao autoritarismo e à violência desmedida.

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