Texto por Marco Fialho
Vivemos tempos tão complicados ultimamente, e não me refiro somente a questão política (embora isso resvale nela), mas sobretudo na maior estratégia que o sistema capitalista armou contra todos nós que moramos em grandes cidades, que é o aspecto impessoal no qual o mundo se organiza em nosso cotidiano. No restaurante, no banco, no mercado, nas lojas de departamentos ou em vários fatos corriqueiros que nos deparamos, nunca temos acesso ao dono do negócio, sempre o nosso contato é com um empregado, seja ele atendente ou gerente, ou na pior das hipóteses, uma máquina. Essa forma contemporânea de vivenciar o mundo é o que mais nos adoece, porque não temos acesso a quem realmente deveríamos reclamar ou reivindicar algum problema.
Essa é a primeira questão que Raiz, filme peruano de Franco García Becerra, me suscitou, assim que saí da sala de cinema. A maior falência do homem contemporâneo está ligada ao afastamento da ideia de comunidade, isto que lugarejos menores ainda têm o luxo de ter preservado. Raiz narra a história de Feliciano (Alberth Merma), um menino de 8 anos que é pastor de Alpacas (que visualmente lembram as lhamas), que além de se dedicar ao seu ofício, está empolgado com a ideia de ver a seleção de futebol do Peru ir jogar a Copa do Mundo na Rússia (2018), depois de 36 anos sem participar desse que é o maior evento futebolístico do mundo.
O filme se passa na minúscula comunidade de Rumicancha, encravada na linda e misteriosa Cordilheira dos Andes. O diretor Franco García Becerra filma esse lugar de modo a exibir tanto a simplicidade da vida desses pastores quanto a exuberância visual no mundo natural. Só que a vida ali não é só feita de maravilhas, e até nesse recanto isolado a sanha capitalista está presente, na figura de uma mineradora que em nome do lucro, está destruindo os rios, os animais, a qualidade do solo e o sentido de comunidade do local.
Entretanto, em Rumicancha ainda existe o tal sentido de comunidade, e os moradores estão dispostos a lutar contra esses invasores predatórios. A mineradora, conta com a adesão de Grimaldo, um residente que foi cooptado pela empresa e o coloca como porta-voz para tentar influenciar a comunidade a aderir aos projetos ambiciosos e destruidor da bela natureza do lugar. São estratégias mais do que manjadas, mas que envolve recursos financeiros para corromper aqueles que querem melhorar de vida vendendo sua alma ao diabo.
Raiz tira proveito de um ambiente privilegiado, de grande beleza natural, para realizar planos gerais magníficos e enquadramentos encantadores. Os animais também se destacam no filme, sendo Rambo um cão fiel a Feliciano, além da Alpaca Ronaldo, que é um show à parte na história, especialmente quando cortam seus pelos da cabeça para se assemelhar ao corte de cabelo de Cuenca, um jogador da seleção peruana. Esses são momentos de leveza e comicidade de Raiz. O filme contrasta essa infância frugal de Feliciano com a violência vinda da mineradora.
O diretor Franco García Becerra concebe sua história pelo olhar doce de Feliciano, mas não esquece dos sonhos angustiantes do menino com o ser mitológico e fundador chamado pela comunidade de Auki Tayta. Feliciano o imagina como um ser monstruoso e temido, mas que pode ser conclamado por meio de um ritual a proteger a comunidade contra os maldosos inimigos, já que Auki Tayta é sempre duro com quem não respeita as tradições locais. O lúdico aparece também no seu cotidiano já aviltado, como o esmero dele em construir a seleção peruana colorindo o uniforme em pedras coniformes, ou lembrando da época em que jogava futebol com os meninos e meninas da aldeia. Nos tempos atuais, o menino sente falta de amigos, cujos pais já venderam suas alpacas para aceitarem o trabalho como mineiros e irem morar na parte urbana do povoado.
O diretor capricha na direção de Alberth Merma, em vários momentos podemos conhecê-lo bem, tanto seus sentimentos quanto o seu caráter. Uma cena que eu gosto muito é a que se passa na sala de espera da delegacia, quando o filho de Grimaldo se senta ao seu lado. Enquanto um está vestido com uma roupa contemporânea, com um colete de nylon, Feliciano está usando um poncho de lã. Essa imagem talvez seja a mais sintética de Raiz, que delineie quem é quem naquele pequeno breve instante aparentemente despretensioso.
Para pressionar os pastores a aderirem ao projeto de exploração mineral, deixando de lado seus trabalhos tradicionais com as alpacas (das quais retiravam a lã para vender), os mineradores encomendam a morte de algumas alpacas dos que ainda resistem em permanecer como pastores em Rumicancha, só que esse fato desperta a revolta de homens e mulheres que dependem das alpacas para sobreviver. O ápice do conflito do filme acontece quando a comunidade se junta para bloquear a estrada e impedir a circulação dos caminhões que trafegam com os lucrativos extratos minerais retirados do solo de Rumicancha.
Raiz é um filme importante por denunciar os interesses perniciosos dos mineradores, que jamais dão as caras, apenas colocam pessoas que precisam de dinheiro para defender suas atividades agressivas ao meio ambiente. Graças ao sentido de comunidade ainda presente em Rumicancha, a luta contra esses capitalistas inescrupulosos está garantida. Nesse caso, é só bater na porta dos vizinhos e chamar um a um pelo nome para a briga. A inserção da campanha da seleção peruana para a Copa do Mundo de 2018, é um detalhe importante ao mostrar como o futebol está participando em um projeto maior de unificação política e social do complexo território do Peru, onde ainda se encontram comunidades isoladas (sem luz elétrica) que possuem um sentido de comunidade construído em torno de si mesma. Tanto que enquanto o país garantia a sua vaga no grande evento mundial de futebol, os pastores estavam tomando as estradas lutando para preservar a qualidade natural de fauna e flora de Rumicancha.
Tem uma frase que é dita pela mãe de Feliciano lá pelo meio do filme, que creio ser uma ótima maneira de terminar esse texto, por ela sublinhar algo que é muito importante para se pensar o tal sentido de comunidade que tanto falamos aqui: "o dinheiro muda o coração das pessoas". Mas enquanto prevalecer o sentido de comunidade em Rumicancha, dificilmente o vil metal irá manchar a vida de quem resiste para manter suas tradições de pé. Se antes, lá no final do Século XIX, a ideia de progresso poderia parecer benéfica para o coletivo, hoje, em pleno século XXI, já sabemos do malefício que ela efetivamente trouxe para a humanidade. Por isso, Raiz, possui um enorme significado não só para aqueles poucos habitantes de Rumicancha, mas também para todo o planeta que anseia valorizar a simplicidade e o sentido de comunidade como atributos maiores da humanidade.

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