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OS DIÁRIOS DE OZU (2025) Dir. Daniel Raim


Texto por Marco Fialho

Yasujiro Ozu possui uma legião de fãs pelo mundo cinéfilo. O seu cinema possui um estilo próprio e o destaca pela originalidade de seu filmar. O documentário Os Diários de Ozu, dirigido por Daniel Raim, almeja reconstituir momentos da vida desse cineasta por meio de diários, entrevistas e cartas deixadas por ele, além de imagens raras em 8 milímetros, que mesmo um pouco deterioradas, registraram uma viagem quase no final da vida, que Ozu realizou para uma região montanhosa no interior do Japão, em companhia de seu roteirista e grande amigo Kogo Noda. 

Além desses materiais deixados, o filme conta com a voz de Koi Ohori, responsável por ler trechos de cartas e diários escritos por Ozu. Outra preciosidade é o prazer de ouvir cineastas que se declaram fãs de Ozu. E os nomes não são banais. Daniel Raim filma depoimentos de artistas do calibre de Kiyoshi Kurosawa, Win Wenders, Luc Dardenne e Tsai Ming-Liang, cineastas com filmografia expressivas para o quadro do cinema mundial. O diretor do documentário também divide o filme em 9 capítulos organizativos, ideais para dividir algumas fases da vida e da carreira desse diretor excepcional.  

 Surpreendente como Daniel Raim é bastante detalhista na fase muda ao apresentar fatos e curiosidades do mestre japonês, como a adoração que Ozu demonstrava pelo cineasta alemão Ernst Lubitsch, que se consagrou em Hollywood realizando obras que mesclavam histórias de amor com um toque gracioso de humor ou a influência de Harold Lloyd, com seu humor leve e inteligente. 

A proposta de Daniel Raim é a de mostrar a evolução do estilo de Ozu, partindo da comédia até realizar dramas contemporâneos fundamentais para o estudo tanto das temáticas abordadas quanto na abordagem, ou se preferirem, na sua mise-en-scène única e inspiradora. Com o amadurecimento do estilo, Ozu criou planos fantásticos, a maioria com a câmera fixa e baixa, reinventando a maneira de filmar os ambientes e repisando temas familiares, o que levou Ozu a afirmar em sua simplicidade que fazia sempre o mesmo filme.   

O filme de Daniel Raim não se preocupa muito em tentar entender o estilo e a estética de Ozu, mas sim, de partir dos próprios filmes do diretor para poder estabelecer um diálogo em consonância com as obras em si. A ideia aqui não é teorizar sobre a rica obra de Ozu, mas mostrar algumas imagens que possam sensibilizar pela singularidade de cada uma delas. 

Há uma ênfase ao uso da fotografia em P&B nos filmes de Ozu, assim como a demora com que o diretor migrou do cinema mudo para o falado. A fase colorida, ao final da carreira, confere um peso a mais à obra de Ozu, que queria usar o colorido com muito rigor. Um fator bastante interessante é o processo de trabalho de Ozu com seus atores e atrizes. Ele dava muita atenção aos detalhes e instruía com todo o zelo cada ator em cena. Kiyoshi Kurosawa chega a dizer que naquele cotidiano construído havia muita irrealidade, algo impenetrável e mitológico, mesmo que ambiguamente retratasse fatos aparentemente sem importância da vida cotidiana de indivíduos vindos da camada média da sociedade.   

Os diários de Ozu é uma obra para se admirar com paciência, a mesma que esse mestre japonês teve para filmar diversas obras-primas de sua carreira, entre elas o divino Era Uma Vez em Tóquio (1953), que o documentário dá uma atenção extra. Esse documentário vale a pena ser assistido pelo seu todo, mas sobretudo pelas leituras dos diários, onde conhecemos os meandros do pensamento de Ozu, mas também por trazer depoimentos emocionantes de Kiyoshi Kurosawa e Win Wenders, este último nos presenteando com uma fala belíssima sobre como gostaria de ficar eternamente vendo um plano de seu último trabalho, Dia de Outono (1962), pela profundidade que Ozu conseguiu imprimir nas interpretações dos atores ao influir na minúcia de cada expressão dos seus atores. 

Esse é um documentário em que saímos da sala de cinema e queremos correr para casa para assistir a todos os filmes de Ozu, para penetrarmos, nem que seja um pouco, em seu rico e encantado universo. E como seria pura poesia poder viver assim, dentro de uma obra mágica desse diretor cativante.

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