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TESTAMENTO (2024) Dir. Denys Arcand

 


Texto de Marco Fialho

Testamento, filme dirigido pelo consagrado cineasta canadense Denys Arcand (O Declínio do Império Americano e Invasões Bárbaras) trata criticamente da falta de diálogo e da intolerância com o seu habitual humor ácido, bem ao seu estilo demolidor de narrar e pensar os nossos atuais modos de viver. Essa, que é a marca do seu cinema, está presente também aqui nessa última obra. 

A própria sinopse divulgada de Testamento, enfatiza, para mim equivocadamente, que o enfoque do diretor é a crítica ao politicamente correto, mas se atentarmos bem, veremos que algumas discussões sugerem essa temática, mas isso ocorre só no nível mais aparente do filme. Como Arcand estica a corda em vários assuntos, pode ficar à impressão de que Testamento está debochando do politicamente correto quando de fato não é o que ocorre.

Tanto é que Arcand se utiliza de um personagem que mesmo fazendo tudo que os manuais de saúde indicam para se ter uma vida longa e saudável, ironicamente morre na frente do protagonista Jean-Michel (Rémy Girard), um homem obeso e que pouco cuidou de sua saúde no decorrer da vida. É brilhante o quanto Arcand desnuda a crença em valores quase matemáticos que aumentariam a longevidade e a saúde de cada um de nós. O discurso emocionado da esposa do morto, um surto fantástico e tragicômico, fecha com chave de ouro os questionamentos do cineasta sobre as diversas propagandas na internet e programas diários nas televisões sobre a saúde e o melhor viver contemporâneos.

Denys Arcand é um cineasta que gosta da polêmica, que insiste em questionar a sociedade, o que exalto como um ato corajoso. O diretor começa construindo a personalidade do protagonista Jean-Michel, um homem que a princípio está na espera de sua morte, que vive em uma casa de repouso do governo, administrada pela solitária Suzanne (Sophie Lorain). Por meio de uma narrativa em off, Arcand mostra o perfil pessimista de Jean-Michel, perante atitudes demagógicas de políticos que só pensam em manter seus privilégios. 

O ponto central na narrativa de Arcand se baseia em um mural que retrata uma visão positiva do processo de colonização, em especial a da relação entre os conquistadores (invasores) europeus e as nações indígenas nativas. Os protestos de um pequeno grupo de classe média universitária na porta da casa de repouso exige a retirada do mural, com a reverberação das mídias televisivas. Essa pressão causa um desconforto entre Suzanne e o governo. As soluções precipitadas mostram sobretudo a falta de diálogo nas questões históricas e de como lidar com elas no presente.                 

Acredito que Testamento enfoque muito mais essa falta de diálogo entre as posições contrárias, uma reação de intolerância tão comum dos nossos tempos. Afinal, apagar um mural artístico que traduz um equívoco histórico não faz a história ser apagada. A recontextualização das obras é a maneira mais lógica de lidar com os equívocos do passado. Recontar a história é uma obrigação das novas gerações, para que a visão dos vencedores não se perpetue. Mas esses testemunhos antigos fazem parte de uma visão de história de outras gerações. O diálogo é a estratégia mais propícia para lidar com esses momentos de inadequação histórica. Diálogo, inclusive, que possibilitou Jean-Michel e Suzanne, almas tão díspares, se encontrarem em meio ao caos de suas vidas.         

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