Pular para o conteúdo principal

BICHO MONSTRO (2024) Dir. Germano de Oliveira


Texto por Marco Fialho

É bem difícil ver filmes chegarem ao circuito comercial brasileiro, que se passam no interior do Rio Grande do Sul. São histórias pouco conhecidas da maioria do país, o que por si, já deveria atrair a nossa atenção. 

Bicho Monstro, de Germano de Oliveira, além desse aspecto territorial, traz uma história ambiciosa em sua dimensão temporal ao misturar duas épocas distintas: uma no século XVIII e da atual, para discutir uma lenda do interior do Rio Grande do Sul, de um imaginário pássaro com cara de roedor (Thiltapes). 

A lenda reaparece numa apresentação teatral e impressiona Ana (Kamilly Wagner), uma menina cujo pai desconfiam na comunidade que cegou a vaca do vizinho após perder uma competição para ele da melhor vaca da região. O filme fica indo e vindo no tempo, mas a direção de Germano de Oliveira não consegue criar um vínculo real entre elas, nem fazer com que a lenda tenha uma relevância na história, seja no passado ou no presente. 

Um dos pontos que não ajuda o filme a deslanchar é justamente a falta de consistência no roteiro, que não amarra as temporalidades que encampa. A parte do século XVIII em especial é bem pouco interessante, na medida que o explorador estrangeiro, tratado na história como botânico, não apresenta credenciais suficientes como um pesquisador. É bom lembrarmos que à essa época muitos viajantes estrangeiros passaram pelo Brasil, inclusive pelas bandas do Rio Grande do Sul fazendo pesquisas sobre a fauna e flora do local, e foram cruciais na taxonomia botânica e zoológica.

Outra fragilidade que Bicho Monstro apresenta é na direção de atores e essa é uma questão que abarca todas as interpretações. Há uma certa ingenuidade que está no roteiro, mas que aparece nas atuações dos atores, o que faz o filme soar às vezes como um filme voltado à infância, o que não parece ser a intenção da direção é trabalhar os demônios existentes entre o passado e o futuro. As partes de silêncio são mais bem urdidas do que as apoiadas nos diálogos, mas a direção não a explora tanto quanto deveria, como tão bem faz os filmes de Davi Pretto (especialmente Rifle - 2016).     

Bicho Monstro se apoia numa estrutura dramatúrgica muito espelhada no realismo fantástico, mas esse fato não é tão estranho à cultura artística gaúcha. Esse lado da fantasia misturada com realidade, em especial para valorizar o universo mágico das crianças é bem recorrente em várias obras. O grande problema não está na parte mágica, mas sim quando se reflete o realismo que está incorporada à obra. Ele não se sustenta porque não há uma concretude que segure a mágica que está inserida na proposta de realismo.  

O conflito central de Bicho Monstro é a de um homem que pode ter ferido uma vaca do vizinho, isto é, um dado muito frágil que não chega a despertar um grande interesse do espectador. O que a colonização tem a ver com isso? Quais os grandes conflitos oferecidos a partir daí? Seria o tal pássaro monstro o responsável pelos eventos de agressão? E na cena final temos enfim a resposta, e ela apenas favorece o lado lúdico da história, deixando de fora o tal do realismo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

CLOSE-UP (1990) Dir. Abbas Kiarostami

Texto por Marco Fialho "A arte é um sentimento que se experimenta, que o artista desenvolve nele para compartilhar com os outros". Frase que o personagem Sabzian atribui a Leon Tolstói Estudar o cinema de Abbas Kiarostami é mergulhar no imaginário do cinema. Um dos ícones do cinema iraniano dos anos 1980 e 1990, o diretor realizou obras cruciais para o pensamento cinematográfico contemporâneo. Obras como Gosto de Cereja (1997), Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987), Através das Oliveiras (1994), A Vida e Nada Mais (1992), e outras já produzidas nos século XX1, como Dez (2002), Cópia Fiel (2010) e Um Alguém Apaixonado (2012), todas fundamentais e merecedoras de serem estudadas, não só individualmente, mas também em conjunto para melhor se compreender o pensamento original desse cineasta iraniano, que junto com tantos outros seus contemporâneos, como Mohsen Makhmalbaf, Jafar Panahi e Majid Majidi, formaram a base do que hoje chamamos de cinema iraniano. Mas nesse texto vou come...

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

PECADORES (2025) Dir. Ryan Coogler

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho O cinema negro dos Estados Unidos vem se fortalecendo mercadologicamente como nunca. Diretores como Jordan Peele ( Corra! , Nós  e Não! Não Olhe! ), Barry Jenkins ( Moonlight e Se a Rua Beale Falasse ), Ava DuVernay ( 13ª Emenda  e Selma ) e Shaka King ( Judas e o Messias Negro ), Raoul Peck ( Eu não Sou Seu Negro ). Se falarmos mais retroativamente, encontraremos Spike Lee (com os clássicos  Faça a Coisa Certa , Malcoln X , e os atuais  Infiltrado na Klan e Destacamento Blood ), Melvin Van Peebles ( Sweet Sweetback's Baadasssss Song e Posse: A Vingança de Jesse Lee ) e a força do movimento Blaxploitation dos anos 1970, e o ineditismo de Oscar Micheaux nos anos 1920 e 1930.  O fato atual é que o cinema negro não é mais reservado a um nicho. Os diretores mais recentes mostram uma penetração cada vez mais efetiva no mercado. Pecadores , mais recente filme de Ryan Coogler ( Creed e Pantera Negra ) vem comprovar isso. ...