Pular para o conteúdo principal

O MENSAGEIRO (2023) Dir. Lucia Murat


Texto por Marco Fialho

Em O Mensageiro, a diretora Lucia Murat revisita  um dos temas mais caros de sua longa trajetória como diretora, o da ditadura cívico-militar brasileira, para ampliar a visão para o tema, normalmente cercado por fervorosas dicotomias e antagonismos fervorosos. 

Dessa vez, Lucia Murat enfoca em Armando (Shico Menegat), um soldado que em plena ditadura militar conhece Vera (Valentina Herszage), um prisioneira torturada pelo regime político opressor. É sabido o quanto este tema da tortura mexe com a diretora, que foi mais uma das milhares de vítimas torturadas nessa época obscurantista. 

O Mensageiro pode causar incômodos profundos em algumas pessoas por optar em mostrar Armando como um personagem humanizado e dividido entre o horror da tortura e a propaganda sistemática que os militares faziam dos militantes de oposição, todos classificados com a alcunha única de comunistas. Esse é um dos pontos fortes do filme, mostrar o quanto complexo podia ser um militar. Outros militares no filme são construídos de maneira mais duras, como o caso do major Damião (Bruce Gomlevski), que se mostra mais convicto da necessidade de exterminar os "terroristas" comunistas. 

Entretanto, Lucia Murat leva o seu filme na direção da dúvida de um soldado que se encanta com a prisioneira que é tratada no meio militar como a expressão do mal. São muitos closes realizados pela diretora, para que fique registrado o quão importante era sublinhar as fisionomias tensas desse período tão canhestro para o país. Em algumas cenas, fica em suspensão os sentimentos do jovem soldado em relação à Vera, mas se no início tudo parecia se encaminhar para um aprofundamento entre soldado e Vera, aos poucos a narrativa se direciona mais para a mãe e o soldado.

Uma das personagens mais incríveis de O Mensageiro é Maria (Georgette Fadel), uma mãe disposta a tudo para salvar a filha das masmorras da tortura. A relação entre ela e Armando é o ponto alto do filme, amparadas sempre por uma atuação firme da atriz, que consegue equilibrar em sua construção dramatúrgica desespero e afeto ao soldado que tenta estabelecer esse arriscado contato entre mãe e filha, como uma espécie de mensageiro.

Lucia Murat participa em O Mensageiro também como atriz, como uma professora de filosofia que expõe para os alunos a visão de Hannah Arendt sobre o perdão, um tema bastante controverso que divide opiniões. Para ela, a grosso modo, o perdão é uma condição humana estritamente pessoal, por mais que envolva questões privadas ou coletivas. O perdão, aqui, não tem a ver com a defesa da punição de culpados pelos seus atos, mas a forma como cada vítima absorve no decorrer da vida suas dores, numa tentativa de racionalizar algo profundamente subjetivo e marcante. 

Por esses motivos expostos acima, acredito ser O Mensageiro, um filme necessário por mergulhar corajosamente na história pessoal e histórica de uma cineasta que sempre tem questões importantes para trazer à tona em seus enredos e abordagens. Um dos grandes méritos de O Mensageiro reside no fato da câmera não esconder os sentimentos dos personagens, tentar capturar deles as sensações mais ambíguas possíveis. 

O Mensageiro não é aquele filme realizado para sairmos dele com as ideias todas no lugar. Muito pelo contrário, essa é uma história para dar um nó em nossas certezas, capaz de por em suspensão especialmente os sentimentos, já que racionalmente, algumas certezas sairão intactas, como o horror que devemos ter pela ditadura instalada no país a partir do golpe civil-militar em 1964 e que depois do AI-5, em 1969, transformou a política em um brutal caça às bruxas.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

CLOSE-UP (1990) Dir. Abbas Kiarostami

Texto por Marco Fialho "A arte é um sentimento que se experimenta, que o artista desenvolve nele para compartilhar com os outros". Frase que o personagem Sabzian atribui a Leon Tolstói Estudar o cinema de Abbas Kiarostami é mergulhar no imaginário do cinema. Um dos ícones do cinema iraniano dos anos 1980 e 1990, o diretor realizou obras cruciais para o pensamento cinematográfico contemporâneo. Obras como Gosto de Cereja (1997), Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987), Através das Oliveiras (1994), A Vida e Nada Mais (1992), e outras já produzidas nos século XX1, como Dez (2002), Cópia Fiel (2010) e Um Alguém Apaixonado (2012), todas fundamentais e merecedoras de serem estudadas, não só individualmente, mas também em conjunto para melhor se compreender o pensamento original desse cineasta iraniano, que junto com tantos outros seus contemporâneos, como Mohsen Makhmalbaf, Jafar Panahi e Majid Majidi, formaram a base do que hoje chamamos de cinema iraniano. Mas nesse texto vou come...

RETROSPECTIVA VIVIAN OSTROVSKY

Texto por Carmela Fialho Retrospectiva Vivian Ostrovsky "Para mim, cinema experimental significa ter liberdade total - liberdade de duração, de tema, de forma.(...) fazer o que você quer sem se submeter às regras comerciais. São outros valores, não é tanto sobre ser longe da indústria, mas sobre liberdade de criação. De resto, é frustrante ver que hoje o cinema está cada vez mais padronizado, com poucas surpresas".  Vivian Ostrovsky em entrevista inédita a Fernanda Pessoa, extraído do Catálogo do 31º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade 2026. Na retrospectiva Vivian Ostrovsky, assistimos ao programa 2, denominado corpos em trânsito, com os filmes Movie ( V.O.)  (1982); Idas e Vindas   (1984); Copacabana Beach  (1983); Domínio Público  (1996); e U.S.S.A (1985). O que unifica os cinco curtas são as filmagens de corpos humanos em diferentes atividades do cotidiano em várias regiões do planeta, como Estados Unidos, França, Brasil e a antiga União ...

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...