Texto por Marco Fialho
A feira livre faz parte do patrimônio imaterial da cultura carioca e presente no imaginário dessa cidade que aprecia sempre os modos de vida simples e descontraído de levar a vida. No mundo de hoje, regido pelo comércio virtual e pela impessoalidade, nada mais vivo, dinâmico e humano do que a ideia de se comprar mercadorias, em sua maioria frescas, no olho a olho com o feirante, esse ser que precisa usar muitas vezes do seu carisma para sobreviver.
O documentário Todo Dia É Dia de Feira, dirigido por Silvia Fraiha, parte dessas premissas para mostrar como funciona esse tipo de comércio tão carioca e que resiste aos hortifrutis, aos grandes supermercados e feiras virtuais. Mas nem tudo é moleza. Fraiha não esquece das noites mal dormidas e pelas madrugadas passadas nos galpões do CEASA e da CADEG para que logo nos primeiros raios da manhã, o público tenha disponível o que tem de mais fresco no comércio de frutas, verduras, legumes e peixaria. Sim, a dureza da vida dos feirantes está registrada no documentário.
Silvia Fraiha escolhe alguns personagens desse universo da feira livre para narrar seu documentário, mas também arrisca participar do filme numa narração em voz over, que francamente, seria até dispensável, já que a paixão que ela descreve sempre em sua fala, está presente em cada imagem captada pelas suas lentes. E convenhamos, a paixão dela é a de muitos de nós, porque esse é um ambiente contagiante, marcado por uma intimidade que outrora ainda era encontrada em armazéns e quitandas, hoje praticamente extintos de nossa vida cultural.
Confesso que as primeiras imagens de Todo Dia É Dia de Feira me chocaram lá no fundo da alma. Isto porque Silvia Fraiha inicia o filme com um tipo de filtro na imagem que parecia envolver a feira e seus produtos com uma aura de magia, e fiquei feliz quando pude atestar que apenas essas imagens estavam fotografadas dessa maneira, e que as subsequentes o brilho próprio das ruas e das pessoas estavam ali restaurados. Gostei de ver como a fotografia respeitou a imagem vinda do mundo, sem poluí-las com artifícios que só acrescentariam falsidade ao tema retratado.
As vozes que chegam da feira são as de quem trabalha para erguer esse tipo de comércio que traz um forte aroma popular em suas imagens. Assim surge Luiz, Arnaldo, Fernando e Cristina, vozes impagáveis, de grande força de vida e amor pelo que fazem, particularmente, Cristina e Luiz foram as que mais me encantaram. Todo Dia É Dia de Feira nos possibilita adentrar um pouco nessas vidas onde a riqueza passa longe e a coragem de trabalhar com afinco é um exemplo de resistência e amor. Esse é um documentário que encanta pela simplicidade formal e pela força dos personagens que elenca e mostrar os bastidores desses personagens que sabem vencer a dureza de seus cotidianos.
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