Pular para o conteúdo principal

AINDA TEMOS O AMANHÃ (2023) Dir. Paola Cortellesi


Texto de Marco Fialho

Ainda Temos o Amanhã, longa de estreia de Paola Cortellesi foi a maior bilheteria italiana de 2023, tendo desbancado até o blockbuster Barbie, de Greta Gerwig. De certa maneira, essa é uma obra que revisita a própria história do cinema italiano, do neorrealismo às comédias clássicas dos anos 1960/70/80, mas dando a elas uma roupagem contemporânea, visível em pequenos elementos trabalhados com ourivesaria pela diretora. 

Paola Cortallesi é daquelas diretoras para ficarmos de olho mais à frente, por ser uma artista de muitas qualidades tanto pela encenação que propõe quanto pela direção de atores. Há um pensamento cinematográfico na sua condução, em como articula o gênero cômico e dramático na mesma intensidade. Essa combinação, que é tão idiossincrática do próprio cinema italiano, potencializa por demais a proposta, em especial a opção da diretora pelo P&B, que transforma o filme também em um documento histórico. 

Ainda Temos o Amanhã é antes de tudo um libelo feminista soft, delicado e sensível. Cortellesi constrói Delia (interpretada pela própria Paola Cortellesi) de forma encantadora, não tem como não torcermos para essa heroína do cotidiano do pós-guerra. Há nela uma junção de simplicidade e cuidado com todos da casa, mesmo que a devolutiva de seu marido Ivano (Valerio Mastandrea) seja a da violência e da total dominação da esposa. Logo na primeira cena, Ivano antes de levantar da cama, profere gratuitamente um tapa no rosto da esposa, o que de antemão já evidencia o caráter abusivo do seu tratamento. O casamento deles é para lá de opressivo, com Delia sendo uma serva do esposo, vivendo uma prisão e uma vida muito difícil financeiramente. Além de fazer todas as tarefas domésticas, Delia atua ainda em várias frentes de trabalho, tendo que repassar tudo o que ganha para o marido. É uma exploração de indignar qualquer ser humano.  

Mas Delia tem um espírito crítico muito afiado e não repassa todo o dinheiro que ganha, vai juntando, mesmo sem ter um objetivo muito evidente sobre o que fazer com ele. O grande mérito de Paola Cortellesi é o de mostrar as mazelas, mas igualmente as estratégias de resistência e a capacidade de sonhar com um amanhã diferente tanto para ela quanto para a sua filha Marcella (Romana Maggiora Vergano). Delia fora de casa mostra personalidade: flerta com um ex-namorado, o mecânico Nino (Vinicio Marchioni) e com um soldado norte-americano, que lhe oferece chocolate, além de conversar e fumar com Marisa (Emanuele Fanelli), a melhor amiga. 

Na perspectiva de uma sociedade conservadora, o casamento é uma das formas de ascensão possível, em especial quando um país está passando por uma profunda crise econômica, caso da Itália de 1946, em que o fascismo de Mussolini acabara de ser aniquilado pela luta dos aliados. Ainda Temos o Amanhã trata com bastante habilidade esse tema, se utilizando do amor de Marcella por Giullio Moretti, um jovem cuja família enriqueceu no mercado paralelo durante o período da guerra, vendendo informações aos nazistas. Na base da observação, Delia vê a filha se submeter a alguns traços autoritários de Giullio, como o de exigir que Marcella abandone o emprego após o casamento. Ao sentir que a filha tende a fazer um caminho semelhante ao seu, Delia intervém para interromper o processo. 

Contudo, é nessa relação entre Marcella e Giullio que o filme alia drama e comédia na mesma intensidade. A sequência do almoço de noivado é estupenda ao mostrar diversas contradições inerentes a ambas as famílias. Paula Cortellesi trata esse momento com muito cuidado, atenta aos detalhes que cada personagem pode entregar aos espectadores. Tudo é filmado para que não percamos olhares, constrangimentos (que são abundantes) e especialmente as revelações sobre as diferenças econômicas entre as duas famílias e como as mães eram terrivelmente oprimidas por seus maridos. A cena em que Delia deixa a sobremesa cair no chão é perfeita em sua construção. Paola filma a humilhação de Delia pondo a câmera no chão, o que faz sublinhar a impossibilidade real daquele casamento, dado às profundas diferenças econômicas envolvidas entre as famílias.                  

A diretora Paola Cortellesi imprime a Ainda Temos o Amanhã uma perspectiva para além do neorrealismo, pois além de abordar as agruras do social, a diretora concentra a narrativa pelo viés de Delia, o que confere um diferencial cinematográfico à história. O flerte às comédias clássicas dos anos 1960/70/80 vem aliada à incorporação de alguns números musicais pontuais, que fornecem uma aura contemporânea à trama, em especial, por eles criarem uma mise-en-scène diferenciada, que funcionam como uma espécie de comentário temático. As músicas não obedecem a uma lógica temporal, elas vêm de épocas diferentes da retratada, o que causa um efeito sensorial bastante interessante. Esse artifício gera um distanciamento do espectador em relação à história, além de mostrar como uma intervenção cinematográfica pode modificar a concepção geral da obra. No geral, podemos dizer que há uma visível quebra narrativa provocada pelos números musicais, que mesmo que soem aparentemente bastante orgânicos, profundamente se transformam em artimanhas perturbadoras na encenação.

Do ponto de vista narrativo, Ainda Temos o Amanhã alia uma estética antiga (neorrealista) com uma mais contemporânea, para discutir uma temática fundamental, que é a da necessidade da emancipação da mulher numa sociedade ainda dominada por um forte espírito conservador. O filme demarca um divisor de águas em relação aos direitos das mulheres que eram mais da metade da população, apesar de poderem votar pela primeira vez somente em 1946. 

A diretora Paola Cortellesi se apoiou nesses fatos para realizar um filme historicamente importante, e cinematograficamente também, por ressaltar pontos que o neorrealismo, ao mesmo as comédias dos anos 1970 e 1980, não levantaram, como a perspectiva narrativa de uma mulher na narrativa. Como por exemplo, podemos citar "Esposamante" (1977), uma comédia dramática elegantemente dirigida por Marco Vicario e estrelada por Marcelo Mastroianni e Laura Antonelli, que mostra uma mulher refazendo os caminhos e lugares do marido quando este saía de casa como um caixeiro-viajante, mas sempre do ponto de vista do marido, que às escondidas, assiste aos comportamentos libertários da esposa. 

Ao contar tanto o sofrimento de Delia como as suas estratégias de resistência, suas idas e vindas pelas ruas, Paola Cortellesi explora o olhar da personagem perante aos fatos, se utilizando da música contemporânea para sublinhar sutilezas guardadas no coração de Delia, instaurando o lúdico no próprio cotidiano de Delia. Ainda Temos o Amanhã, além de ser um filme sobre a esperança e luta diária de uma mulher espoliada pelo marido, dá um passo crucial ao propor uma atualização oportuna tanto pelo viés histórico quanto cinematográfico.         

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

PECADORES (2025) Dir. Ryan Coogler

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho O cinema negro dos Estados Unidos vem se fortalecendo mercadologicamente como nunca. Diretores como Jordan Peele ( Corra! , Nós  e Não! Não Olhe! ), Barry Jenkins ( Moonlight e Se a Rua Beale Falasse ), Ava DuVernay ( 13ª Emenda  e Selma ) e Shaka King ( Judas e o Messias Negro ), Raoul Peck ( Eu não Sou Seu Negro ). Se falarmos mais retroativamente, encontraremos Spike Lee (com os clássicos  Faça a Coisa Certa , Malcoln X , e os atuais  Infiltrado na Klan e Destacamento Blood ), Melvin Van Peebles ( Sweet Sweetback's Baadasssss Song e Posse: A Vingança de Jesse Lee ) e a força do movimento Blaxploitation dos anos 1970, e o ineditismo de Oscar Micheaux nos anos 1920 e 1930.  O fato atual é que o cinema negro não é mais reservado a um nicho. Os diretores mais recentes mostram uma penetração cada vez mais efetiva no mercado. Pecadores , mais recente filme de Ryan Coogler ( Creed e Pantera Negra ) vem comprovar isso. ...

MOSTRA CINEBH 2023

CineBH vem aí mostrando novos diretores da América Latina Texto de Marco Fialho É a primeira vez que o CineFialho irá cobrir no modo presencial a Mostra CineBH, evento organizado pela Universo Produção. Também, por coincidência é a primeira vez que a mostra terá inserido um formato competitivo. Nessa matéria falaremos um pouco da programação da mostra, de como a curadoria coordenada pelo experiente Cleber Eduardo, montou a grade final extensa com 93 filmes a serem exibidos em 8 espaços de Belo Horizonte, em apenas 6 dias (26 de setembro a 1º de outubro). O que atraiu o CineFialho a encarar essa cobertura foi o ineditismo da grande maioria dos filmes e a oportunidade mais do rara, única mesmo, de conhecer uma produção independente realizada em países da América Latina como Chile, Colômbia, México, Peru, Paraguai, Cuba e Argentina, sem esquecer lógico do Brasil.  Lemos com atenção toda a programação ofertada e vamos para BH cientes da responsabilidade de que vamos assistir a obras di...