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AINDA NÃO É AMANHÃ (2024) Dir. Milena Times


Texto por Marco Fialho

O início de Ainda Não é Amanhã nos induz a acreditar que este filme será sobre jovens e diversão, quando vemos jovens dançando e se amando no ímpeto da euforia de viver. Mas logo descobrimos que este é um filme sobre o cotidiano de Janaína (Mayara Santos), uma menina que mora em um conjunto habitacional na periferia de Recife, que estuda direito enquanto a mãe e a irmã trabalham para manter a casa. 

A construção narrativa de Ainda Não é Amanhã é simples ao acompanhar os dramas cotidianos de Janaína, as dificuldades de ser a primeira de sua família a chegar na Universidade e a sonhar com um futuro mais confortável financeiramente. A concepção realista se afirma cena a cena, com o intuito de fazer um retrato da vida dessa menina que luta para viver sua juventude (especialmente com seu namorado), estudante aplicada e que sonha em melhorar o nível econômico e social da família. E aqui não é uma família qualquer, mas uma família de mulheres, que precisa sobreviver e pagar as contas.

O filme aborda em paralelo diversos personagens que ajudam a montar o quebra-cabeça social desse universo periférico abordado, como Kelly (Bárbara Vitória), a amiga de infância de Janaína, que trabalha numa loja de um Shopping Center; ou do namorado (Mário Victor) que trabalha com entregas por um aplicativo; ou de Luciana (Clau Barros), irmã de Janaína, que trabalha em um salão de beleza.           

Sem floreios, a mise-en-scène empregada pela diretora Milena Times busca de maneira direta, como tantos outros filmes que andam perambulando por festivais de cinema no Brasil, fazer uma radiografia da vida cotidiana das pessoas que moram nas periferias brasileiras, saindo das paisagens mais habituais dos grandes centros do Sudeste como Rio de Janeiro e São Paulo. A diretora quer então mostrar outras realidades, aqui de uma periferia nordestina e a saga de uma jovem que quer melhorar na vida, sem se esquecer dos desejos à flor da pele naturais da juventude. 

Mas como ser uma jovem, isto é, curtir a vida e ainda ter que ser uma exemplar estudante, monitora de turma e manter as boas notas? São perguntas que o filme traz ao mostrar as contradições de uma jovem que precisa amadurecer rapidamente sem esquecer dos prazeres inerentes a sua idade. Se o filme de Milena Times ganha no retrato detalhista que faz de pessoas em um determinado território, se enfraquece enquanto linguagem por evitar correr maiores riscos estéticos. Essa análise não tira o mérito do filme em trazer a discussão sobre o aborto no Brasil, tema ainda considerado um tabu numa sociedade conservadora que insiste em não enxergar e reconhecer a autodeterminação da mulher sobre o seu corpo.   

Por isso, é importante os filmes trazerem novos objetos de estudo, que incluem grupos e corpos antes marginalizados e sem voz ativa no cinema? Sem dúvida que sim, assim como é necessário a realização de trabalhos experimentais somente preocupados em dialogar semiologicamente com o cinema. Quando Ainda Não é Amanhã traz à baila temas para lá de prementes, salientando o olhar de uma menina preta, e oriunda de uma família igualmente preta, cuja a ausência paterna é um fato, inclusive amplamente amparado no cotidiano periférico. Mas o que queremos frisar é o quanto essa relevância temática reflete na narrativa, nesse caso específico, como a proeminência do tema prevalece à forma fílmica. Evidente que o caráter descritivo, que em certos momentos beira o documental, é antes de tudo uma escolha da direção, mas há uma cena em que o devaneio de Janaína acontece e essa sequência, apesar de isolada, muito diz sobre o aspecto mais intimista da personagem e amplia a percepção do público sobre ela, além de possibilitar à vida algo para além da dureza cotidiana, pois afinal cumprimos nossas tarefas diárias e também sonhamos concomitantemente como seres que somos.   

Mas o que essa proposta de realismo social impacta na narrativa como um todo? Como a problemática central do filme é a da gravidez indesejada numa mulher negra e solteira da periferia, a ênfase no descritivo ganha corpo na hora de contar a história, já que a abordagem realista limita maiores riscos de linguagem por parte da direção. Os enquadramentos, quase todos fixos, refletem esse viés narrativo, que se mostram os mais previsíveis possíveis, como o abuso dos planos médios mesclados com americanos e alguns próximos. Seja em casa, no ônibus, na universidade ou em qualquer outro lugar, o que importa é por em quadro o contexto espacial, que por vezes diz mais do que a própria presença da protagonista. Em uma cena no ônibus, a diretora mostra a protagonista Janaína em pé na condução lotada, mas há sentada à sua frente uma outra menina com um bebê no colo. De tabela, Milena Times expõe um possível amanhã de Janaína. Esse é um artifício típico do realismo, o de por no quadro o máximo de elementos que acentuem a realidade retratada. Não se buscou uma angulação diferente, ou algo que transmitisse o estado psicológico da personagem, mas se almejou sublinhar pela própria encenação, uma proposta realista.   

Mesmo que Ainda Não é Amanhã sublinhe a dor do mundo para quem vive na periferia, nota-se a preocupação de Milena Times em valorizar a luta e a necessidade de sempre se ir em frente, afinal as contas não param de chegar e a vida precisa seguir, por mais que os obstáculos sejam difíceis de serem ultrapassados, o que fica mais evidente na canção final A Mulher do Fim do Mundo, interpretada enfaticamente por Elza Soares. O que mais gostei no filme é o carinho e o sentimento de sororidade que a diretora espalha na obra e o cuidado com que trata sua protagonista. Se faltou ousadia visual, os afetos estão ali postos de sobra e Janaína é cuidada o tempo todo tanto pelos seus quanto pela direção.  

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