Texto por Marco Fialho
Confesso que fui entusiasmado assistir a Câncer Com Ascendente com Virgem, de Rosane Svartman, depois de ouvir muitos depoimentos favoráveis e críticas efusivas, mas realmente fiquei pasmo com o que assisti. E não estou aqui para discutir o imenso carisma do filme e a temática super envolvente e até providencial de se falar de um assunto melindroso. Requer muita empatia e comprometimento com o tema, e isso o filme tem de sobra.
Porém, para além dessa relevância temática, tem um filme para se analisar, e nesse prisma, creio até ser difícil de comentar. Para mim, não há ali exatamente um filme, e sim uma peça publicitária institucional sobre um processo de tratamento médico altamente invasivo e penoso. O roteiro segue exatamente essa lógica de diálogo com o público, de como expor um tema delicado com o máximo de leveza, para não ferir a suscetibilidade das pessoas, inclusive as que já foram afetadas por essa terrível doença ou de familiares que já passaram pelo mesmo problema de saúde.
A organização das cenas funcionam como nos esquetes televisivos, rápidos e sempre apelativos emocionalmente. E como incomoda essa necessidade de ter que tornar o mais leve possível um processo altamente violento que é o tratamento do câncer. É bem a cara do mundo midiático atual e falso que estamos vivendo. O filme inclusive entra em contradição com a própria personagem, que numa live se diz cansada de parecer bem, em especial nas cenas finais em que tudo flui as mil maravilhas. Que mundo é esse que até o inferno precisa parecer um paraíso?
E qual o maior sintoma do que estou a dissertar aqui? Para mim, o tratamento que o roteiro e direção dão aos personagens. A protagonista Clara (Suzana Pires) só tem em torno de si pessoas maravilhosas: a mãe Leda (Marieta Severo), a filha Alice (Nathália Costa), a melhor amiga (Carla Cristina ), o ex-marido (Ângelo Paes Leme) e sua atual namorada (Julia Konrad) e a amiga de tratamento (Fabiana Karla). Nesse turbilhão de relacionamentos a contento, a única inimiga é a própria doença. Assim, o roteiro escrito a 8 mãos, por Martha Mendonça, Reinato Pedro, Suzana Pires e Rosane Svartman se sustenta, tendo apenas o câncer como o único obstáculo a ser vencido. Todos os outros problemas se anulam automaticamente e desaparecem em um passe de magica. Se antes tínhamos os roteiros divididos entre os bons e os maus, agora temos luta dos bons contra um mau, personificado por uma doença malígna. O filme busca enquadrar o que seria um dramalhão em uma roupagem narrativa mais leve, como a das populares comédias que tanto produzimos neste século no cinema brasileiro e juntar a isso uma nova campanha publicitária de como se enfrentar uma doença conhecida tanto pela sua agressividade quanto letalidade.
Assim o espírito e a estrutura narrativa típicos das séries de humor brasileiras servem de modelo para a construção das cenas, sem deixar de lado as cenas que são verdadeiros videoclipes (cada vez mais presentes nos filmes brasileiros com pretensão a abocanhar bilheterias mais expressivas), que formam o núcleo que alimentam a tal leveza pretendida pelo projeto. Na maioria das vezes, a ideia é fazer do humor um lugar de alívio narrativo não funciona, porque esses momentos ficam forçados dentro da estrutura narrativa. Marieta Severo e Fabiana Karla ficam prioritariamente com essa incumbência, mas nota-se um certo constrangimento delas nas cenas que deveriam ser engraçadas. A inspiração para o filme partiu de um blog da produtora de cinema Clélia Bessa chamado "Eu Estou Com Câncer, e daí?" para encarar e dividir com os interessados o seu processo de tratamento.
Extraindo-se a discussão temática em si, da capacidade de acalentar pessoas, familiares e amigos que passam pela terrível doença, Câncer Com Ascendente em Virgem não traz um estímulo cinematográfico sequer, a não ser apelos publicitários para convencer o espectador que é possível lutar com dignidade contra uma doença avassaladora como o câncer. Venho acompanhando com perplexidade no atual cenário cinematográfico, a importância do tema se tornando o maior pré-requisito para se analisar as obras aqui no Brasil. Como cinéfilo acima e antes de tudo, não consigo engolir tanta comiseração que anda dando o tom da relação entre o público e os filmes. Nessas horas, a minha verve crítica reage e fala bem mais alto.
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