Pular para o conteúdo principal

CASA IZABEL (2022) Dir. Gil Barone


Texto de Marco Fialho 

Alguns filmes chamam atenção pelo que tem de exótico e diferente. Esse é o caso do sui generis Casa Izabel, de Gil Barone. Apesar de ser todo filmado no mesmo ambiente, a Casa Grande Izabel, o filme apresenta camadas temporais visíveis, desde o nome da fazenda que remete ao passado colonial e patriarcal brasileiros até o tempo presente do filme, já que a história se passa nos anos 1970, em plena ditadura militar brasileira. 

O exótico do filme são os personagens serem militares e se hospedarem numa longínqua fazenda para viver uma fantasia: a de viverem como mulheres, bem no estilo cross-dressing, escondidos de suas esposas, que pensam que eles estão isolados de tudo e de todos numa pescaria. O filme trata então de uma só vez tanto da hipocrisia desses personagens quanto dos sonhos desses oficiais, que em paralelo a sua vidinha de homens socialmente empoderados pelo poder da ditadura, vivem momentos fantasiosos como estrelas de cinema e outras mulheres glamourosas.

Há um clima e um sentido de decadência impregnados em cada cena filmada, que unificam o passado patriarcal à ditadura, agravada pela presença de Leila (Jorge Neto, numa interpretação marcada por uma forte presença cênica), talvez a única personagem assumidamente queer do filme e de Dália (Laura Haddad), uma tia que a adotou como filha. A relação entre os militares cross-dressing e as duas chega ser humilhante, já que ambas trabalham como um tipo de mucamas deles. 

Quem comanda a fazenda é Izabel (Luís Melo, como sempre arrasando na sua composição), detentora desse encontro escondido dos militares que frequentam o lugar como se fosse um clube, onde determinadas fantasias são permitidas. Todavia, o clima hipócrita predomina, já que como bons militares que são, impõe regras de condutas rigorosas, não podendo, por exemplo, ter fornicação na Casa Izabel. Claro que esta é uma regra difícil de manter, já que um dos militares tem um caso com Dália.

Apesar do inusitado da história possuir seus atrativos indubitáveis, é preciso pontuar que o roteiro tem lá seus problemas. A situação de Dália conseguir aprisionar sozinha um homem forte é excessivamente forçada. Como o amordaçou e amarrou no depósito em anexo à casa principal sem que sua presença levantasse suspeita de nenhum dos militares? Fora que esse personagem pouco acrescenta a história e a relação dele com Dália é bastante obscura e sem sentido, pois seu filho já se encontrava preso e ela não passava de uma serviçal numa fazenda em um inóspito interior. A resolução do filme também soa igualmente forçada e sem grande impacto, mesmo que o incêndio em si seja uma ideia plausível, a construção como um todo dele não é tão bem executada.

Mas devemos reconhecer que o diretor Gil Barone consegue alguns bons momentos na montagem, em especial em uma sequência em que combina cortes rápidos entre cenas diferentes, em espaços diversos, buscando uma relação entre eles. A combinação mais interessante, sem dúvida, é a que Dália transa com um dos militares, enquanto outros militares caçam, e Izabel assiste a um vídeo antigo dos encontros na casa, e Leila toma banho numa banheira com rosas enquanto o som de dois tiros diferentes unificam duas mortes. A diálogo entre essas cenas cria um simbolismo potente, de uma ideia de selvageria e acaso fantástico. Talvez seja aí o melhor momento do filme enquanto realização cinematográfica. 

Casa Izabel pode sim ser considerada uma experiência diferenciada, estranha e corajosa de Gil Barone, mesmo que no todo se possa notar algumas incongruências do roteiro e da direção. Fiquei a refletir se Gil Barone queria realizar uma metáfora sobre o período dos governos autoritários dos militares ou se queria mostrar o quanto o patriarcalismo advindo do período colonial perpassava tanto a época retratada quanto a nossa, ainda mais que o filme foi filmado em pleno governo Bolsonaro. Se por um lado podemos lamentar algumas imprecisões interpretativas que Casa Izabel traz em seu bojo narrativo, por outro louvamos a força histórica de sua abordagem sem medo de ousar, inclusive na parte sonora perturbadora e a criar um suspense interessante e oportuno, sustentado por boas interpretações dos personagens.   

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

CLOSE-UP (1990) Dir. Abbas Kiarostami

Texto por Marco Fialho "A arte é um sentimento que se experimenta, que o artista desenvolve nele para compartilhar com os outros". Frase que o personagem Sabzian atribui a Leon Tolstói Estudar o cinema de Abbas Kiarostami é mergulhar no imaginário do cinema. Um dos ícones do cinema iraniano dos anos 1980 e 1990, o diretor realizou obras cruciais para o pensamento cinematográfico contemporâneo. Obras como Gosto de Cereja (1997), Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987), Através das Oliveiras (1994), A Vida e Nada Mais (1992), e outras já produzidas nos século XX1, como Dez (2002), Cópia Fiel (2010) e Um Alguém Apaixonado (2012), todas fundamentais e merecedoras de serem estudadas, não só individualmente, mas também em conjunto para melhor se compreender o pensamento original desse cineasta iraniano, que junto com tantos outros seus contemporâneos, como Mohsen Makhmalbaf, Jafar Panahi e Majid Majidi, formaram a base do que hoje chamamos de cinema iraniano. Mas nesse texto vou come...

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

RETROSPECTIVA VIVIAN OSTROVSKY

Texto por Carmela Fialho Retrospectiva Vivian Ostrovsky "Para mim, cinema experimental significa ter liberdade total - liberdade de duração, de tema, de forma.(...) fazer o que você quer sem se submeter às regras comerciais. São outros valores, não é tanto sobre ser longe da indústria, mas sobre liberdade de criação. De resto, é frustrante ver que hoje o cinema está cada vez mais padronizado, com poucas surpresas".  Vivian Ostrovsky em entrevista inédita a Fernanda Pessoa, extraído do Catálogo do 31º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade 2026. Na retrospectiva Vivian Ostrovsky, assistimos ao programa 2, denominado corpos em trânsito, com os filmes Movie ( V.O.)  (1982); Idas e Vindas   (1984); Copacabana Beach  (1983); Domínio Público  (1996); e U.S.S.A (1985). O que unifica os cinco curtas são as filmagens de corpos humanos em diferentes atividades do cotidiano em várias regiões do planeta, como Estados Unidos, França, Brasil e a antiga União ...