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MEU VERÃO COM GLÓRIA (2024) Dir. Marie Amachoukeli


Texto por Marco Fialho

Muito das qualidades de Meu Verão Com Glória, dirigido por Marie Amachoukeli, recai sobre a personagem Cleo e o talento precoce da atriz mirim Louise Mauroy-Panzani, com uma interpretação de tirar o fôlego. Ela atua da primeira à última cena como um ímã a nos atrair para a tela. Essa é uma luz que só os grandes atores e atrizes possuem, um tipo especial de magnetismo que perigosamente subjuga a câmera.   

O enredo de Meu Verão Com Glória é simples. Cleo, órfã de mãe, é cuidada pela babá caboverdiana Glória (numa igualmente hipnótica interpretação de Ilça Moreno Zego). Essa dupla vive uma relação de grande intensidade, já que o pai da menina trabalha e não tem tempo para cuidar dela. A direção de Marie Amachoukeli vem carregada por uma rara e fina sensibilidade. O filme basicamente se divide em duas partes: uma primeira em que Glória cuida de Cleo em Paris, e uma segunda, em que Glória volta em definitivo para Cabo Verde para cuidar da sua família, após a morte da mãe. Cleo então convence o pai a passar as férias em Cabo Verde em companhia de Glória. 

O interessante de Meu Verão Com Glória é assistir como a diretora constrói a dualidade entre a vida na França e na ilha de Cabo Verde. Se na primeira experiência Glória dedica todo o seu tempo a Cleo, na segunda, quando o filme passa a enfocar a vida em Cabo Verde, tudo se transforma, já que Glória precisa cuidar de seus dois filhos e de um neto que está a caminho. O bacana dessa história é como a narrativa é toda pensada pelo viés de Cleo. Os conflitos logo aparecem, afinal, Cleo não estava acostumada a dividir a atenção de Glória com ninguém. 

A direção de Marie Amachoukeli prima pela delicadeza ao delinear com sutileza a relação interracial na França contemporânea. A diretora não esquece as nuances, os afetos que permeiam as relações de poder, numa visão sociológica que muito lembra os estudos de Gilberto Freire, em que a fluidez e a pessoalidade escamoteiam as relações de poder entre pretos e brancos diacronicamente. Apesar das fortes evidências, há uma nítida fuga dessa discussão por parte da diretora, mas esses fatos me chamaram bastante atenção.

Embora tudo seja sempre sustentado pelas relações pessoais e de afeto, o pensamento histórico dos fatos precisam ser colocados para que se faça uma reflexão acerca da inserção da interracialidade no filme, tanto que no final o pai comunica a Cleo que ela terá uma nova babá, que provavelmente reproduzirá novamente a relação social anterior. Isso é algo que fica implícito, mas que vale a pena citar para efeito de ponderações posteriores sobre determinados padrões sociais que se repetem geração a geração. 

Meu Verão Com Glória me fez pensar de maneira muito séria sobre o poder do afeto nas construções narrativas do cinema contemporâneo. O quanto essa profusão de afetos que o filme promove escamoteia outras perspectivas analíticas, pois somos envolvidos de tal forma pelos sentimentos que sustentam a obra, que sequer conseguimos pensar em algo que é latente e talvez importante de ser sublinhado. Não que isso retire o valor artístico do filme, mas nos obrigue a vê-lo sob óticas diferenciadas. Inclusive saí do cinema a pensar o quanto que a direção força a barra em algumas cenas, como a que a filha convence o pai com uma rapidez impressionante sobre uma viagem de avião sozinha para uma ilha longínqua. Depois, quase no fim, quando Cleo se atira do penhasco, quase como um ato suicida, e nada acontece com ela, lembrando que o salto era difícil até para os meninos maiores que ela e nascidos de frente para o mar. 

Essa análise que faço são de aspectos que contornam a obra, e portanto, não retiram as suas qualidades narrativas, nem tampouco o encantamento que ela suscita em cada um de nós. É muito bonito ver o amor sincero e escancarado entre Cleo e Glória, quem dera metade das relações humanas fossem assim, o mundo seria outro, com certeza. Como seria fantástico se todos os seres pudessem vivenciar a experiência de Cleo, de poder conhecer a dinâmica de vida de sua babá com a própria família, especialmente, ter que dividir o afeto de Glória com os filhos e neto, ter que conviver com sentimentos ambíguos de raiva, ciúme e possessão. 

Mas o que dizer sobre o olhar de Cleo, de como Louise Mauroy-Panzani nos cativa com seus gestos sinceros e abnegados. A cada cena, Cleo mostra novos sentimentos, se confronta com a vida, com o ciúme, com a mentira, com o filho revoltado de Glória, que pouco teve o afeto da mãe, justamente por ela estar cuidando de Cleo em Paris. Marie Amachoukeli explora os conflitos com tanto habilidade quanto aborda os afetos, o que enriquece sua narrativa e a permite sedimentar um painel rico e diversificado dos personagens. Ao final, o nosso maior desejo é querer conhecer Cleo e convidá-la a passar umas férias com ela. Ou seria ter uma babá tão carinhosa quanto Glória? As contradições que o filme exala extrapolam a tela, a ponto de levá-las como uma poderosa reflexão para casa.

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