Pular para o conteúdo principal

CÂNCER COM ASCENDENTE EM VIRGEM (2025) Dir. Rosane Svartman


Texto por Marco Fialho 

Confesso que fui entusiasmado assistir a Câncer Com Ascendente com Virgem, de Rosane Svartman, depois de ouvir muitos depoimentos favoráveis e críticas efusivas, mas realmente fiquei pasmo com o que assisti. E não estou aqui para discutir o imenso carisma do filme e a temática super envolvente e até providencial de se falar de um assunto melindroso. Requer muita empatia e comprometimento com o tema, e isso o filme tem de sobra. 

Porém, para além dessa relevância temática, tem um filme para se analisar, e nesse prisma, creio até ser difícil de comentar. Para mim, não há ali exatamente um filme, e sim uma peça publicitária institucional sobre um processo de tratamento médico altamente invasivo e penoso. O roteiro segue exatamente essa lógica de diálogo com o público, de como expor um tema delicado com o máximo de leveza, para não ferir a suscetibilidade das pessoas, inclusive as que já foram afetadas por essa terrível doença ou de familiares que já passaram pelo mesmo problema de saúde. 

A organização das cenas funcionam como nos esquetes televisivos, rápidos e sempre apelativos emocionalmente. E como incomoda essa necessidade de ter que tornar o mais leve possível um processo altamente violento que é o tratamento do câncer. É bem a cara do mundo midiático atual e falso que estamos vivendo. O filme inclusive entra em contradição com a própria personagem, que numa live se diz cansada de parecer bem, em especial nas cenas finais em que tudo flui as mil maravilhas. Que mundo é esse que até o inferno precisa parecer um paraíso?

E qual o maior sintoma do que estou a dissertar aqui? Para mim, o tratamento que o roteiro e direção dão aos personagens. A protagonista Clara (Suzana Pires) só tem em torno de si pessoas maravilhosas: a mãe Leda (Marieta Severo), a filha Alice (Nathália Costa), a melhor amiga (Carla Cristina ), o ex-marido (Ângelo Paes Leme) e sua atual namorada (Julia Konrad) e a amiga de tratamento (Fabiana Karla). Nesse turbilhão de relacionamentos a contento, a única inimiga é a própria doença. Assim, o roteiro escrito a 8 mãos, por Martha Mendonça, Reinato Pedro, Suzana Pires e Rosane Svartman se sustenta, tendo apenas o câncer como o único obstáculo a ser vencido. Todos os outros problemas se anulam automaticamente e desaparecem em um passe de magica. Se antes tínhamos os roteiros divididos entre os bons e os maus, agora temos luta dos bons contra um mau, personificado por uma doença malígna. O filme busca enquadrar o que seria um dramalhão em uma roupagem narrativa mais leve, como a das populares comédias que tanto produzimos neste século no cinema brasileiro e juntar a isso uma  nova campanha publicitária de como se enfrentar uma doença conhecida tanto pela sua agressividade quanto letalidade. 

Assim o espírito e a estrutura narrativa típicos das séries de humor brasileiras servem de modelo para a construção das cenas, sem deixar de lado as cenas que são verdadeiros videoclipes (cada vez mais presentes nos filmes brasileiros com pretensão a abocanhar bilheterias mais expressivas), que formam o núcleo que alimentam a tal leveza pretendida pelo projeto. Na maioria das vezes, a ideia é fazer do humor um lugar de alívio narrativo não funciona, porque esses momentos ficam forçados dentro da estrutura narrativa. Marieta Severo e Fabiana Karla ficam prioritariamente com essa incumbência, mas nota-se um certo constrangimento delas nas cenas que deveriam ser engraçadas. A inspiração para o filme partiu de um blog da produtora de cinema Clélia Bessa chamado "Eu Estou Com Câncer, e daí?" para encarar e dividir com os interessados o seu processo de tratamento.

Extraindo-se a discussão temática em si, da capacidade de acalentar pessoas, familiares e amigos que passam pela terrível doença, Câncer Com Ascendente em Virgem não traz um estímulo cinematográfico sequer, a não ser apelos publicitários para convencer o espectador que é possível lutar com dignidade contra uma doença avassaladora como o câncer. Venho acompanhando com perplexidade no atual cenário cinematográfico, a importância do tema se tornando o maior pré-requisito para se analisar as obras aqui no Brasil. Como cinéfilo acima e antes de tudo, não consigo engolir tanta comiseração que anda dando o tom da relação entre o público e os filmes. Nessas horas, a minha verve crítica reage e fala bem mais alto. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

PECADORES (2025) Dir. Ryan Coogler

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho O cinema negro dos Estados Unidos vem se fortalecendo mercadologicamente como nunca. Diretores como Jordan Peele ( Corra! , Nós  e Não! Não Olhe! ), Barry Jenkins ( Moonlight e Se a Rua Beale Falasse ), Ava DuVernay ( 13ª Emenda  e Selma ) e Shaka King ( Judas e o Messias Negro ), Raoul Peck ( Eu não Sou Seu Negro ). Se falarmos mais retroativamente, encontraremos Spike Lee (com os clássicos  Faça a Coisa Certa , Malcoln X , e os atuais  Infiltrado na Klan e Destacamento Blood ), Melvin Van Peebles ( Sweet Sweetback's Baadasssss Song e Posse: A Vingança de Jesse Lee ) e a força do movimento Blaxploitation dos anos 1970, e o ineditismo de Oscar Micheaux nos anos 1920 e 1930.  O fato atual é que o cinema negro não é mais reservado a um nicho. Os diretores mais recentes mostram uma penetração cada vez mais efetiva no mercado. Pecadores , mais recente filme de Ryan Coogler ( Creed e Pantera Negra ) vem comprovar isso. ...

MOSTRA CINEBH 2023

CineBH vem aí mostrando novos diretores da América Latina Texto de Marco Fialho É a primeira vez que o CineFialho irá cobrir no modo presencial a Mostra CineBH, evento organizado pela Universo Produção. Também, por coincidência é a primeira vez que a mostra terá inserido um formato competitivo. Nessa matéria falaremos um pouco da programação da mostra, de como a curadoria coordenada pelo experiente Cleber Eduardo, montou a grade final extensa com 93 filmes a serem exibidos em 8 espaços de Belo Horizonte, em apenas 6 dias (26 de setembro a 1º de outubro). O que atraiu o CineFialho a encarar essa cobertura foi o ineditismo da grande maioria dos filmes e a oportunidade mais do rara, única mesmo, de conhecer uma produção independente realizada em países da América Latina como Chile, Colômbia, México, Peru, Paraguai, Cuba e Argentina, sem esquecer lógico do Brasil.  Lemos com atenção toda a programação ofertada e vamos para BH cientes da responsabilidade de que vamos assistir a obras di...