Pular para o conteúdo principal

TWISTERS (2024) Dir. Lee Isaac Chung


Texto de Marco Fialho

Twisters, dirigido por Lee Isaac Chung, como um bom filme de Hollywood não consegue se separar da ideia de heroísmo. Parece que, se algum personagem não assumir essa faceta edificante, ele nada pode ser. É uma condicionante do ato de existir desse cinema, querer encorajar cada cidadão a ser diferenciado, tendo o germe de quem está sempre apto a fazer a diferença. E claro, ainda tem os traumas do passado, esse elemento que gera motivação ou até mesmo culpa nos protagonistas.

Porém, como realizar um filme de catástrofe sem inserir heróis. Twisters trata desse tema que também é muito propício aos efeitos especiais, afinal, como retratar a destruição de um tornado no cinema sem o auxílio da tecnologia, dos recursos tão avançados que se dispõe? E nesse quesito, o filme é uma baita realização, não só pela imagem em si, mas igualmente pelo som muito bem construído. 

Twisters poderia até ser mais um blockbuster alucinado, com muita ação e correria, estrondos e nada mais. Mas é até louvável que o roteiro lembre de abordar uma certa indústria da catástrofe, de poderosos que se aproveitam das destruição e da falência alheia para lucrar e se dar bem. Muito embora, a história aqui se restringe aos peixes pequenos, aos funcionários que concretizam compras de terrenos dizimados por uma bagatela. O chefão, um político, aparece poucas vezes, é praticamente um figurante na história. Sim, mas poderia sequer o filme abordar esse viés crítico e de denúncia. 

Tem ainda a loucura dos caçadores de tornados, uma espécie de cowboys ávidos por domar o fenômeno mais enlouquecido e demolidor da natureza. São figuras que beiram o exótico, que usam da catástrofe como oportunidade mediática, para vender camisetas e as suas próprias imagens nas redes. Contudo, como um filme hollywoodiano existe o herói, aliás, a heroína Kate (Daisy Edgar-Jones), uma pesquisadora inicialmente intuitiva, mas depois uma estudiosa desse estranho fenômeno da natureza. Isso é também interessante, o fato de se ter aqui uma mulher como protagonista de um filme de ação, já que Kate é uma espécie de Furiosa dos ventos. Para acompanhá-la em meio aos tornados tem Tyler (Glen Powell, o astro do momento), um dos cowboys ávido por aparecer nas redes sociais, embora confesse ter achado Glen Powell por demais enfadonho, besta e forçando a barra com caras e bocas em demasia. 

O ponto forte de Twisters é saber se apoiar na atuação carismática de Daisy Edgar-Jones e saber valorizar as boas cenas de ação, bons efeitos visuais e sonoros, além de conseguir aliar a tudo isso um toque de crítica política na história. Mesmo que algumas conversas sobre os tornados sejam para iniciados no tema, elas facilmente se misturam à trama e não causam cansaço. Considero importante frisar a denúncia que o filme faz em relação a políticos espertalhões que se aproveitam da situação de catástrofe para aumentar a sua riqueza e a influência política. Ao final, Kate é a grande heroína e Tyler se submete a ela, que não se dobra facilmente a ele.                   

Apesar de remeter a Twister (1996), essa não é uma continuação, embora seja aproveitado o título anterior como chamariz para Twisters. A Hollywood dos últimos anos não consegue seguir sem os vínculos das franquias, que na maioria das vezes são forçadas, como essa não deixa de ser. A busca pela bilheteria a qualquer custo é bem evidente, até quando o filme talvez nem precisasse dessa forçada de barra. É o caso de Twisters, que pode até necessitar das eternas figuras dos heróis dos filmes de Hollywood, mas não de ser mais uma apelativa franquia a chegar no mercado. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

PECADORES (2025) Dir. Ryan Coogler

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho O cinema negro dos Estados Unidos vem se fortalecendo mercadologicamente como nunca. Diretores como Jordan Peele ( Corra! , Nós  e Não! Não Olhe! ), Barry Jenkins ( Moonlight e Se a Rua Beale Falasse ), Ava DuVernay ( 13ª Emenda  e Selma ) e Shaka King ( Judas e o Messias Negro ), Raoul Peck ( Eu não Sou Seu Negro ). Se falarmos mais retroativamente, encontraremos Spike Lee (com os clássicos  Faça a Coisa Certa , Malcoln X , e os atuais  Infiltrado na Klan e Destacamento Blood ), Melvin Van Peebles ( Sweet Sweetback's Baadasssss Song e Posse: A Vingança de Jesse Lee ) e a força do movimento Blaxploitation dos anos 1970, e o ineditismo de Oscar Micheaux nos anos 1920 e 1930.  O fato atual é que o cinema negro não é mais reservado a um nicho. Os diretores mais recentes mostram uma penetração cada vez mais efetiva no mercado. Pecadores , mais recente filme de Ryan Coogler ( Creed e Pantera Negra ) vem comprovar isso. ...

MOSTRA CINEBH 2023

CineBH vem aí mostrando novos diretores da América Latina Texto de Marco Fialho É a primeira vez que o CineFialho irá cobrir no modo presencial a Mostra CineBH, evento organizado pela Universo Produção. Também, por coincidência é a primeira vez que a mostra terá inserido um formato competitivo. Nessa matéria falaremos um pouco da programação da mostra, de como a curadoria coordenada pelo experiente Cleber Eduardo, montou a grade final extensa com 93 filmes a serem exibidos em 8 espaços de Belo Horizonte, em apenas 6 dias (26 de setembro a 1º de outubro). O que atraiu o CineFialho a encarar essa cobertura foi o ineditismo da grande maioria dos filmes e a oportunidade mais do rara, única mesmo, de conhecer uma produção independente realizada em países da América Latina como Chile, Colômbia, México, Peru, Paraguai, Cuba e Argentina, sem esquecer lógico do Brasil.  Lemos com atenção toda a programação ofertada e vamos para BH cientes da responsabilidade de que vamos assistir a obras di...