Pular para o conteúdo principal

ACOMPANHANTE PERFEITA (2024) Dir. Drew Hancock


Texto por Marco Fialho

Acompanhante Perfeita poderia ser um novo Blade Runner uma trama que remete aos replicantes do famoso filme de 1986, mas a obra dirigida por Drew Hancock não passa da superficialidade, levanta muitas questões cruciais sobre as relações amorosas dessa segunda década século XXI, em especial, o que certos homens esperam das mulheres.

Infelizmente, a trama privilegia mais o thriller do que a discussão em si, mais o entretenimento do que a reflexão. Assim, o que poderia beirar o extraordinário termina em um joguinho de gato e rato, de quem é mais esperto, se os robôs ou os humanos. Acompanhante Perfeita também esbarra no tema da inteligência artificial, se é possível a AI superar o homem, se a máquina pode dar nos dar uma volta. A humanização das máquinas se equipara às discussões levantadas em Blade Runner, embora seu antecessor lhe dê um banho de reflexões filosóficas. 

O filme também faz lembrar A.I., filme de Spielberg, mas ali se pensava a relação amorosa de uma criança com os pais, embora em Acompanhamento Perfeito a máquina só descobre que não é humana no decorrer do filme. Não creio que a obra de agora pretenda discutir o amor, mas sim a dependência da mulher depois que o feminismo adquiriu novas formas de luta no século XXI, mesmo que isso se manifeste de maneira implícita. 

Se tem algo na trama que a enfraquece é o plano de assassinato que aparece lá pela metade do filme. Essa questão enfraquece a discussão por deslocar o central da história: a relação amorosa na contemporaneidade. A mistura de gêneros, no caso, do terror, da ficção científica, do thriller de suspense e do romance, acabam mais atrapalhando o enredo do que ajudando. A direção de Drew Hancock visa a eficiência industrial e carece de inventividade, se conformando com uma proposta visual bem convencional e sem ousadias. O filme esbarra em uma ideia que se fosse melhor desenvolvida poderia ser genial. 

A direção de atores não permite que as interpretações passem do previsível e do superficial, as camadas psicológicas são pouquíssimo exploradas, o que colabora para que Acompanhante Perfeita não saia da superfície. Os movimentos de câmera e os enquadramentos pouco fazem acrescentar algo de diferente, seja por trazer nos ângulos ou algum tipo de visão diferenciada de um personagem. Se sobra carisma em Sophie Thatcher, a robô Íris, mal explorada pela direção, falta um brilho em Josh (Jack Quaid), que em tela destoa perante a face luminosa de Íris.

Portanto, a fluidez das relações amorosas do nosso tempo não ganha tanto campo quanto deveria e faz com que Acompanhante Perfeita não ultrapasse o mero entretenimento bem realizado e com pouca reflexão. Embora a misoginia esteja presente no filme, as tramas paralelas ligadas a ambição financeira camuflam essa que seria o grande legado que esse filme poderia ter deixado: uma reflexão explosiva acerca do machismo em pleno século XXI.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

PECADORES (2025) Dir. Ryan Coogler

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho O cinema negro dos Estados Unidos vem se fortalecendo mercadologicamente como nunca. Diretores como Jordan Peele ( Corra! , Nós  e Não! Não Olhe! ), Barry Jenkins ( Moonlight e Se a Rua Beale Falasse ), Ava DuVernay ( 13ª Emenda  e Selma ) e Shaka King ( Judas e o Messias Negro ), Raoul Peck ( Eu não Sou Seu Negro ). Se falarmos mais retroativamente, encontraremos Spike Lee (com os clássicos  Faça a Coisa Certa , Malcoln X , e os atuais  Infiltrado na Klan e Destacamento Blood ), Melvin Van Peebles ( Sweet Sweetback's Baadasssss Song e Posse: A Vingança de Jesse Lee ) e a força do movimento Blaxploitation dos anos 1970, e o ineditismo de Oscar Micheaux nos anos 1920 e 1930.  O fato atual é que o cinema negro não é mais reservado a um nicho. Os diretores mais recentes mostram uma penetração cada vez mais efetiva no mercado. Pecadores , mais recente filme de Ryan Coogler ( Creed e Pantera Negra ) vem comprovar isso. ...

MOSTRA CINEBH 2023

CineBH vem aí mostrando novos diretores da América Latina Texto de Marco Fialho É a primeira vez que o CineFialho irá cobrir no modo presencial a Mostra CineBH, evento organizado pela Universo Produção. Também, por coincidência é a primeira vez que a mostra terá inserido um formato competitivo. Nessa matéria falaremos um pouco da programação da mostra, de como a curadoria coordenada pelo experiente Cleber Eduardo, montou a grade final extensa com 93 filmes a serem exibidos em 8 espaços de Belo Horizonte, em apenas 6 dias (26 de setembro a 1º de outubro). O que atraiu o CineFialho a encarar essa cobertura foi o ineditismo da grande maioria dos filmes e a oportunidade mais do rara, única mesmo, de conhecer uma produção independente realizada em países da América Latina como Chile, Colômbia, México, Peru, Paraguai, Cuba e Argentina, sem esquecer lógico do Brasil.  Lemos com atenção toda a programação ofertada e vamos para BH cientes da responsabilidade de que vamos assistir a obras di...