Pular para o conteúdo principal

MISTY - A HISTÓRIA DE ERROLL GARNER (2025) Dir. Georges Gachot


Texto por Marco Fialho

O mínimo que podemos começar a dizer o quanto é justo realizar um documentário sobre Erroll Garner, que embora seja muito conhecido e respeitado no mundo do jazz, fora dele, ainda é bastante desconhecido. Misty - A História de Erroll vem para mitigar essa insipiência de informação de um músico absolutamente fantástico e fora do comum. 

A direção do cineasta franco-suíço Georges Gachot (reconhecido pelos documentários sobre música, inclusive a brasileira, ver Onde Está Você, João Gilberto, Samba e outros) vem colaborar para que nos aproximemos desse talento nato, que segundo o próprio artista, não precisou de professor para aprender a tocar piano na mais tenra idade. Um ouvido para lá de apurado, nascido inteiramente para a música. E o filme conta com uma bela pesquisa de imagem e da própria vida de Erroll Garner, para trazer não só a personalidade introvertida do músico, mas também o seu talento, com o resgate de muitas apresentações em várias épocas desde os anos 1940 até os 1970, década de sua morte. O diretor resgata o primeiro vídeo em que Erroll aparece, datado de 1947, tocando a música Pastel.

Um dos pontos de apoio do documentário de Georges Gachot é a pesquisa do maior biógrafo de Erroll Garner, Jim Doran, que é um dos entrevistados. O diretor também conta com a ajuda da viúva e filha (não foi assumida oficialmente pelo músico) e especialmente os músicos, com destaque para os que tocaram com ele. 

Creio que os músicos sejam uma parte interessante do filme, por mais que eles falem sobre a personalidade e a vida pessoal do artista, eles focam mais no processo de trabalho de Erroll Garner e nos brindam com detalhes sensacionais, como a informação de que o músico não ensaiava nada nem se sabia qual música seria tocada ou o tom a ser adotado, o que deixava em seus colegas de banda numa dupla reação contraditória: a primeira, de pânico, sem saber se isso daria certo; e a segunda, uma sensação de excitação por poderem viver verdadeiramente a magia da música.

Os depoimentos de Jimmie Smith (baterista) e Ernest McCarty (contrabaixista) são os mais elucidativos e enigmáticos, por revelarem aspectos surpreendentes de Erroll Garner, como jamais falar durante uma apresentação por achar que o público apenas queria vê-lo tocando. Outra revelação chocante é que os solos dos shows eram sempre dele e não era permitido solo dos outros integrantes da banda. Ernest afirma que o prazer de tocar com ele era maior do que qualquer solo. Esse respeito e a convicção de que o melhor de tudo era tocar com um gênio como Erroll Garner, consequência de uma admiração profunda, rara e de grande humildade. 

Misty - A História de Erroll Garner confere um destaque a Kim, a filha escondida, que narra como foi marcante a presença do pai para a sua vida. Gachot promove ainda o encontro de Kim com Rosalyn (a última mulher de Erroll), que jamais se conheceram, uma cena emocionante. O documentário acaba por colaborar na feitura de mais um painel sobre os negros do jazz dos Estados Unidos, desde a origem humilde até o sucesso e a dificuldade de conciliar vida pessoal e profissional com os diversos shows, mas creio que o desvio excessivo para a vida pessoal de qualquer artista (salvo talvez raríssimas exceções) não deveria ser uma vertente muito explorada e o próprio Garner respondeu isso em vida ao afirmar que o público queria era ouvir a música. 

Lá pelo fim do documentário há um daqueles depoimento de Erroll Garner que deixam a gente pensativo, tamanho impacto que causa. Lembro de Smith encontrar Kim e a conversa deles encaminhar para uma reflexão bem relevante. Ele diz a ela, que muitos consideram que o valor e o encanto do jazz estão no tocar rápido, o chamado virtuosismo. Não, diz Smith, o principal não é tocar acelerado as notas, mas sim sentir cada som que sai das teclas do piano. E isso fica claro quando ouvimos durante o documentário, Garner tocando várias versões de Misty (segundo  ele, você nunca toca a mesma música), a bela canção que foi o seu maior sucesso. Garner é aquele típico artista que podemos dizer que já nasceu músico, e por conseguinte, lenda.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

PECADORES (2025) Dir. Ryan Coogler

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho O cinema negro dos Estados Unidos vem se fortalecendo mercadologicamente como nunca. Diretores como Jordan Peele ( Corra! , Nós  e Não! Não Olhe! ), Barry Jenkins ( Moonlight e Se a Rua Beale Falasse ), Ava DuVernay ( 13ª Emenda  e Selma ) e Shaka King ( Judas e o Messias Negro ), Raoul Peck ( Eu não Sou Seu Negro ). Se falarmos mais retroativamente, encontraremos Spike Lee (com os clássicos  Faça a Coisa Certa , Malcoln X , e os atuais  Infiltrado na Klan e Destacamento Blood ), Melvin Van Peebles ( Sweet Sweetback's Baadasssss Song e Posse: A Vingança de Jesse Lee ) e a força do movimento Blaxploitation dos anos 1970, e o ineditismo de Oscar Micheaux nos anos 1920 e 1930.  O fato atual é que o cinema negro não é mais reservado a um nicho. Os diretores mais recentes mostram uma penetração cada vez mais efetiva no mercado. Pecadores , mais recente filme de Ryan Coogler ( Creed e Pantera Negra ) vem comprovar isso. ...

MOSTRA CINEBH 2023

CineBH vem aí mostrando novos diretores da América Latina Texto de Marco Fialho É a primeira vez que o CineFialho irá cobrir no modo presencial a Mostra CineBH, evento organizado pela Universo Produção. Também, por coincidência é a primeira vez que a mostra terá inserido um formato competitivo. Nessa matéria falaremos um pouco da programação da mostra, de como a curadoria coordenada pelo experiente Cleber Eduardo, montou a grade final extensa com 93 filmes a serem exibidos em 8 espaços de Belo Horizonte, em apenas 6 dias (26 de setembro a 1º de outubro). O que atraiu o CineFialho a encarar essa cobertura foi o ineditismo da grande maioria dos filmes e a oportunidade mais do rara, única mesmo, de conhecer uma produção independente realizada em países da América Latina como Chile, Colômbia, México, Peru, Paraguai, Cuba e Argentina, sem esquecer lógico do Brasil.  Lemos com atenção toda a programação ofertada e vamos para BH cientes da responsabilidade de que vamos assistir a obras di...