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OS SAPOS (2023) Dir. Clara Linhart


Texto por Marco Fialho

 Logo nas primeiras cenas de Os Sapos, novo filme de Clara Linhart, a primeira referência que me veio à cabeça foi os filmes rurais de Éric Rohmer. Mas a cada nova cena essa impressão só foi se confirmando, com os imbróglios de relacionamento que vão se estabelecendo entre os personagens. Se Rohmer é forte nesse trabalho, nota-se evidentemente as pitadas brasileiras que a diretora vai aqui e ali impingindo à sua obra.

Toda a trama é urdida em torno da personagem Paula, com Thalita Carauta magnífica em sua interpretação de uma mulher que chega a um lugar bucólico não nomeado a convite de Marcelo (Pierre Santos), um ex-colega de escola que não via há muitos anos. Os percalços estão estabelecidos desde o princípio, porque era uma festa com ex-colegas que Marcelo cancelou os convites, porém esqueceu de comunicar a Paula, que chega desenganada no local, provocando uma reviravolta no cotidiano de dois casais vizinhos um do outro. 

Clara Linhart traça um história onde o espaço funciona como algo traiçoeiro, já que no início tudo é tão bucólico e tranquilo para depois se transformar e revelando relações tóxicas e machistas. É justamente a personagem de Paula que traz o desiquilíbrio do ambiente a passar a ser um alvo de Marcelo, seu ex-colega de turma e de Cláudio (Paulo Hamilton), um músico que mora na casa ao lado. Nada mais Éric Rohmer do que a trama rocambolesca que se formará, com assédios em torno de Paula, o elemento diferente que vem bagunçar os terrenos já desgastados das relações amorosas entre Marcelo e Luciana (Karina Ramil), ela quer um namoro firme, já Marcelo uma relação aberta. Mas Claudio também tem um relacionamento para lá de conturbado com Fabiana (Verônica Reis), que contém uma grande carga de opressão e de abuso.

Há uma tensão sexual em torno de Paula, que saindo de um relacionamento é assediada pelos dois amigos, como se a natureza do lugar atiçasse a libido deles. O desejo, sem dúvida, é um personagem central nessa imbricada história onde os reencontros e encontros vão se tornando explosivos. A intensidade aumenta e os homens mostram suas facetas machistas, com uma visão objetivar os corpos femininos. Paula reage com grande impacto e firmeza, por isso é a personagem central de uma disputa entre dois homens que revelam-se opressores, cada qual em seu contexto.

Os Sapos trabalha bem com a relação entre homens e natureza, com uma fotografia soberba de Andrea Capella que contrasta o verde da natureza com um colorido chamativo dos figurinos, os destacando como elementos que estão separados da natureza, apesar de estar tão perto dela. Os sapos do título simboliza uma situação onde os personagens voltam à estaca zero no final do filme. Esse é o meu senão ao filme. Depois da lufada revigorante que Paula representa na trama de Os Sapos, ver tudo voltar como era quando ela vai embora não deixa de ser decepcionante. Mesmo que esse final possa ter algum respaldo na vida, creio que o cinema deva pleitear uma outra condição, a de que o ser humano possui uma imensa capacidade de se libertar dos grilhões, aqui no caso, a mulher do homem opressor.           

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