Pular para o conteúdo principal

MEU CASULO DE DRYWALL (2024) Dir. Caroline Fioratti


Texto por Marco Fialho

A diretora Caroline Fioratti mergulha sem dó no paraíso artificial de um condomínio de luxo em São Paulo, desconstruindo o mundo das felicidades fáceis que o dinheiro sonha poder comprar em Meu Casulo de Drywall. E a diretora faz uma investigação por dentro, discutindo o mundo dos ricos em sua intimidade. Esse é um trabalho onde se pretende aferir mais as subjetividades do que se descobrir a origem da riqueza ou acumulação de uma parcela menor da população brasileira.

O filme de Caroline Fioratti segue olhares multifacetados desse universo, mostrando o quão vazio é a vida desses jovens que vivem numa bolha de pretensa segurança e felicidade. A narrativa se fragmenta em tempos desconexos, intercalando o dia da festa de 17 anos da jovem e bonita Virginia (Bella Piero), com os dias desoladores que a sucederam. Ao optar pela ordem não cronológica dos fatos, a diretora abre uma janela angustiante de como eclodiu uma tragédia que ocorre numa data em que tudo deveria ser alegria e confraternização. 

Todos os personagens que orbitam na história são ricos, com exceção da empregada da casa da família de Virgínia, que poderia até ser uma personagem mais presente e a dar de alguma forma uma visão para além do mundo dos mais abastados. Dos adultos, apenas Patrícia (Maria Luísa Mendonça) a mãe de Virginia realmente se estabelece como uma personagem de fato tendo considerável peso na história. Há o personagem de Marat Descartes, como o pai de Nicollas, mas sua participação é bem pontual, apesar de importante. Já a atuação de Maria Luísa Mendonça é um dos pontos altos do filme, como uma mãe dilacerada, incrédula e enlouquecida diante da tragédia que premeditou e até tentou evitar, o que mostra uma certa impotência que ela tinha no cotidiano com a filha.

Caroline Fioratti não poupa ninguém em sua investigação, indo fundo especialmente na alma desses jovens solitários abandonados pela vida transloucada dos pais que precisam assegurar o conforto material de suas famílias, sem se atinar que a saúde mental dos seus filhos está por um triz. A diretora nos mostra como o dinheiro pode realmente comprar tudo, até a infelicidade. A busca por identidade está presente na vida desses jovens que vivem nesses condomínios de luxo, não casualmente a diretora usa e abusa dos espelhos, como se a juventude dessa casta social ansiasse por saber quem realmente são e qual futuro a vida lhes reserva.  

Meu Casulo de Drywall mergulha no mundo frágil de 4 jovens: Virgínia, Luana, Nicollas e Gabriel. O que eles tem em comum é o dinheiro e uma vida vazia e sem perspectivas. A vida deles já parece encomendada pelos pais, projetadas para o sucesso profissional e para mais infelicidade. A fotografia e a direção de arte constroem esse mundo com camadas necessárias de artificialismo e ilusão, o pintando como um mundo de faz de conta prestes a desmoronar. 

A personagem de Maria Luísa Mendonça talvez seja um pêndulo na história, e ela funciona também como uma espécie de espelho desses jovens, do tipo "eu sou vocês amanhã". Lembra muito um fantasma shakespeariano a vagar, quase como uma personagem vinda do mundo dos mortos, com sua maquiagem destruída tanto o quanto a sua alma. Ela pressente a tragédia, talvez justamente por ser a própria imagem dela. Há um jogo de duplicidade entre mãe e filha, e uma cena da piscina é categórica ao anunciar essa imagem. Elas se fundem na água, elas vestem o mesmo vestido (inclusive vestem o mesmo número de roupa). A morte de Virginia não deixa de ser a de Patrícia. Não casualmente ela flerta desesperadamente com Nicollas, o namorado, e Gabriel, o pretendente apaixonado. 

O que mais Meu Casulo de Drywall quer mostrar é o quanto este mundo vividos sob um excesso de proteção é frágil e insuficiente para suplementar a falta de carinho que envolve esses personagens. São um bando de zumbis endinheirados, desconfiados de qualquer forma de sentimento genuíno. Nicollas vive pelos cantos do condomínio a obter prazer fugidio com alguns empregados. Luana, a melhor amiga, sonha em conquistar o amor de Virginia, apesar de enfrentar o preconceito racial dos pais de seus amigos, assim como o misterioso Gabriel, atraído igualmente por Virginia. Apesar do dinheiro, o universo dessas vidas é do mínimo, o condomínio é o mundo que eles conhecem, e óbvio que isso não basta. Vivem em seus aquários multicoloridos, suas redomas artificiais criadas pelo dinheiro dos pais, convivem com a facilidade de se ter armas de fogo em casa, um item de proteção que expõe a contradição daqueles casulos. 

Meu Casulo de Drywall é cruel, dilacerante e verdadeiro ao buscar as emoções desses personagens abastados. O filme é um tipo de inventário espiritual acerca dessas almas cujo conforto financeiro não garante nada. O que parece é que quando se nasce na riqueza o vazio já nasce junto. Os condomínios da Barra da Tijuca que o digam. O universo dos comprimidos, e das drogas em geral, acaba dizendo muito sobre esse mundo aparentemente perfeito e ilusório. Como se nos inventários das famílias se herdasse além de propriedades e contas bancárias, as drogas prescritas que tentam manter a saúde mental de quem vive nesses casulos de drywall

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

PECADORES (2025) Dir. Ryan Coogler

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho O cinema negro dos Estados Unidos vem se fortalecendo mercadologicamente como nunca. Diretores como Jordan Peele ( Corra! , Nós  e Não! Não Olhe! ), Barry Jenkins ( Moonlight e Se a Rua Beale Falasse ), Ava DuVernay ( 13ª Emenda  e Selma ) e Shaka King ( Judas e o Messias Negro ), Raoul Peck ( Eu não Sou Seu Negro ). Se falarmos mais retroativamente, encontraremos Spike Lee (com os clássicos  Faça a Coisa Certa , Malcoln X , e os atuais  Infiltrado na Klan e Destacamento Blood ), Melvin Van Peebles ( Sweet Sweetback's Baadasssss Song e Posse: A Vingança de Jesse Lee ) e a força do movimento Blaxploitation dos anos 1970, e o ineditismo de Oscar Micheaux nos anos 1920 e 1930.  O fato atual é que o cinema negro não é mais reservado a um nicho. Os diretores mais recentes mostram uma penetração cada vez mais efetiva no mercado. Pecadores , mais recente filme de Ryan Coogler ( Creed e Pantera Negra ) vem comprovar isso. ...

MOSTRA CINEBH 2023

CineBH vem aí mostrando novos diretores da América Latina Texto de Marco Fialho É a primeira vez que o CineFialho irá cobrir no modo presencial a Mostra CineBH, evento organizado pela Universo Produção. Também, por coincidência é a primeira vez que a mostra terá inserido um formato competitivo. Nessa matéria falaremos um pouco da programação da mostra, de como a curadoria coordenada pelo experiente Cleber Eduardo, montou a grade final extensa com 93 filmes a serem exibidos em 8 espaços de Belo Horizonte, em apenas 6 dias (26 de setembro a 1º de outubro). O que atraiu o CineFialho a encarar essa cobertura foi o ineditismo da grande maioria dos filmes e a oportunidade mais do rara, única mesmo, de conhecer uma produção independente realizada em países da América Latina como Chile, Colômbia, México, Peru, Paraguai, Cuba e Argentina, sem esquecer lógico do Brasil.  Lemos com atenção toda a programação ofertada e vamos para BH cientes da responsabilidade de que vamos assistir a obras di...