Pular para o conteúdo principal

CONTINENTE (2024) Dir. Davi Pretto


Texto por Marco Fialho

Desde que filmou o ótimo Rifle (2016), o diretor Davi Pretto colocou o seu sarrafo cinematográfico lá em cima. A verdade é que Continente, o seu mais novo projeto, não chega a impressionar na mesma medida. E olha que há qualidades nesse trabalho, embora falte amarrar melhor as diversas simbologias presentes nessa nova obra. 

Alguns elementos do faroeste inseridos em Rifle retornam em Continente, embora sem a mesma força, já´que o toque predominante agora é o do vampirismo. E acreditem, o viés de filme de terror do filme é uma dos traços mais intrigantes que Pretto insere na obra. Continente começa com Amanda (Olivia Torres), morando há 15 anos na Europa, chega na fazenda do pai, que está quase morto, com o namorado francês Martin (Corentin Fila) e se depara com estranhos rituais estabelecidos entre o seu pai e os funcionários. 

Cada nova cena, os mistérios aumentam e a atmosfera de terror e sangue só pioram. As cenas são muito bem filmadas, com uma fotografia que dialoga com competência com o mistério da trama. Davi Pretto alterna planos gerais com closes, que amarram com extremo cuidado o espaço com as situações limites dos personagens. A longa sequência de vampirismo de Amanda com os funcionários é impressionante do ponto de vista cinematográfico, por mais que ela na prática não ligue nada com muita coisa na história. 

Inclusive, muitas perguntas em Continente ficam no ar: por que foi feito o tal acordo entre o pai e os funcionários e qual seria o sentido de sua existência? Ou qual é o problema de Helô fazer o ritual com Martin, se ele era francês e não era um participante do acordo? O acordo aparentemente envolvia uma ideia de luta de classes, embora não dá para compreender a real relação. As respostas não chegam nunca e o filme perde a chance de se aprofundar nos temas que levanta.     

O roteiro de Continente não consegue amarrar bem as simbologias inerentes no enredo. Os rituais de sangue estabelecidos entre o pai e os funcionários não expressam muita coisa, pois esses últimos sugam o sangue do primeiro e vice-versa, o que não faz muito sentido e até abre uma grande interrogação sobre o porquê isso acontece. Em paralelo, Helô (Ana Flávia Cavalcanti), uma doutora, a única da região, administra para os funcionários uma droga que amaina a fome por sangue de todos os envolvidos no famoso acordo. O maior conflito acorre quando ela fura o acordo e "negocia" com Martin, o namorado de Amanda. 

O maior problema de Continente está no fato de todos esses elementos postos em cena, não se comunicarem tão bem entre si, e sempre tudo ficar muito confuso para o espectador. O terror mais para o fim, perde a força e nem os ótimos atores em cena, a ótima fotografia, os planos bem realizados e o clima estabelecido, salvam um roteiro frágil que não consegue dar consistência aos vários acontecimentos que vemos na tela. Pela qualidade imagética e o notório talento cinematográfico de Davi Pretto, ficamos no aguardo que futuros trabalhos ratifiquem a potência criativa vista em 2016, quando o diretor realizou o excelente Rifle.        

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

CLOSE-UP (1990) Dir. Abbas Kiarostami

Texto por Marco Fialho "A arte é um sentimento que se experimenta, que o artista desenvolve nele para compartilhar com os outros". Frase que o personagem Sabzian atribui a Leon Tolstói Estudar o cinema de Abbas Kiarostami é mergulhar no imaginário do cinema. Um dos ícones do cinema iraniano dos anos 1980 e 1990, o diretor realizou obras cruciais para o pensamento cinematográfico contemporâneo. Obras como Gosto de Cereja (1997), Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987), Através das Oliveiras (1994), A Vida e Nada Mais (1992), e outras já produzidas nos século XX1, como Dez (2002), Cópia Fiel (2010) e Um Alguém Apaixonado (2012), todas fundamentais e merecedoras de serem estudadas, não só individualmente, mas também em conjunto para melhor se compreender o pensamento original desse cineasta iraniano, que junto com tantos outros seus contemporâneos, como Mohsen Makhmalbaf, Jafar Panahi e Majid Majidi, formaram a base do que hoje chamamos de cinema iraniano. Mas nesse texto vou come...

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

PECADORES (2025) Dir. Ryan Coogler

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho O cinema negro dos Estados Unidos vem se fortalecendo mercadologicamente como nunca. Diretores como Jordan Peele ( Corra! , Nós  e Não! Não Olhe! ), Barry Jenkins ( Moonlight e Se a Rua Beale Falasse ), Ava DuVernay ( 13ª Emenda  e Selma ) e Shaka King ( Judas e o Messias Negro ), Raoul Peck ( Eu não Sou Seu Negro ). Se falarmos mais retroativamente, encontraremos Spike Lee (com os clássicos  Faça a Coisa Certa , Malcoln X , e os atuais  Infiltrado na Klan e Destacamento Blood ), Melvin Van Peebles ( Sweet Sweetback's Baadasssss Song e Posse: A Vingança de Jesse Lee ) e a força do movimento Blaxploitation dos anos 1970, e o ineditismo de Oscar Micheaux nos anos 1920 e 1930.  O fato atual é que o cinema negro não é mais reservado a um nicho. Os diretores mais recentes mostram uma penetração cada vez mais efetiva no mercado. Pecadores , mais recente filme de Ryan Coogler ( Creed e Pantera Negra ) vem comprovar isso. ...