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SUPER/MAN - A HISTÓRIA DE CHRISTOPHER REEVE (2024) Dir. Ian Bonhôte e Peter Ettedgui


Texto por Marco Fialho

 Em Super/Man - A História de Christopher Reeve os diretores Ian Bonhôte e Peter Ettedgui buscam reconstituir a história do famoso ator de Superman tentando imolar a ele o heroísmo deste personagem. E isso me pareceu muito estranho, já que uma das lutas de Christopher Reeve antes do acidente foi ser reconhecido como um ator capaz de interpretar muitos outros personagens, e não de ser conhecido como o eterno Superman. Ele sempre insistiu que não tinha nada a ver com o personagem que o tornou famoso.

O documentário opta por não adotar a linearidade cronológica na construção de sua narrativa. Os diretores preferem ir mesclando os momentos pós acidente com os que o antecederam, tanto que logo no início, o tema acidente já é incluído na narrativa do filme. Esse estratégia possibilita que os diretores coloquem o acidente não só no centro da história, mas também como um momento que vai permear o filme do início ao fim, o que mantém o interesse do público no documentário. 

Super/Man - A História de Christopher Reeve se edifica a partir dos depoimentos dos três filhos, da primeira mulher e dos artistas de Hollywood que foram seus amigos íntimos como Glenn Close, Whoppi Goldberg, Susan Sarandon, Robbie Williams, esse último seu melhor amigo desde a época da juventude quando estudaram teatro na prestigiosa Juilliand School, antes do sucesso de Superman. Dana Reeve, sua segunda esposa, aparece no filme como uma coadjuvante de peso, pois é inegável a sua dedicação ao ator após o seu acidente quase fatal quando caiu de um cavalo, e ainda depois da morte do ator, ao levar adiante o projeto da Fundação Christopher Reeve, que ele mesmo criou e que hoje, é mantida pelos seus três filhos.

Entretanto, o que mais me chamou a atenção durante todo o filme é o viés sensacionalista que os diretores incorporam à narrativa. O tratamento dado à trilha musical de Super/Man - A História de Christopher Reeve impregna o filme de um apelo que beira o insuportável. Cada música inserida sempre vem a sublinhar sensações que a imagem e os depoimentos já sustentavam, o que faz que tudo fique mais dramático do que já é. Convenhamos que os fatos já são carregados em si de emoção e não precisavam de elementos para deixar tudo em um tom acima. O documentário tenta sustentar um heroísmo que não coadunava com as premissas humanitárias de Reeve, que inclusive não apoiava a transformação do sucesso de Supeman em uma franquia caça-níquel, até que o fracasso da quarta sequência soterrou a ideia da quinta. Se Christopher Reeve adorou fazer os dois primeiros Superman, o mesmo não se deve considerar sobre os terceiro e quarto, em que o ator revelou o incômodo com esses filmes.      

Realmente me impressionou o quanto os diretores se esforçaram por revestir a figura de Christopher Reeve com uma aura heroica, como se depois do acidente seus poderes ficcionais de Superman o investisse de poderes sobrenaturais para encarar as terríveis sequelas do acidente que sofreu. As motivações dos diretores podem ter sido as mais dignas possíveis, porém os resultados são bastante duvidosos a colocar Reeve em um papel que não condizia com sua visão política. Reeve se mostra um homem de coragem ao enfrentar suas deficiências, ainda mais sendo ele, antes do acidente, considerado um homem dentro dos padrões de beleza da sociedade. Ter que mudar esse papel não foi heroico, antes, foi um ato político, tanto que não se curvou a nenhum presidente na luta pelos direitos das pessoas com deficiência. 

Muitas vezes vi Super/Man - A História de Christopher Reeve como um importante material para a luta dos direitos dos DEFs, mas me incomodou sentir a necessidade de inserção de ideias apelativas que facilitam a vendagem do documentário no mercado cinematográfico de hoje. Dar relevância ao seu trabalho como Superman (que sabia o quanto servia apenas para alimentar a gana por lucros a qualquer preço dos grandes produtores de Hollywood) e apenas mencionando (ou escondendo como o caso de Os Bostonianos - 1984 e  Vestígios do Dia - 1994, ambos de James Ivory) em detrimento a outros trabalhos importantes dele como ator, indica um ato maldoso, e até inescrupuloso, da parte da direção. 

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