Pular para o conteúdo principal

BOCAINA (2024) Dir. Ana Flávia Cavalcanti e Fellipe Barbosa


Texto por Marco Fialho

Bocaina, filme dirigido pela dupla Ana Flávia Cavalcanti e Fellipe Barbosa, é daqueles que nem adianta ler a sinopse oficial antes. Eu não sou desses, embora esse eu acabei lendo a sinopse antes de assistir. Nela, somos informados sobre o nome das personagens e que ela são irmãs, porém isso é praticamente irrelevante, já que não há um diálogo sequer durante os 71 minutos do filme. Portanto sabemos do nome dos personagens pela sinopse. O fato de serem irmãs também descobrimos no crédito, pois no filme há somente uma imagem, que parece ser um flashback, de duas meninas no carro com um homem. Como não sabemos qual é a imagem do pai, pode-se conjecturar que fossem elas chegando à Serra da Bocaina de carro com o pai.

Outra informação que a sinopse nos traz é que Bocaina se passa no período da pandemia, o que também é irrelevante, já que pelas imagens esse dado não dá para ser notado. Nenhuma máscara é usada ou está pendurada em algum lugar e até quando as duas personagens vão a um lugarejo mais urbanizado, elas vão sem máscara. Outra informação vinda da produção é que o forasteiro (Alejandro Claveaux) que chega na casa delas, que fica numa região afastada da cidade, e que ele as ajuda a se livrarem das amarras. Sinceramente, não entendi como esse fato ocorre. Pelas imagens isso não fica muito evidente. O máximo que ele faz é tomar banho pelado na cachoeira, embora em nenhum momento faça qualquer movimento para tentar atraí-las sexualmente. A única cena de sexo é dele se masturbando sozinho no meio do mato. Outra estranheza é que quando elas o encontram caído na estrada, elas não usam máscara, haja visto que não se sabia nada sobre a procedência do forasteiro e esse seria um cuidado mínimo a ser tomado. 

Esses dois parágrafos iniciais, ambos calcados na sinopse do filme, parecem bobos, mas creio que são esclarecedores como preâmbulos de nossa análise. Afinal, o que o filme nos oferece como experiência cinematográfica? Essa pergunta é importante para pensarmos o que os realizadores idealizaram e o que eles realizaram de fato. Adoro elipses, filmes que valorizam a passagem do tempo, ações cotidianas e quem acompanha nosso trabalho por aqui sabe disso, portanto, não há preconceito contra a linguagem escolhida e sim uma análise consequente sobre o que a realização nos propicia como obra. O fato de não haver diálogos também em nada influencia a nossa análise, essa não é a questão que torna o filme complicado.  

Como a maioria do cinema contemporâneo, Bocaina esboça seu discurso em cima de ações cotidianas frugais, como o cuidar do galinheiro, o ato de fazer refeições, de partilhar a cachaça, a música, de lavar a louça ou almoçar e jantar. Essas ações filmadas sem corte, passa uma ideia de tempo que é fundamental para se captar o ritmo de vida dos personagens. Os diretores contam com duas atrizes experientes (Malu Galli e Ana Flávia Cavalcanti) que dão conta da proposta de representar sem ter um discurso oralizado, mas a grande questão que fica é sobre o quê se quer discursar. Há uma relação óbvia dos personagens entre eles e com a natureza, selvagem, mas a partir disso o que se pode ser extraído? O forasteiro divide algumas funções domésticas e fora da casa e escuta músicas com elas depois de recuperado.      

A parte mais comunicativa do filme é realizada pelo uso das músicas que giram na única vitrola da casa. Ouvimos Maria Bethânia, Elizeth Cardoso e Juçara Marçal em momentos em que os corpos mais parecem querer se soltarem, em especial depois de uma cachacinha, inclusive a cena dele e delas bebendo ao som de Eu Bebo Sim, na voz de Elizeth Cardoso, é a melhor do filme. Tudo indicava que ali, bem na metade do filme, houvesse uma mudança mais interessante nos comportamentos, o que não acontece. A irmã mais nova fica doente nesse instante e a trama volta a ficar no marasmo. Há ainda um toque do cinema fantástico com umas luzes misteriosas que são avistadas no céu, mas esses elementos são incapazes de igualmente mexer com algo na trama. 

De qualquer maneira, Bocaina discursa de alguma forma sobre cuidado e amparo que precisamos ter uns com os outros, além de questionar o que de fato é isolamento social. Evidente que essa é uma proposta para ser sentida, até mesmo antes de ser entendida, mas mesmo assim é uma pena que o hermetismo dela impeça uma experiência mais proveitosa para quem está aberto a sentir novas formas cinematográficas.        

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

CLOSE-UP (1990) Dir. Abbas Kiarostami

Texto por Marco Fialho "A arte é um sentimento que se experimenta, que o artista desenvolve nele para compartilhar com os outros". Frase que o personagem Sabzian atribui a Leon Tolstói Estudar o cinema de Abbas Kiarostami é mergulhar no imaginário do cinema. Um dos ícones do cinema iraniano dos anos 1980 e 1990, o diretor realizou obras cruciais para o pensamento cinematográfico contemporâneo. Obras como Gosto de Cereja (1997), Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987), Através das Oliveiras (1994), A Vida e Nada Mais (1992), e outras já produzidas nos século XX1, como Dez (2002), Cópia Fiel (2010) e Um Alguém Apaixonado (2012), todas fundamentais e merecedoras de serem estudadas, não só individualmente, mas também em conjunto para melhor se compreender o pensamento original desse cineasta iraniano, que junto com tantos outros seus contemporâneos, como Mohsen Makhmalbaf, Jafar Panahi e Majid Majidi, formaram a base do que hoje chamamos de cinema iraniano. Mas nesse texto vou come...

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

RETROSPECTIVA VIVIAN OSTROVSKY

Texto por Carmela Fialho Retrospectiva Vivian Ostrovsky "Para mim, cinema experimental significa ter liberdade total - liberdade de duração, de tema, de forma.(...) fazer o que você quer sem se submeter às regras comerciais. São outros valores, não é tanto sobre ser longe da indústria, mas sobre liberdade de criação. De resto, é frustrante ver que hoje o cinema está cada vez mais padronizado, com poucas surpresas".  Vivian Ostrovsky em entrevista inédita a Fernanda Pessoa, extraído do Catálogo do 31º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade 2026. Na retrospectiva Vivian Ostrovsky, assistimos ao programa 2, denominado corpos em trânsito, com os filmes Movie ( V.O.)  (1982); Idas e Vindas   (1984); Copacabana Beach  (1983); Domínio Público  (1996); e U.S.S.A (1985). O que unifica os cinco curtas são as filmagens de corpos humanos em diferentes atividades do cotidiano em várias regiões do planeta, como Estados Unidos, França, Brasil e a antiga União ...