Pular para o conteúdo principal

É ASSIM QUE ACABA (2024) Dir. Justin Baldoni


Texto por Marco Fialho

É Assim Que Acaba, dramalhão romântico dirigido e protagonizado por Justin Baldoni, é daqueles que costumam abrir um fosso entre os críticos e o público, nesse caso específico, o feminino, em especial as leitoras do best-seller homônimo de Colleen Hoover no qual o filme foi baseado e que já vendeu mais de 2 milhões de exemplares no mundo. O resultado dessa obra é quase constrangedora ao enfileirar em sua narrativa um clichê atrás do outro, além de vender corpos padronizados do início até o último minuto. 

Pode-se dizer que esse é um filme conservador, tanto do ponto de vista cinematográfico quanto da leitura que faz da sociedade. É Assim Que Acaba encapsula uma visão de emancipação feminina que só não digo que é inocente, porque na verdade é intencional ao vender uma maneira específica de como é ser uma mulher no século 21. Mesmo que todos os esforços sejam feitos, ao final, conclui-se que Lily Bloom (Blake Lively), filha de um ex-prefeito que agredia sua mãe, é dependente sempre afetivamente de um homem. No último quarto do filme, o diretor faz malabarismos para tentar iludir o público sobre a independência emocional de Lily, que assume uma maternidade solo e despacha o marido agressor. Mas se observarmos bem, logo na primeira oportunidade, eis que ela assume o relacionamento com o primeiro namorado, que na verdade ela pouco conhece na vida adulta, depois que ficou rico. 

É incrível como É Assim Que Acaba se constrói inteiramente por cenas apelativas, seja pelos corpos excessivamente padronizados ou pelas cenas de brigas que soam forçadas além da conta. A cena em que Ryle (Justin Baldoni) se atraca com Atlas, o ex-namorado de Lily, no próprio restaurante cujo ele é o dono, é de uma infelicidade atroz, além de ser mal pensada e concebida. Inclusive, os chamados plot twist (os pontos de virada) da história são óbvios e previsíveis ao extremo, e dão margem somente a mais e mais clichês.

A montagem organiza É Assim Que Acaba em duas temporalidades, uma no presente e outra no passado. As sequências do passado são tão forçadas, que chegam a ser chatas e desinteressantes. A obviedade desse roteiro se espelha nessa proposta ingênua de montagem oscilante entre as duas temporalidades. Essa dualidade temporal em nada aprofunda a personagem de Lily, inclusive fiquei a me perguntar o porquê da floricultura, mas quando ficamos sabendo da motivação, realmente muito frágil, aliás, como tudo que esse filme apresenta.     

Fiquei a pensar na própria transformação do personagem Atlas. Quando ele garoto era morador em situação de rua, sua aparência era insossa. Contudo, depois que ele se tornou dono do restaurante considerado o melhor pelas revistas especializadas, ele se torna um cara atraente, isto é, de onde se conclui que o que nos torna bonitos é o dinheiro e o sucesso profissional. A erotização forçada dos corpos é quase constrangedora e o diretor não cansa de exibir e vender o próprio físico, o que mostra o quanto o estranho e o mau gosto dominam esse filme.

O filme pode até vir a agradar alguns pelo apelo sensual e de sofrimento da protagonista Lily Bloom, que sofre com a violência doméstica, primeiro com o pai e depois com o marido, que é um neurocirurgião respeitado. Entretanto, o que a obra evoca é uma imensa pieguice, com pretensão a ser elegante, que é uma baita ilusão, pois o filme não deixa de ser uma sequência de demonstração de riqueza vazia, além de diálogos banais que embrulham o estômago, tais como "você só encontra um cara bonito como eu numa novela". Ao final, É Assim Que Acaba abusa tanto da paciência do espectador quanto Lily é abusada pelo marido.     

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

CLOSE-UP (1990) Dir. Abbas Kiarostami

Texto por Marco Fialho "A arte é um sentimento que se experimenta, que o artista desenvolve nele para compartilhar com os outros". Frase que o personagem Sabzian atribui a Leon Tolstói Estudar o cinema de Abbas Kiarostami é mergulhar no imaginário do cinema. Um dos ícones do cinema iraniano dos anos 1980 e 1990, o diretor realizou obras cruciais para o pensamento cinematográfico contemporâneo. Obras como Gosto de Cereja (1997), Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987), Através das Oliveiras (1994), A Vida e Nada Mais (1992), e outras já produzidas nos século XX1, como Dez (2002), Cópia Fiel (2010) e Um Alguém Apaixonado (2012), todas fundamentais e merecedoras de serem estudadas, não só individualmente, mas também em conjunto para melhor se compreender o pensamento original desse cineasta iraniano, que junto com tantos outros seus contemporâneos, como Mohsen Makhmalbaf, Jafar Panahi e Majid Majidi, formaram a base do que hoje chamamos de cinema iraniano. Mas nesse texto vou come...

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

RETROSPECTIVA VIVIAN OSTROVSKY

Texto por Carmela Fialho Retrospectiva Vivian Ostrovsky "Para mim, cinema experimental significa ter liberdade total - liberdade de duração, de tema, de forma.(...) fazer o que você quer sem se submeter às regras comerciais. São outros valores, não é tanto sobre ser longe da indústria, mas sobre liberdade de criação. De resto, é frustrante ver que hoje o cinema está cada vez mais padronizado, com poucas surpresas".  Vivian Ostrovsky em entrevista inédita a Fernanda Pessoa, extraído do Catálogo do 31º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade 2026. Na retrospectiva Vivian Ostrovsky, assistimos ao programa 2, denominado corpos em trânsito, com os filmes Movie ( V.O.)  (1982); Idas e Vindas   (1984); Copacabana Beach  (1983); Domínio Público  (1996); e U.S.S.A (1985). O que unifica os cinco curtas são as filmagens de corpos humanos em diferentes atividades do cotidiano em várias regiões do planeta, como Estados Unidos, França, Brasil e a antiga União ...