Pular para o conteúdo principal

FURIOSA: UMA SAGA MAD MAX (2024) Dir. George Miller


Texto de Marco Fialho

Se há um mérito que não se pode tirar de George Miller é a enorme capacidade de criar um poderoso mundo imagético e sonoro à sua imagem e semelhança. A franquia Mad Max prova isso, ainda mais essa segunda leva iniciada com a Mad Max: Estrada da Fúria (2015), e confirmada agora, na regressão temporal tour de force para realizar Furiosa: Uma Saga Mad Max, um filme mais preocupado com o drama dos personagens do que na ação em si. O diretor mostra que não é só um bom criador de mundos, mas também um roteirista atento (aqui junto com Nico Lathouris, que igualmente dividiu o roteiro com ele em Estrada da Fúria) imprime uma força impressionante aos principais personagens da trama. 

Um dia antes de assistir a Furiosa: Uma Saga Mad Max vi um vídeo na internet que mostrava o que resta ainda da área verde em nosso planeta e o quanto é assustador como o estamos destruindo com celeridade em nome de uma ambição econômica desenfreada e devastadora. O filme se passa justamente em um futuro distópico, que a princípio pode ser visto como uma visão pessimista, embora talvez hoje seja mais para realista. 

O que mais me chamou atenção em Furiosa: Uma Saga Mad Max é como George Miller idealizou esse mundo do futuro, como ele o pensou tanto do ponto de vista físico (paisagem) quanto psicossocial (personagens). Talvez caiba até uma rápida comparação com a franquia Planeta dos Macacos, justamente porque na terra dos símios, o planeta está destruído, mas vemos os escombros do que fomos, inclusive a Estátua da Liberdade na praia, fora a paisagem da cidade proibida, onde vê-se Nova York, com seu metrô e tudo, enfim, a civilização que pôs tudo a perder está lá materialmente de alguma maneira. 

Se deslocarmos a mesma ideia para Furiosa: Uma Saga Mad Max, ficaremos espantados, pois afinal quais seriam os resquícios materiais do mundo de hoje no mundo do futuro? Materialmente quase nada, apenas alguns bens materiais como carros e armas, embora todos sempre recauchutados ou readaptados. No quesito construções, prédios e casas nada existe como sombra de um passado humano. O que resta é uma produção mínima de gasolina e uma reserva pequena de água. No mais, são paisagens desérticas cobertas por montes de areia amarelada e algumas falésias. Essa é a paisagem presente no filme. Os amontoados de pessoas vivem em cavernas entre morros e reentrâncias de rochas, algo realmente soturno. Há todo o tipo de aberração, olhos ausentes, máscaras artificiais, maquiagens, tintas e roupas estranhas. São corpos adaptados à guerra e a sua permanente eclosão.   

Quando pensamos o filme pelo viés de quem são os personagens, como se relacionam entre si, o lado sinistro se salienta ainda mais. O mundo é dominado pelas gangues, uma espécie de milícia do futuro, que na base da força congrega soldados dispostos a morrer pelos seus líderes. Não há mais países, nenhuma divisão geopolítica clara e muito menos organização política ou partidária, tudo é resolvido apenas pela força física de um sobre o outro, o único motor social são as guerras entre as gangues. Curioso como Miller e Lathouris constroem uma sociedade a partir da dissolução da ideia de grupamentos familiares. Esses elementos sociológicos são determinantes tanto para a distopia montada quanto para os conflitos que vemos constantemente em cena. Furiosa (Anya Taylor-Joy) vem de uma comunidade agrária escondida, ainda com uma pequena unidade florestal preservada, o único oásis visível em todo o filme, e essa é uma região frutífera (tanto que ela anda com uma semente de pêssego na mão).  

De certo modo, o mundo da política praticamente é inexistente, ele é substituído por uma ideia premente de sobrevivência, de guerra sistemática pela vida. Fora do oásis de onde vem Furiosa, não há uma visão de certo ou errado, cada qual luta para se manter como pode em meio ao caos que é a vida naquele território árido e cruel. Quando o cínico Dementus (Chris Hemsworth em ótima interpretação) enfrenta Furiosa, ele mal lembra quem era a mãe dela, o motivo da vingança de Furiosa, dentre as várias mortes que provocou pela vida afora. Dementus diz a ela que também perdeu os pais covardemente, os igualando como seres humanos.

O mundo apresentado por George Miller é sem fronteiras, Estado ou partidos, e pior, quase sem rastros do nosso mundo de hoje, o que aparentemente reduz o filme a si mesmo, como um ente independente de nós, o que é uma mentira, pois a crise que vemos lá é também a nossa, energética, ecológica e de egoísmo, com uma vantagem só perante a nós: não há mais nada a ser destruído, somente alguns humanos que ainda persistem nesse ambiente para lá de hostil. Como em  Mad Max: A Estrada da Fúria, a direção de arte é um forte aliado ao projeto, para estabelecer uma imagética própria, onde algo de futurista está amarrado às sociedades pré-históricas, que abusavam da metalurgia para construção de armas e artefatos de guerra.                

Visto em uma análise dramatúrgica, Furiosa: Uma Saga Mad Max é uma aventura de resistência e força física dos corpos, motivada pela vingança e um exercício mais aprumado de desenvolvimento de personagem, ainda que Furiosa quase não fale durante o filme, apenas expresse corporalmente o que veio fazer nesse mundo caótico que lhe retirou o direito à felicidade familiar. Há uma força imbuída aos corpos, ora tão mecanizados quantos os automóveis e caminhões envenenados que Miller sempre nos brinda. Se por um lado, George Miller mais uma vez mostra que é um craque na criação de um mundo pós apocalíptico, por outro, como boa parte dos filmes de vingança vindo de Hollywood, Furiosa: Uma Saga Mad Max apoia-se numa exagerada personificação da trama e numa subsequente despolitização das ações humanas, mesmo que tenha momentos dramáticos bem construídos, a base política, é sempre frágil, pois tudo se restringe sempre ao indivíduo. Mas afinal, isso é até compreensível e coerente, já que Miller não poderia mesmo trair as bases de sustentação do seu cinema: a narrativa clássica.                        

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

PECADORES (2025) Dir. Ryan Coogler

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho O cinema negro dos Estados Unidos vem se fortalecendo mercadologicamente como nunca. Diretores como Jordan Peele ( Corra! , Nós  e Não! Não Olhe! ), Barry Jenkins ( Moonlight e Se a Rua Beale Falasse ), Ava DuVernay ( 13ª Emenda  e Selma ) e Shaka King ( Judas e o Messias Negro ), Raoul Peck ( Eu não Sou Seu Negro ). Se falarmos mais retroativamente, encontraremos Spike Lee (com os clássicos  Faça a Coisa Certa , Malcoln X , e os atuais  Infiltrado na Klan e Destacamento Blood ), Melvin Van Peebles ( Sweet Sweetback's Baadasssss Song e Posse: A Vingança de Jesse Lee ) e a força do movimento Blaxploitation dos anos 1970, e o ineditismo de Oscar Micheaux nos anos 1920 e 1930.  O fato atual é que o cinema negro não é mais reservado a um nicho. Os diretores mais recentes mostram uma penetração cada vez mais efetiva no mercado. Pecadores , mais recente filme de Ryan Coogler ( Creed e Pantera Negra ) vem comprovar isso. ...

MOSTRA CINEBH 2023

CineBH vem aí mostrando novos diretores da América Latina Texto de Marco Fialho É a primeira vez que o CineFialho irá cobrir no modo presencial a Mostra CineBH, evento organizado pela Universo Produção. Também, por coincidência é a primeira vez que a mostra terá inserido um formato competitivo. Nessa matéria falaremos um pouco da programação da mostra, de como a curadoria coordenada pelo experiente Cleber Eduardo, montou a grade final extensa com 93 filmes a serem exibidos em 8 espaços de Belo Horizonte, em apenas 6 dias (26 de setembro a 1º de outubro). O que atraiu o CineFialho a encarar essa cobertura foi o ineditismo da grande maioria dos filmes e a oportunidade mais do rara, única mesmo, de conhecer uma produção independente realizada em países da América Latina como Chile, Colômbia, México, Peru, Paraguai, Cuba e Argentina, sem esquecer lógico do Brasil.  Lemos com atenção toda a programação ofertada e vamos para BH cientes da responsabilidade de que vamos assistir a obras di...