Pular para o conteúdo principal

BETTER MAN - A HISTÓRIA DE ROBBIE WILLIAMS (2024) Dir. Michael Gracey


Texto por Marco Fialho

Que fique claro desde agora nas primeiras linhas: para mim o filme Better Man - A História de Robin Williams, biografia musical inspirada na vida artística do cantor pop inglês, e dirigida por Michael Gracey, ficou difícil de digerir. Em especial por conta tanto de um lastro egocêntrico quanto de uma considerável tendência megalomaníaca que parte do personagem e que se estende e expande para o filme. O problema maior é que essas características intrínsecas à obra não me deixaram interagir plenamente com o que via, pois sempre me afastavam dela e me impedia de ter uma fruição mais prazerosa. A cada nova cena, uma nova rejeição e assim foi até a última cena.

Fora essas questões acima, a própria narrativa escolhida me causou igualmente repulsa. Do início ao fim, o que predomina é uma linguagem de videoclipe, isto é, são pouco mais de 2 horas de algo alucinante, mas o maior problema é que dessa fruta extraímos muito pouco suco. O que é a vida desse artista que só queria ser famoso e usou da arte para isso, como um artifício de sua vaidade egóica e sem muito ter o que dizer. 

Assim, acompanhamos suas relações familiares, o seu pai um artista que gostava de cantar clássicos de uma determinada época, tendo como maior referência o cantor Frank Sinatra. Robin Williams também contou com o incentivo quase solitário da avó, a única que acreditou que poderia chegar em algum lugar. Na vida de juventude, Robin entra em uma boy band e consegue um sucesso, que precisa dividir com mais 4 rapazes, porém o seu ego não suporta ser coadjuvante por muito tempo.

Mas quem era Robin Williams, o que ele ofereceu para a música? Pelo que o filme mostra, pouca coisa. Jovem entregue as drogas e bebidas (como tantos outros de várias gerações), e além disso uma determinação em ter fama, sempre demonstrando arrogância e um imenso vazio espiritual. Evidente que com essa personalidade autocentrada, Robin Williams não teve realmente uma mulher que quisesse partilhar a vida com ele. E convenhamos, como é insuportável ter que compartilhar qualquer coisa com essa chuva de ego que é Robin Williams. É importante mencionar que Robin Williams está mencionado nos créditos como produtor executivo, isto é, tudo passou por ele, da realização à finalização.

Durante vários meses se ventilou uma divulgação pesada de Better Man - A História de Robin Williams, nos cinemas, canais a cabo, internet, enfim, provavelmente para superar a falta de conteúdo e talento musical do personagem (um cantor chatérrimo e insuportável, um desses que só uma indústria milionária pode criar) e enfiaram goela abaixo do público uma ideia de um cantor com uma máscara de macaco. De criança até a vida adulta, vemos Robin Williams como um macaco. Isso poderia ser até um artifício interessante e provocativo, mas acaba não sendo. O que transparece é que a personalidade egóica é tão forte que ele queria ser visto como um ser humano diferente de todos. Sim, porque ninguém é mais único do que Robin Williams, tão especial e diferente, só que não. Ele disse certa vez que a figura de um animal cria maior laço com as pessoas, o que nos induz a pensar que se trata de um mero jogo de marketing. O que vemos o tempo todo no decorrer do filme é uma personalidade vazia, sem graça e talento artístico, apenas um produto bem embalado para ser vendido na indústria de massa. 

Better Man - A História de Robin Williams termina em um show acústico do artista onde homenageia a família, onde se vende a sua imagem como um vencedor apesar dos percalços, um milionário, já que o que importa é o quanto você ganhou na carreira, a sua megalomania. O mais assustador nesse momento, em que a família está presente, é o que o cantor vê, no caso, várias versões de si mesmo na arquibancada. Mais uma vez o que vemos é uma mera aparição egocêntrica e fútil. O filme funciona até como um videoclipe bem realizado e produzido, em especial porque grana não é o problema para essa indústria que só quer vender uma imagem de sucesso. A própria canção My Way, um dos grandes sucessos de Frank Sinatra, aparece no início do filme e no fechamento, para criar uma relação forçada e artificial com o pai, e lógico, com o público, pois essa é uma canção de forte identificação, impossível de não se envolver com ela. Mais uma malandragem apelativa daquelas da direção.   

Esse é um filme daqueles sem respiro, onde somos atropelados pelas fases do artista sem o menor constrangimento, somos entupidos por videoclipes maçantes e chatos, em que apenas funcionam como espetáculos ocos de um ser humano sem maiores atrativos. Mas a mensagem existe e ela é perfeita para quem gosta e vê no cinema algo que deva ser edificante, que alimenta a possibilidade de qualquer um chegar longe na nossa sociedade, de se enriquecer quando se tem persistência e se batalha para isso. Por isso, Better Man - A História de Robin Williams vai na contramão de tudo o que eu acredito na vida e no cinema. Não questiona nada, apenas justifica o sucesso e a fama de um artista que não tem muito a oferecer às artes e à vida. Uma massaroca daquelas que ficam emboladas na boca e a gente não consegue fazê-las descer de jeito nenhum. Haja antiácido no mundo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

PECADORES (2025) Dir. Ryan Coogler

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho O cinema negro dos Estados Unidos vem se fortalecendo mercadologicamente como nunca. Diretores como Jordan Peele ( Corra! , Nós  e Não! Não Olhe! ), Barry Jenkins ( Moonlight e Se a Rua Beale Falasse ), Ava DuVernay ( 13ª Emenda  e Selma ) e Shaka King ( Judas e o Messias Negro ), Raoul Peck ( Eu não Sou Seu Negro ). Se falarmos mais retroativamente, encontraremos Spike Lee (com os clássicos  Faça a Coisa Certa , Malcoln X , e os atuais  Infiltrado na Klan e Destacamento Blood ), Melvin Van Peebles ( Sweet Sweetback's Baadasssss Song e Posse: A Vingança de Jesse Lee ) e a força do movimento Blaxploitation dos anos 1970, e o ineditismo de Oscar Micheaux nos anos 1920 e 1930.  O fato atual é que o cinema negro não é mais reservado a um nicho. Os diretores mais recentes mostram uma penetração cada vez mais efetiva no mercado. Pecadores , mais recente filme de Ryan Coogler ( Creed e Pantera Negra ) vem comprovar isso. ...

MOSTRA CINEBH 2023

CineBH vem aí mostrando novos diretores da América Latina Texto de Marco Fialho É a primeira vez que o CineFialho irá cobrir no modo presencial a Mostra CineBH, evento organizado pela Universo Produção. Também, por coincidência é a primeira vez que a mostra terá inserido um formato competitivo. Nessa matéria falaremos um pouco da programação da mostra, de como a curadoria coordenada pelo experiente Cleber Eduardo, montou a grade final extensa com 93 filmes a serem exibidos em 8 espaços de Belo Horizonte, em apenas 6 dias (26 de setembro a 1º de outubro). O que atraiu o CineFialho a encarar essa cobertura foi o ineditismo da grande maioria dos filmes e a oportunidade mais do rara, única mesmo, de conhecer uma produção independente realizada em países da América Latina como Chile, Colômbia, México, Peru, Paraguai, Cuba e Argentina, sem esquecer lógico do Brasil.  Lemos com atenção toda a programação ofertada e vamos para BH cientes da responsabilidade de que vamos assistir a obras di...