Texto por Marco Fialho
Não é praxe analisarmos série aqui no Cine Fialho, mas Adolescência, dirigida por Philip Barantini, é um dos grandes assuntos do momento, fora que sua duração não passa de 4 horas de duração, o que nos motivou a vê-la e escrever algumas reflexões sobre ela.
A série é composta por 4 episódios filmados em 4 planos-sequências independentes, de mais ou menos 1 horas de duração cada. Muitos estão a comentar acerca da qualidade da filmagem, isto é, da ótima execução dos planos-sequências; da incrível direção de atores, fruto de ensaios muito bem executados que fazem os atores e atrizes serem impecáveis em suas interpretações; e lógico, da importância do tema da violência a partir de grupos e discussões vindos da internet e que confluem no cotidiano contemporâneo.
Adolescência narra, a seu modo, a história do assassinato de Kate Leonard (Emilia Holliday), uma adolescente, pelo adolescente Jamie Miller (Owen Cooper). O que mostra os 4 capítulos da série e o que essa organização fílmica diz sobre o caso em si, o que ela diz sobre o caso em si ou sobre a sociedade? Essas são as premissas que buscarei aqui analisar, o que se optou mostrar e não mostrar em Adolescência.
Me parece que a série divide em 4 episódios (que poderiam ser pontos de vista) a exploração do tema da violência: na primeira parte como a polícia como instituição encara um crime dessa natureza, o que acaba por mostrar alguns aspectos de como funciona um aparelho policial no interior da Inglaterra; na segunda parte vemos alguns aspectos de como é o cotidiano de uma escola onde os adolescentes envolvidos estudavam, inclusive o registro da prática do bullying como integrante daquele universo; na terceira parte há uma tentativa de se adentrar na cabeça de Jamie, revelada a partir de uma conversa dele com uma jovem psicóloga; na quarta e última parte, o filme foca na família de Jamie e mais especificamente em Eddie Miller (Stephen Graham), o pai, que possui uma firma que conserta privadas.
O primeiro episódio tem como ponto de vista inicial, o da polícia, por meio do Detetive Policial Luke Bascombe (Ashley Walters) e da Detetive Misha Frank (Faye Marsay). Essa parte tem uma importância por mostrar a intervenção do Estado após a situação do crime, depois que o pior acontece. Seria o poder público tentando dar conta por algo que não fez antes ou não foi capaz de prevenir provavelmente pela ausência de uma política pública eficaz na educação. E isso fica evidente no segundo episódio, em que vemos o ambiente hostil dentro de uma escola, mesmo depois de ter havido um assassinato. Se os dois primeiros episódios são essencialmente sociais, o mesmo não podemos dizer dos dois últimos, já que no terceiro temos a oportunidade de conhecer Jamie sob um outro olhar, e logo depois, no quarto episódio vemos a família mais por dentro, o que estabelece uma parte final mais amarrada à privacidade de Jamie e sua família.
E quanto ao uso dos planos-sequências? Eles são necessários? Funcionam como estratégia narrativa? O plano-sequência no cinema sempre atrai uma atenção incrível para a sua execução, por isso sua utilização contém riscos da forma prevalecer ou até impor-se perante ao conteúdo. Por isso, para mim, o melhor plano-sequência de Adolescência é o terceiro episódio, em que na maioria do tempo, temos o mesmo cenário, a sala onde a psicóloga conversa com Jamie. Esse plano confere uma teatralidade necessária, na medida em que todas as respirações e atitudes estão concentradas em um único ambiente e a verdade do personagem, suas contradições, indecisões e manipulações podem ser claramente expostas. Contudo, em outros episódios o plano-sequência soa forçado, pois os tempos mortos são muitos, assim como o andar pelos corredores e ruas, que pediam os cortes e as elipses como solução dramática mais palpável e compatível.
Vi e ouvi muitos questionamentos em relação ao filme não trazer o aspecto mais investigativo, mas sabemos que cinema é realizado por escolhas de partes não por totalidade, pois jamais abarcaremos tudo, nem todos os pontos de vista envolvidos, mas poderemos sim questionar a ausência de alguns, como o da menina, a assassinada. O silêncio sobre ela não seria mais uma forma de homicídio? O filme não estaria apenas tentando entender o lado masculino? E as organizações que se aproveitam do momento em que pais estão trabalhando para influenciar e incitar o ódio de jovens contra as mulheres. A discussão sobre o incel está posta, embora o filme trate o assunto, que é o central, como periférico em sua narrativa. Jamie tem um ódio pelas mulheres e isso se evidencia na sua conversa com a jovem psicóloga e na escolha do pai, e não da mãe, para ser seu responsável legal.
Mas incel, crianças e adolescentes presos em seus quartos na internet não encobririam fatos maiores e mais abrangentes? Realidades mais dolorosas e que estão além do espaço físico da casa? Há muito é necessário discutir o isolamento das crianças e adolescentes porque seus pais precisam prover a casa e a consequência imediata disso é ver os menores de idade abandonados à própria sorte em casa, numa suposta segurança momentânea, mas que o arremessam ao embate e à vulnerabilidade do mundo digital. A degradação da mão-de-obra dos trabalhadores está na origem disso tudo e leva os pais para uma posição de culpa, ainda mais que estamos defronte a uma tradição cultural cristã.
Por isso, lá no início do meu texto mencionei que devemos analisar um filme pelo que mostra, e o mais fundamental, pelo que não mostra. Adolescência aos poucos vai retirando o peso do assassinato das costas do Estado e o depositando na família. O último episódio é preciso nessa direção. Ali vemos a culpa se espraiar da primeira à última cena, onde o pai entra no quarto do filho, e na sua cama, chora e abraça um urso de pelúcia de estimação do menino. A fronteira entre o ser criança e ser adulto está presente em cada momento da vida de qualquer adolescente e aqui não é diferente. O terreno da afetividade é vital e os pais remancheiam essa discussão sempre sublinhando o tempo qualitativo como estratégia de superação de suas sistemáticas ausências. Mas a verdade cruel de hoje é que os jovens da geração da internet são uns estranhos diante dos pais. Existe um mundo em casa, no colégio, nas ruas e outro nas redes. Por isso, hoje existe uma discussão acerca da regulamentação da internet. O Facebook e o Instagram não são redes amigáveis, seus donos vêm suas redes como negócio, como mero atrativo para venda comercial, basta abrirmos nossas páginas para ver que pelo menos 70% das publicações são pagas e servem à empresas privadas. A ideia de rede já morreu ali há muito tempo e precisamos também falar sobre isso.
Adolescência fala de uma certa vitória do capital, de um mundo onde apenas o negócio tem relevância e os seres humanos são necessários apenas como consumidores. Por isso, a série não consegue ser profunda ao falar desse assunto, já que prefere desviar o olhar dos fatos mais cruciais e determinantes. A conclusão que a série chega é de que a família foi omissa (sim, aquela que apenas tenta prover economicamente seus membros) e não deu a atenção necessária a Jamie, em uma solução melodramática bem rasteira. O mais relevante seria dizer porque não existe mais esse tempo dos pais com os filhos. O diretor Philip Barantini pode até nos prender em seus jogos contínuos encantadores e na direção de atores impecável, mas ao organiza-los na montagem ficou evidente que as soluções dramatúrgicas de sua mise-en-scène abafam algo maior, as mazelas sociais que resultam nesse modelo de escola agressiva, na ausência familiar e no papel competente da polícia em prender. Sim, vivemos em um Estado onde o mais eficaz são os aparelhos de segurança, mas se esconde o fato que eles só chegam depois que o leite quente derramou da panela. Adolescência me parece conivente com esse aparato conservador que inverte a ordem dos fatos para que a velha culpa cristã continue recaindo sobre todos nós.
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